Together at home, quem diria?

“que dia é hoje

um dia, eu soube

hoje me foge

do espanto ao esperanto

através do ex-pranto

lá se vai meu por enquanto”

A crônica de hoje vai sair assim, sem data, como nos versinhos do Leminski. A mim parece que o mundo, neste preciso momento, cabe inteiro na originalidade simples desses versos. Na verdade eu sei que hoje é terça-feira mas agora todo hoje parece ser um longo domingo. Ou uma longa segunda ou terça-feira, sei lá… Cada qual sabe o dia que lhe dói mais. Falei do domingo não porque me doa, mas por ser o dia do nada a fazer a não ser esperar a inevitável segunda-feira chegar. Só que agora nem a segunda-feira chega mais. E mais uma vez não falarei do coronavirus. Dele eu só quero (e espero) distância. Contra ele, só tenho meus próprios cuidados e os argumentos dos outros. E a ciência. Mas, não sou cientista. Nem pesquisadora, economista, jornalista da grande mídia e muito menos sou política. E aqui eu volto ao princípio: não falarei dele.

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Eu sou fã de carteirinha de tirinhas em quadrinhos. Acho genial alguém conseguir transmitir claramente uma ideia em três ou quatro quadrinhos de desenhos de traços, muitas vezes, bem simples. Entre as minhas preferidas estão As Cobras, do Luiz Fernando Veríssimo. Adoro o sutil e irônico existencialismo do humor delas, e uma das melhores, para mim, é esta que coloquei aqui: enquanto contemplam um céu estrelado, uma cobra diz para a outra: Como nós somos insignificantes, não é? E a outra cobra responde: Vocês quem? E tem outra, do Calvin e Haroldo, do Bill Watterson, que segue essa mesma linha: O Calvin, olhando para o céu estrelado, grita para este: ” SOU IMPORTANTE” E completa, diante do silêncio da resposta: gritou uma partícula de poeira”. Talvez estes sejam os dois arquétipos principais do comportamento humano e deles talvez derivem todos os outros: uns que acham que são muito e outros que se curvam ao quase nada que representamos no universo. Este mesmo universo que é movido pelas forças da física e gerido pelas leis da humanidade (e, para os crentes, de Deus). Esta mesma humanidade tão poderosa que com – ou de – tanto poder, acabou subjugada por um vírus. E eu não quero falar dele.

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Tenho procurado mudar de assunto na minha mente e viver o por enquanto do Leminski. Conversando com uma amiga que vive na Inglaterra, é especialista em virologia e trabalha na linha de frente da pandemia, por lá, comentei como a situação era surreal. Nós tínhamos todos os elementos para isso mas, quando aconteceu, ficamos todos atônitos, incrédulos: É sério, isso? O mundo parou? Nova York parou? Fronteiras fechadas? Não é fake? De repente estamos todos olhando estarrecidos para uma situação que só conhecíamos dos livros e dos filmes apocalípticos de ficção. E, como toda boa realidade de ficção, com todos os elementos e teorias de conspiração, jogatinas políticas, grandes interesses econômicos e não-sei-mais-o-quê, que costumam permear o enredo dessas histórias. E aí, em maior ou menor escala, estamos todos em isolamento social há mais de duas semanas. Fique em casa virou hashtag mundial e o planeta está parado.

Não vou repetir aqui todas as receitas que os populares gurus de ocasião têm dado desde o começo da quarentena, como aproveitar o tempo para ler, aprender um novo idioma, fazer uma faxina interior (e na casa, também), meditar, resignificar-se (argh!), repensar a vida etc. Todo mundo tem uma receita, todo mundo tem uma mensagem e a palavra live já está me dando urticária só de ouvir. Eu mesma tento postar todos os dias alguma coisa legal nos perfis do Instagram e do Facebook. E tudo isso é bonito de dizer e muito legal de fazer, mas não alivia totalmente a mente nem muito menos enche a barriga de ninguém, eu sei. De minha parte, pelo menos, além de pequenas ajudas humanitárias e outras, profissionais, é o que dá para fazer, e cada um vai escapando como pode, mas este é só aquele costumeiro parêntese. E aí, para contrapor as notícias aterrorizantes sobre a doença, o mundo vai se enchendo de notícias boas da outra parte do reino animal: tartarugas invadem novamente as praias, golfinhos e cardumes de peixes nadam tranquilamente pelas águas – agora cristalinas – dos canais de Veneza, esquilos brincam livremente em parquinhos infantis, o leopardo-das-neves (um dia vou contar uma história com ele) volta a ser avistado na Rússia, o buraco da camada de ozônio diminuiu, já se pode ver todas as cores do por-do-sol em São Paulo… E, além disso, o povo, sempre à procura de seus heróis, recolocou nesta categoria os colaboradores e prestadores de serviços de saúde, com os governantes e gestores agradecendo e puxando um grande aplauso mundial. Milionários doam fortunas para o combate à doença, governos tentam garantir alguma renda aos mais carentes e as pessoas pelo mundo se unem em solidariedade e compaixão. E aí todos começam a falar que o mundo será diferente e que seremos melhores no futuro, depois que passarem todos os efeitos do tsunami (porque para mim, ainda estamos na fase do terremoto) que ainda está por vir. E haja peixe pra tanto sonho do mundo, como naquela musiquinha do Guilherme Arantes – a live dele foi sensacional, tenho que dizer! E, falando em live, no próximo sábado boa parte do mundo estará ligado no espetacular evento One World – Together at Home, que contará com a presença de estrelas como Paul McCartney, Elton John, Eddie Vedder, entre outros. And the world will be as one, quem imaginaria, John?

E aí eu, com toda a humildade e daquele meu postinho de observação do mundo, no fundo do meu quintal, tento chegar às minhas próprias conclusões. Ainda tento ficar no por enquanto, mas, entre uma flor e outra, de vez em quando penso na conta que, com toda e absoluta certeza, virá depois. E Imagino quem vai pagá-la, também. Acho também que o mundo vai ser diferente, sim. Modelos sociais, tecnológicos e econômicos que eram protótipos ou apenas engatinhavam, tiveram que aprender a andar depressa, com a crise, e novos modelos também terão que surgir para minimizar os efeitos dela e reerguer a economia mundial. Outros, antes agonizantes, perecerão. As capacidades de criação e de adaptação do homem são ilimitadas e tenho certeza de que coisas boas surgirão. Talvez em algum tempo depois disso tudo vão existir tantos respiradores no mundo, e a um custo tão baixo, que até o planeta – quem sabe? – possa respirar através deles. O mundo vai mudar e eu também espero que encontremos modelos melhores, agora, em relação à natureza humana, não tenho muitas ilusões. Esta eu não acredito que vá sofrer mudanças expressivas. Passada a comoção geral, quando nos sentirmos poderosos novamente, a barganha acabará. Os heróis voltarão às suas identidades secretas e vidas comuns, fazendo apenas o que são pagos (e mal) para fazer, a gratidão cairá no esquecimento e os aplausos vão encontrar outras motivações. Algumas carreiras políticas serão alavancadas, outras descerão por algum ralo, os muito pobres continuarão a lidar com sua pobreza e os muito ricos recontarão seu dinheiro e fecharão novamente suas carteiras. O oportunismo levantará muitos e as circunstâncias enterrarão outros, e a nave seguirá. Golfinhos nos canais de Veneza darão uma boa história para contar dos “tempos da pandemia”. O pôr-do-sol de São Paulo, muita gente se lembrará dele quando os níveis de poluição voltarem às alturas. E quem sabe para onde irão as tartarugas e onde se esconderá novamente o leopardo-das-neves, quando os homens saírem de seu confinamento?

No tempo do Drummond ele dizia que o presente era grande demais, se seguíamos de mãos dadas. E disse também que não seria o poeta de um mundo caduco, nem cantaria o futuro, quem conhece os versos? — Não serei o poeta de um mundo caduco. / Também não cantarei o mundo futuro. / Estou preso à vida e olho meus companheiros. / Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. / Entre eles, considero a enorme realidade. / O presente é tão grande, não nos afastemos. / Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas. — Mas nós não podemos nos dar as mãos agora, o presente é só o por enquanto e o mundo, acho que caducou. Hoje eu me sinto como aquela insignificante poeirinha do universo que eu sou, e o futuro, dizemos por aqui, a Deus pertence. Não acredito nos homens, de uma maneira geral, mas ainda consigo ver Deus em muito do meu dia-a-dia. E quem sabe o futuro não seja só uma das muitas maneiras de Ele se mostrar para nós? Quem sabe, né?

E o final de hoje fica por conta desta bonita crônica de Eduardo Galeano. Questões ideológicas e religiosas à parte, para mim ela soará sempre como uma prece. E não devemos perder a fé (nem mesmo na humanidade).

O Aquém

Estimado senhor Futuro,

de minha maior consideração:

Escrevo-lhe esta carta para pedir-lhe um favor. V. Sa. haverá de desculpar o incômodo.

Não, não se assuste, não é que eu queira conhecê-lo. V. Sa. há de ser um senhor muito ocupado, nem imagino quanta gente pretenderá ter esse gosto; mas eu não. Quando uma cigana me toma da mão, saio em disparada antes que ela possa cometer essa crueldade.

E no entanto, misterioso senhor, V. Sa. é a promessa que nossos passos perseguem, querendo sentido e destino. E é este mundo, este mundo e não outro mundo, o lugar onde V. Sa. nos espera. A mim e aos muitos que não cremos em deuses que prometem outras vidas nos longínquos hotéis do Além.

Aí está o problema, senhor Futuro. Estamos ficando sem mundo. Os violentos o chutam como se fosse uma pelota. Brincam com ele os senhores da guerra, como se fosse uma granada de mão; e os vorazes o espremem, como se fosse um limão. A continuar assim, temo eu, mais cedo do que tarde o mundo poderá ser tão só uma pedra morta girando no espaço, sem terra, sem água, sem ar e sem alma.

É disso que se trata, senhor Futuro. Eu peço, nós pedimos, que não se deixe despejar. Para estar, para ser, necessitamos que V. Sa. siga estando, que V. Sa. siga sendo. Que V. Sa. nos ajude a defender sua casa, que é a casa do tempo.

Faça por nós essa gauchada, por favor. Por nós e pelos outros: os outros que virão depois, se tivermos um depois.

Saúda V. Sa. atentamente,

Um terrestre.

— Eduardo Galeano, no livro “O teatro do bem e do mal”.

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