Da vida real, quem é que sabe, afinal?

Domingo, 31 de maio de 2020 (para fechar o mês e pra não dizer que não falei do leopardo-das-neves)

Um tempo atrás meu filho me convidou para assistir com ele a um dos seus filmes preferidos, A Vida Secreta de Walter Mitty. Ele vivia falando do filme, que era muito legal e coisa e tal, mas como eu sempre prefiro ver filmes no cinema, ficava enrolando, até que um dia resolvi assistir. Hoje eu vou falar dele e do leopardo-das-neves, como prometi um dia desses. Quem for assistir ao filme e não gostar de spoilers, pare por aqui.

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Leopardo-das-neves. Felino raro, arredio e recluso, dificilmente avistado pelo homem, encontrado nas elevadas altitudes das cordilheiras da Ásia Central, Himalaia e planalto do Tibet.

A Vida Secreta de Walter Mitty é um filme baseado no conto homônimo do escritor e cartunista americano James Thurber. Tornou-se tão popular nos EUA que deu origem ao que chamam por lá de ‘Complexo de Walter Mitty’, usado para enquadrar os sonhadores de plantão. O conto é bem simples e narra as aventuras imaginárias vividas, a partir de situações banais, por um cidadão comum e introvertido enquanto espera sua mulher sair do cabeleireiro. Já o filme é bem mais complexo. Nele, Walter Mitty (Ben Stiller no melhor papel de sua carreira) é um sujeito tímido e pacato, responsável pelo arquivo e pela edição de fotografia de uma grande revista, que vive sonhando acordado, também, vivendo suas aventuras imaginárias, e vê a estabilidade de sua vida em risco quando a empresa é vendida e uma transição para revista digital é anunciada. Em meio às inúmeras demissões ele consegue, acidentalmente, bater de frente com um babaca do grupo que agora gerencia a transição da revista. Para complicar ainda mais sua vida, um famoso e temperamental fotógrafo, frequente colaborador da revista, é o escolhido pela diretoria para fazer a última capa impressa, e envia para ele, juntamente com os rotineiros negativos de fotos, um presente de despedida (uma carteira personalizada) e uma mensagem dizendo que sua última foto para a revista é uma que representaria a essência dela em toda a sua existência, indicando o número do negativo. Depois de uma série de trapalhadas e mal-entendidos, o protagonista acaba por achar que o negativo não veio junto com os outros e, ameaçado de demissão, decide ir atrás do fotógrafo para localizar a foto perdida. Walter Mitty nunca havia vivido uma aventura real na sua vida. Nessa busca, seguindo uma série de pistas e viajando metade do mundo, com direito até a uma escolha entre um carro vermelho e um azul, lembrando Matrix, e um embarque espetaculoso em um helicóptero ao som de Space Oddity, de David Bowie, ele acaba indo parar no Nepal, onde o fotógrafo estaria tentando fazer o registro fotográfico de um animal raro e difícil de ser avistado, o leopardo-das-neves. Eles se encontram no meio das montanhas onde o fotógrafo está com acampamento montado, e lá ele descobre que o negativo esteve o tempo todo dentro da carteira que ganhou de presente. Durante a conversa aparece o tal do leopardo e o fotógrafo, depois de enquadrá-lo perfeitamente, acaba não fazendo a foto e fica apenas observando até que o animal desapareça de vista novamente. Como justificativa para isso ele diz que às vezes poder viver um momento como aquele vale mais do que qualquer foto que ele pudesse fazer. Ou algo assim. É o ponto máximo do filme, para mim! Quando volta para casa, Walter Mitty acaba sendo demitido (não sem antes colocar para fora tudo o que calou até ali) porque já havia jogado fora a carteira onde estava o negativo. Depois, conversando com sua mãe ele descobre que ela havia retirado a carteira do lixo e envia o negativo à revista sem sequer olhar para ele. No fim (se eu não contasse não faria sentido ter escrito até aqui, sorry!), ao passar por uma banca de jornais ele vê a última capa da revista, com a foto que o fotógrafo descreveu como a essência daquela publicação: um retrato do próprio Walter em frente ao prédio da empresa, examinando um negativo contra o sol, provavelmente imaginando uma edição para a revelação dele.

Quem assistiu ao filme Matrix sabe que Morpheus oferece a Neo a escolha entre duas pílulas: a pílula azul, através da qual ele esqueceria tudo e voltaria para sua vida de supostas ilusões e tédio, e a vermelha, com a qual ele embarcaria rumo ao desconhecido e encontraria o mundo efetivamente real. Esta pequena crônica não é nenhuma fábula de La Fontaine e talvez careça de uma moral da história no final, para justificá-la, mas, como se diz em inglês, melhor do que no nosso português, who cares? Meu blog, minha vontade, meu momento… Porém, se tivesse que dedicá-la a alguém, dedicaria aos que conseguem enxergar o essencial do mundo que, no mais das vezes, é também o mais simples dele. E, querem saber mais? No filme, Walter Mitty escolheu o carro vermelho. E o nome da revista era Life.

E aos céticos deste nosso mundo difícil, digo apenas – e mais uma vez – que as histórias que eu sei são só as da Gata Preta…

2 comentários em “Da vida real, quem é que sabe, afinal?

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