Para escrever bem ou rezar

Sábado, 31 de julho de 2021 (ah, os julhos que me pesam tanto…)

Tenho rabiscado muita coisa e terminado muito pouco desses rabiscos. À medida que o calendário avança, fico lembrando a mim mesma da promessa de postar pelo menos uma vez por mês. Diametralmente oposta a esta, no entanto, interpõe-se outra que fiz, de nunca escrever por obrigação. Uma foi feita para justificar a anuidade que eu pago no blog e a outra, para ratificar a intenção de escrever pelo simples prazer de escrever. O prazer de escrever continua mas às vezes as ideias aparecem e a mente trava, e já aprendi que nessas épocas, o melhor é não forçar. Para piorar, julho ainda é, para mim, um mês de trabalho exaustivo e assim, para encurtar a história, hoje eu vou escrever no meio termo entre as duas promessas.

Praticamente toda a minha vida escolar foi vivida entre as sólidas paredes e dentro dos altos muros de colégios católicos. Este fato, se por um lado não me tornou uma crente praticante dentro dos preceitos dessa religião, por outro conseguiu transferir para mim a parcela que supostamente me cabe do peso daquela cruz que Jesus carregou. De todos os vínculos que consegui cortar, este foi um dos que ficou. Por mais que eu tente, ele volta em momentos determinantes, na minha vida, e não tem nada que eu possa fazer a respeito. Não é uma sensação boa, é só o que eu posso dizer. Mas teve outro que ficou, também, e já este, ao contrário, me transmite paz e serenidade: eu rezo o Pai Nosso todos os dias. O hábito vem de muito longe no tempo de minha vida. Desde os ensinamentos de minha mãe e das aulas de catecismo. Mas o que o consolidou não foi nenhuma dessas duas razões.   Quando eu era ainda uma pré-adolescente e repetia, sem refletir, a oração maior do Cristianismo, vi uma historinha interessante num livro de Religião, que colocou definitivamente o Pai Nosso na minha agenda diária. No pequeno texto, um padre narra uma conversa que tivera com um amigo, que questionava a própria fé e pedia que lhe aplicasse um teste para saber se era um bom cristão. “Para saber se você é um bom cristão, verifique se sua vida cabe inteira dentro de um Pai Nosso”, foi a resposta serena do padre. 

Escrever pelo simples gosto de escrever é um esporte que, como toda prática esportiva, exige técnica. Também como todo esporte, exige regras. A respeito disso – e até por acaso – um dia desses, nos meus passeios pela internet, topei com as “40 regras para escrever bem” (ou algo assim) escritas por ninguém menos que Umberto Eco. Este escritor, filósofo, linguista, etc, é um sujeito que dispensa predicados, apostos, epítetos ou qualquer qualificativo que valha para descrevê-lo. Seu lugar na literatura mundial é bem maior do que aquele que ocupa na minha estante e no meu Caderninho Azul® e é, desse modo, alguém que merece ser ouvido, ponto! Por esta razão de amor ( e também de curiosidade) utilizando a mesma fórmula do Pai Nosso, usei essas suas regras para submeter a mim mesma um teste de boa escrita. Tipo, como eu sei se sou boa escritora (#projetode) ou algo assim. Foi um exercício legal. Nem decepcionante, nem estimulante, nem arrasador e muito menos envaidecedor. Assim como o do Pai Nosso, também este exercício acrescentou alguma coisa às poucas coisas que eu sei do mundo. 

O exercício do Pai Nosso que faço todos os dias, não o faço mais para me provar cristã, como era o objetivo naquelas priscas eras. A despeito do peso da cruz, o que ainda me parece importante é a fé em Deus ou em algo que a ele remeta, e esta fé eu consegui entender da minha própria maneira. As palavras do Pai Nosso hoje me falam mais sobre como sermos pessoas melhores, eu acho.  Rezar esta oração antes de dormir me auxilia na faxina espiritual que faço todas as noites e isto não é – preciso muito dizer isso – uma receita de manual de autoajuda. É antes uma maneira simples, pessoal e boa de viver, e este é o meu parêntese de hoje. 

Voltando ao prazeroso esporte de escrever, acrescento à técnica e às regras mais uma característica fundamental aos bons esportistas: o estilo pessoal. Aquela marca diferenciada que alguns atletas conseguem imprimir à sua trajetória e que transcendem, muitas vezes, ensinamentos e regulamentos. Umberto Eco foi um destes atletas ímpares e excepcionais nas categorias por onde passeou. A respeito disso, às suas preciosas dicas (que carregam sua marca indelével) para bem escrever eu acrescentaria algo que ele talvez – apenas talvez – aprovasse: regra 41. Encontre seu próprio estilo e siga a seu caminho por aí. 

Sobre a associação destas duas ideias, do Pai Nosso com as regras de escrita, digo apenas que a vida segue melhor tanto quanto maior for a nossa capacidade de assimilar o novo, aprimorar o bom e corrigir o mal ou o mal feito, eu penso. E se isso não estiver dentro de um Pai Nosso, entendi tudo errado.

O Pai Nosso todo mundo conhece, então deixo aqui, para finalizar e a quem interessar possa, as regras do mestre para bem escrever. Só neste pequeno texto já devo ter quebrado metade delas mas, para me consolar um pouco, lembro a mim mesma que por mais que eu tenha me esforçado, nunca consegui ler O Pêndulo de Foucault. Adiante, com humildade!

1.Evite as aliterações (só os “estúpidos” gostam delas);

2.Não abuse do subjuntivo: utilize-o somente quando for necessário;

3.Evite as frases feitas como em “a sopa requentada”;

4.Escreva como você se expressa;

5.Não use jargões nem abreviações;

6..Lembre-se sempre de que o parenteses (ainda que pareça indispensável) interrompe o raciocínio do discurso;

7.Não exagere nas reticências;

8.Não use muitas aspas. As citações não são “elegantes”;

9.Não generalize;

10.A linguagem hostil não é de bom tom;

11.Restrinja as citações. Emerson disse com razão: “Odeio as citações. Conte-me apenas o que você sabe.”;

12.As comparações são equivalentes às frases feitas;

13.Não seja redundante e não repita duas vezes a mesma coisa. Redundância é explicar algo que o leitor já entendeu;

14.Só os ignorantes usam palavrões;

15.Tente condensar sempre.

16.A hipérbole é uma excelente técnica expressiva;

17.Não construa frases de uma só palavra;

18.Cuidado com as metáforas que são muito atrevidas. Elas são “plumas sobre as escamas de uma serpente”;

18.Ponha as vírgulas nos lugares adequados;

20.Aprenda a diferenciar a função do ponto e vírgula e dos dois pontos: não é tarefa fácil;

21.Se não encontrar o vocabulário ideal, não recorra a expressões populares: “a emenda é pior que o soneto”;

22. Não use metáforas incoerentes, ainda que elas soem bem. Elas são “cisnes degolados”;

23.As perguntas retóricas são necessárias de verdade?

24.Seja conciso e tente condensar os seus pensamentos usando o menor número de palavras e evitando frases longas; assim você evitará que o seu discurso fique contaminado (uma das tragédias do nosso tempo, que é dominado pelo poder dos meios de comunicação);

25.Os acentos não são errados nem inúteis, quem os omite se equivoca;

26.Não se coloca apóstrofe em um artigo indeterminado antes de um substantivo masculino*;

27.Não exagere na ênfase! Use o ponto de exclamação com moderação!;

28.Nem mesmo o escritor mais descolado usa muitos estrangeirismos.**

29.Escreva corretamente os nomes estrangeiros como os de Baudelaire, Roosevelt, Nietzsche e etc.;

30.Cite os autores e personagens a quem você se refere sem a perífrase, assim como fez o maior escritor e linguista do século XIX, o autor de El 5 de mayo;

31. Use a Captatio benevolentiæ no começo do discurso para se insinuar ao leitor (mas é melhor que você não seja ingênuo para entender o que estou dizendo);

32.Tome muito cuidado com a ortografia;

33.É importante lembrar as omissões (dizer o que não vai contar) são desesperadoras;

34.Não use ponto e vírgula frequentemente, apenas quando for necessário;

35.Não use o plural majestático. Ele causa uma péssima impressão;

36.Não confunda causa com efeito: você pode se equivocar e cometer um erro;

37.Não construa frases em que a conclusão vem antes das premissas: se você o fizer, as premissas poderão ser deduzidas a partir das conclusões;

38.Não use arcaísmos como hápax legomena ou outros lexemas não usuais, assim como estruturas de radicais que superam as habilidades cognitivas do destinatário;

39.Não seja prolixo, mas também não seja breve.

40.Cada frase deve ter um significado com contexto independente.

P.S. As regras com asterisco fazem sentido apenas no italiano do autor. Aprender esta belíssima língua é um dos meus projetos de vida. E se a vida correr como eu espero, quem sabe um dia eu não consiga explicar isso no original?

6 comentários em “Para escrever bem ou rezar

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: