Domingo, 30 de julho de 2023 (isto foi ontem)
TAG diz que eu li por aí…
Dia 30 de julho é o Dia Internacional da Amizade, data oficial da ONU. A origem da data é creditada a um médico paraguaio, Ramón Artemio Bracho, que idealizou uma campanha intitulada Cruzada Mundial da Amizade, cuja intenção era estimular e difundir uma cultura de paz através da boa convivência entre os povos. Não sei nada além disso mas todos os anos eu me lembro da data. Talvez porque eu goste da ideia da boa convivência, sei lá… Mas aí eu penso: Que besteira! E mesmo assim, até pouco tempo atrás eu costumava postar alguma coisa legal sobre isso no Facebook, minha rede social preferida ainda hoje. Num desses anos passados a lembrança veio na forma de uma historinha muito legal da Turma da Mônica, que guardei por muito tempo. A pequena história, ao tempo em que resume a amizade entre o Cebolinha e o Cascão, mostra também tudo o que envolve uma amizade e as sem-razões que não a explicam. E, mesmo sem achar que necessite de uma data para celebrá-la, hoje me deu vontade de falar disso, dessa atração que ninguém entende, esse amor que não se explica e que deixa em nós, muitas vezes, marcas que se mostram indeléveis ao longo da vida.
Amizade é, antes de qualquer coisa, um valor pessoal. Como tal, cresce e diminui de acordo com a cotação que cada um lhe atribui. Na Wonderland em que fui criada sempre foi e ainda é uma moeda forte. Meus avós tiveram amigos da vida inteira. Meus pais, idem. Eu mesma carrego comigo o amor daqueles que pude manter e não imagino a minha vida sem a presença deles, perto ou longe. E os amigos dos meus filhos que frequentam nossa casa ainda são os mesmos desde a infância e a adolescência deles. Minha filha, quando vem passar férias em casa, dá sempre um jeito de rever os amigos que ficaram de cada núcleo da antiga vida dela aqui. E na última sexta-feira, foi dançando na festa de formatura do último dos amigos do meu filho mais novo a se formar que comecei a pensar na historinha de hoje.
Falar sobre amizade, principalmente sobre amizades antigas, que atravessam o tempo de nossas vidas, não é tarefa fácil. Parece que quando contadas, histórias sobre isso deixam ainda muito por dizer. Mas eu gosto sempre de pensar (e de falar) que não existe conforto maior no mundo do que contar com as pessoas que nos conhecem a fundo, aquelas com quem compartilhamos os bons e os maus momentos de estrada. Sobre isso eu guardei alguns trechos de depoimentos do Milton Nascimento, do Lô Borges e do Márcio Borges, num ciclo de entrevistas sobre os 50 anos do disco Clube da Esquina, que os três fizeram juntos: – –“Eu costumo dizer que, sem a amizade, nada disso teria acontecido. E vou ainda mais longe: tenho certeza de que nada na minha vida seria como foi sem os amigos que tive, e que ainda tenho, ao meu lado” – Milton Nascimento. –“A amizade, a confiança e o amor entre essas pessoas regeram o disco, são a base de tudo” – Lô Borges. . –“Eu sentia que minha geração tinha que seguir aqueles passos de Sabino, Mendes Campos e Lara Resende, o amor pela cidade e a dedicação à arte, à literatura, à poesia, ao cinema e à amizade”, descreve o compositor. “Esses caras realmente existiram em Belo Horizonte, circularam por lá, e criaram uma mitologia urbana que influenciou muito eu e Bituca na nossa juventude. A gente quis ter esse elo de amizade que ultrapassasse o tempo e as fronteiras, como de fato conseguimos experimentar e provar que é possível. Atravessar uma vida inteira sendo amigos, baseados na honestidade, na lealdade, na franqueza, na afinidade de hábitos, nos sonhos e projetos comuns. E tamo aí, um mais velho do que o outro” – Márcio Borges.
Foi também da historinha da Turma da Mônica que me lembrei quando li numa matéria, um tempo atrás, que Chico Buarque de Holanda – o cronista – também viajou longe na questão da amizade. Tão longe que chegou a Miguel de Montaigne – o humanista – que, ao ser questionado sobre o porquê de sua aparentemente inexplicável amizade com outro humanista, Étienne de La Boétie, respondeu que “gostava dele e pronto”. Da morte precoce deste amigo é que teria saído seu ensaio Da Amizade (sic). Depois de 15 anos, revendo a frase que escreveu, Montaigne acrescentou à primeira justificativa que gostava do amigo “porque era ele”. Passados outros 15 anos mais, lacrou finalmente a sentença com um acréscimo definitivo: “porque era ele, porque era eu”. Chico Buarque – o poeta – pegou o espírito, partiu de amizade para outro tipo de amor e compôs a música Porque Era Ela, Porque Era Eu (a música é muito deprê e muito nada a ver, tenho que dizer). E eu, que vivo de história em história, valho-me dos dois – Chico e Montaigne – para dar um lustro a esta pequena reflexão. Além deles, sirvo-me à vontade da Tetralogia Napolitana de Elena Ferrante, uma das visões mais realistas que já li sobre o tema.
A autora italiana, que ainda se mantém sob pseudônimo mesmo depois do sucesso estrondoso no cenário literário mundial, disseca a ideia de maneira precisa. Seu romance tem como base seis décadas das vidas de duas meninas que, nascidas e criadas num bairro pobre e violento da periferia de Nápoles, foram amigas durante toda a vida, apesar das enormes diferenças entre suas personalidades. No período da grande convulsão social que tumultuou a Itália na segunda metade do século XX, elas, juntamente com um grupo de crianças da vizinhança, inserem-se no contexto das manifestações estudantis, lutas de classes, disputas políticas, máfia, terrorismo, muita violência doméstica e até mesmo o grande terremoto que devastou a cidade na década de 80. É também um livro bem interessante para quem gosta de sacudir a poeira dos livros de História ou de recordar a voz do Cid Moreira no Jornal Nacional.
Mas a essência do livro não é o seu contexto histórico, na verdade. O tema central, o essencial dele, é a amizade (pelo menos foi assim que eu entendi) e aquele justo valor que cada personagem atribui a ela. À medida que a história avança, ou, melhor dizendo, à medida que a vida das personagens segue, nós vamos observando a evolução desta amizade nos contextos das vidas de cada uma delas. Ao longo do tempo vamos acompanhando as mudanças nos valores pessoais, nas perspectivas, nas visões pessoais do mundo e das pessoas. Ilusões perdidas, decepções, grandes sucessos, traições, estrondosos fracassos, retomadas de consciência… Valores esquecidos, trocados, resgatados, rejeitados… tudo o que expõe, enfim, as fraquezas da nossa triste natureza, mesmo no contexto do que é (mais uma vez: pelo menos para mim) um dos mais sagrados dos relacionamentos humanos. É uma história que diz muito sobre o que o correr da vida e o tempo fazem conosco, e ela termina como terminam todas as nossas boas e más histórias humanas. O final me fez chorar e isto nem chega a ser um spoiler. É do poeta Rainer Maria Rilke o verso que diz “Quem assim nos fascinou, para que tivéssemos esse olhar de despedida em tudo o que fazemos?”. E eu só sei que é assim, mesmo que ninguém queira. Dava até uma boa moral para esta pequena fabulazinha…
Amigos o acaso junta, a afinidade seleciona, o amor alimenta e o respeito mantém. Se fosse escrever uma tetralogia sobre amizade, seria esta a base dela. E se me obrigassem a dar uma data comemorativa para isso, sugeriria a data mais móvel e imprevisível que há: um dia chamado tempo. Um brinde aos que fazem bom uso dele, então!
E ao Maurício de Sousa também






Bela crônica! Um onde à amizade! Que tenhamos nossos amigos sempre ao nosso lado, mesmo que distantes!
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