Got back (Eu e o Paul Mccartney)

Terça-feira, 5 de dezembro de 2023 (…)

Então foi isso, quatro meses sem postar nada.

Esta postagem de hoje, então, bem que poderia ser a crônica-resumo desses meses, que tão improdutivos mostraram-se por aqui. Poderia ser uma crônica de desculpas esfarrapadas para a falha da promessa pessoal de pelo menos  uma crônica mensal. Poderia ser também a crônica da volta à rotina normal de agosto, depois do trabalho duro do mês de julho, quando fiz a última postagem… Poderia ser a crônica das férias de setembro, durante as quais pisei em alguns dos lugares com os quais sonhei minha vida inteira… Ou até de outubro, quando vi o sol nascer na Mantiqueira, no dia do meu aniversário… Mas não, não vou me perder por aqui… Não vou usar nenhuma desculpa para a autêntica falta de vontade de postar no blog nesses últimos três meses. Além da mais pura preguiça de terminar crônicas inacabadas – ah, sim! Eu comecei várias. Talvez uma hora eu até volte a elas, mas não hoje. Hoje eu vou voltar só até o último dia de novembro.  Hoje eu vou falar do Paul Mccartney.

Viver é realizar sonhos, diz o povo quando não tem muito o que dizer. Ver um show do Paul era um dos meus sonhos mais antigos. O Tavito deve ter muito a ver com isso: a primeira memória que eu tenho dos Beatles é a do som deles tocando na vitrola de Rua Ramalhete, com o melancólico refrão “Será que algum dia eles vêm aqui? / Cantar as canções que a gente quer ouvir?” ao fundo. Eu tinha, sei lá, uns dez anos, talvez. E foi então que eu comecei a escararunchar a história da banda. Não tínhamos internet mas tínhamos revistas livros, televisão… E onde quer que eu ouvisse o nome de um deles, parava tudo para saber mais. Aquele era um tempo fantasioso de heróis e vilões, e eu aprendi a amar os Beatles e também  a odiar Yoko Ono muito cedo. Não demorou muito tempo e eu também acompanhei o mundo na fenomenal comoção que o assassinato de John Lennon provocou. Eles não viriam mais aqui, isto era um fato!

Nunca fui o que se pode chamar de fã ardorosa da banda. Até o fim da adolescência, nem conhecia muito as músicas, na verdade. A mitologia e a história eram o que me fascinava mais. Tive, no entanto, no ensino médio,  uma professora de literatura que tinha sido meio hipponga nos anos 60 e esta, sim, era uma beatlemaníaca de respeito. Ela era nossa vizinha, em Minas, e frequentava as festas da nossa casa, juntamente com o marido, violeiro fino e amigo do meu pai. Ficou marcada na minha memória a depressão que ela teve quando arombaram sua casa, uma vez, e a única coisa que levaram foi a coleção completa dos Beatles, que ela guardava como um tesouro desde a adolescência. Acho que foi ali que eu vi que só  podia ter mais, além de história.

Com o tempo eu fui me aprofundando mais no mundo dos Beatles. Saí da curiosidade e idolatria vazias para o que as justificou, de fato: as músicas. Aí, sim, me apaixonei de verdade! Das letras bobas, porém,  marcantes, às mais bonitas e mais marcantes, ainda. E me apaixonei, sobretudo, por Paul Mccartney. O Paul sempre foi meu Beatle preferido e isto talvez seja resquício do romantismo infantil e adolescente que o via como o mocinho numa trama de vilões. Ele sempre foi o mais bonito, também.  E, salvo algumas exceções, era quem cantava as minhas músicas preferidas da banda. Mais algumas voltinhas no relógio e algumas biografias a mais, descobri também que, além de fofo, simpático,  multinstrumentista,  letrista fenomenal etc, o Paul é também um dos maiores marqueteiros da história da música mundial, e isso explica muita coisa. Desvendar a vida “secreta” dos nossos ídolos às vezes nos mostra seus pés de barro e isso quer dizer apenas que conseguimos vê-los no seu lado humano, como nós.  A excepcional Larouse dos Beatles (The Beatles – A Biografia), por Bob Spitz, expõe a vida dos quatro de maneira jornalística, por assim dizer, e séria. São mais de oitocentas páginas de fotos, fatos e lendas (contadas como lendas, mesmo) da história dessa manda que mudou os rumos da música no mundo. Conta, entre outras coisas, a história da criação de cada uma das músicas deles. Ouvir cada uma delas à medida que lia sua história – e eu fiz isso, de fato! – foi um exercício delicioso e muito revelador. Mas este é só aquele parêntese que me faz perder o ritmo. Vou voltar ao Paul.

Aqui em casa todo mundo é fã do Paul, eu e minha filha com mais entudiasmo, talvez. E nós sempre brincamos com o fato de ela fazer aniversário no mesmo dia do dele. E meu sonho de assistir a um show dele junto com ela também era antigo. Ela já tinha ido a dois deles e não se conformava por nós nunca termos ido, também. Confesso que, no que me diz respeito. o motivo maior era a preguiça de montar a logística para um show grande como esse. Mas, Paul Mccartney já passou dos oitenta e não vai virar uma pedra cantante, por mais que ele tenha encantado o mundo. Então, desta vez resolvi encarar. Tentamos comprar ingressos para o show de São Paulo, porque minha filha mora lá, mas estavam esgotados em poucos minutos. Mudamos a tentativa para Brasília e conseguimos. Meu irmão mais novo mora lá e já tinha nos convidado. E foi assim, com minha família inteira: marido, filho, filha e genro, que realizei este antigo sonho. A logística foi muito simples: fomos todos caminhando para o estádio (com direito a uma parada para tomar sorvete no shopping). Chegamos com antecedência e não enfrentamos nem fila, achamos bons lugares e nos sentamos (nada de 3 horas em pé na pista premium para nós) e ficamos ali, brincando, conversando e curtindo a expectativa do show.

Mas e o show, hein?

Nunca antes tinha ido a um show grande como esse. Eu olhava e olhava aquele mundaréu de gente se acomodando no estádio. Dava para sentir a espectativa coletiva daquela multidão. Pouco tempo antes do Paul, entraram os telões laterais contando uma história que vai subindo uma torre. Fatos, fotos e pop arts de uma lenda viva que sabíamos que entraria em cena a qualquer momento. (A música fica um pouco chata de vez em quando). Quando o topo da torre finalmente apareceu, Paul Mccartney entrou no palco e fez delirar a multidão dando um “boa noite, Brasília”, em português. Se me perguntarem agora qual foi a primeira música que ele cantou eu não vou saber dizer porque estava respondendo mentalmente ao Tavito: um deles veio aqui. E eu vi!. Estava vendo Paul Mccartney ao vivo!

As músicas da primeira parte do show não me disseram muito. Eu gosto do Paul mas nunca curti muito os Wings. Algumas músicas dos Beatles que ele cantou também não me empolgaram. Ou porque não gostava ou porque não conhecia ou lembrava mais. Em nenhum momento, no entanto, eu deixei de me dar conta de que estava ouvindo Paul Mccartney ao vivo e, sendo assim, ele podia cantar até o Lepo Lepo que estava bom. Mas o show foi crescendo perceptivelmente. Nos primeiros acordes de Blackbird eu já estava chorando sem conseguir me controlar. É estranho, mas um tipo bom de estranheza, poder sentir uma emoção tão grande com alguma coisa boa. Eu acho! Let it be me arrancou muitas lágrimas a mais e a apoteótica apresentação de Live and let Die (ponto para os Wings, ok) mudou o ritmo do meu coração por um tempinho. Mas nada, nada mesmo, se comparou a ouvir mais de 60.000 pessoas cantando juntas o refrão de Hey Jude. Foi equivalente, para mim, a ouvir aquele Pai Nosso em uníssono, que eu tanto gosto, apesar de não gostar das missas.  E que me perdoem a heresia, os mais sensíveis. 

Foram duas horas e cinquenta minutos de um show inesquecível. Saí do estádio meio em transe. Voltamos caminhando,  tranquilamente, junto com um mar de gente, que foi reduzindo até que ficamos só nós,  já chegando em casa.  Brasília ainda tem dessas coisas. Na conversa geral da volta, cada um com suas impressões,  mas uma era comum a todos: será que Paul Mccartney sabe que tem 81 anos de idade? Sério, o velho esbanjou, além do talento e da simpatia de sempre, uma energia impressionante. Não parou um instante sequer, acho que nem para beber água. Deve ser coisa lá das divindades, sei lá…

E, por fim, como bem disse o meu mestre Guimaraes Rosa, “o correr da vida embrulha tudo”. O tempo vai passando e nós vamos perdendo muito do romantismo bobo que às vezes embala nossas ideias e nossos sonhos das priscas eras. A vida real faz engrossar nosso couro, como nós falamos por aqui. Mas, penso que dá para endurecer sem perder, se não a ternura, pelo menos o entusiasmo. E cada vez mais eu me convenço de que viver bem é alcançar este equilíbrio. O show do Paul foi uma maravilhosa experiência nova em cima de um sonho antigo, e de um mito pessoal antigo, cultivados ao longo dos anos da minha vida. E depois dos cinquenta, quando já estamos descendo a ladeira, que bom que é poder contar uma história assim!

Das canções que eu queria ouvir o Paul não cantou The Long and Winding Road e nem Yesterday.  Nem Norwegian Wood e Strawberry Fields Forever, mas estas eram lombras do John. Salve, Tavito, mesmo assim! Ele encerrou o show com um simpático “até a próxima “ que me deixou meio melancólica. Mas talvez também o tempo corra diferente lá na esfera das divindades, não é? De qualquer forma, este deve ser sempre o espírito!               Live and let die, Paul! We will come together.

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