Ao que temos para hoje e para o que vier depois

Sexta-feira, 31 de dezembro de 2021 (chuva torrencial e eu não vou ver a Via Láctea)

Último dia do ano. Transição do fim de um tempo e início de outro, como o povo gosta de dizer. Daqui a pouco o céu do planeta Terra começará a se iluminar com fogos de artifício. Férias, festas, shows, muito brilho e o som dos rojões e o papoco das rolhas de espumante será a batida musical da marcação de um instante. Esta é toda a realidade propagada do momento, a que faz a mídia rodar e as redes sociais encherem-se de sorrisos. Entre banhos de mar, sal grosso não sei onde, sementes de uva na bolsa, vestes brancas, amarelas ou verdes,   mandingas, oferendas, missas etc, cada um vai dar sua receita para ter um ano bom. Retrospectiva de melhores momentos do ano que passou, boas promessas para o que se inicia amanhã, esperanças renovadas… de tudo isso fala-se um pouco e todo mundo acaba entrando no clima de um jeito ou de outro. O meu jeito geralmente é o outro, e é por ele que eu vou hoje.

Não gosto mais da época, exceto pelo feriado. Ficar em casa hoje é um luxo cada vez mais cultuado, sobretudo depois da “preguiça social” que adquiri na pandemia, e é onde eu gosto de estar. Baladas nunca foram o meu forte e agora é que não o são, mesmo. Férias na praia – ou qualquer dia na praia – também é luxo mas nesta época, entre o brilho dos flashes e o das taças de espumante, perde totalmente a graça. Acho a queima de fogos um espetáculo até bonito, mas o céu tem espetáculos que o homem, com toda a sua pirotecnia, ainda não conseguiu reproduzir. A luz branca do luar sobre uma montanha, o brilho da Via Láctea numa escuridão de lua nova ou um por de sol tocando fogo no mar valem uma nota que nenhum Veuve Clicquot conseguirá alcançar. E a emoção de ouvir o silêncio das estrelas, o ensurdecedor estrondo dos foguetes e rojões jamais conseguirá igualar.

Sobre as ‘receitas’ para ter um ano bom, que bom seria se todos ouvíssemos as vozes dos poetas: “Ficção de que começa alguma coisa! Nada começa: tudo continua.”, disse o Pessoa. Na gentil ilusão de que tudo vai acabar para começar de novo, ninguém se lembra do que não mudou e não mudará de um dia para o outro. “O ano passado não passou, continua incessantemente”(…) “Embora sepultos, os mortos do ano passado, sepultam-se todos os dias”. (…) “e as pessoas, também as mesmas. com iguais gestos e falas” – falou o Drummond, que também disse que é dentro de nós mesmos que o Ano Novo cochila e espera desde sempre.

Um repórter perguntou a Paul MacCartney, numa entrevista para os últimos shows dele no Brasil, uns anos atrás, se ele tivesse que escolher um dia na vida para viver novamente, qual seria esse. “Hoje! Sou um homem feliz”, foi a resposta dele. Felicidade é uma questão de momento (será que eu já disse isso aqui antes?), mas eu entendo o que ele quis dizer. Momentos bons não me faltaram neste ano, como também não foram poucos os ruins. Do balanço entre os dois tipos é que sai o dia de hoje, eu acho. E eu estou bem e viva, assim como a maior parte dos que me são caros. Pude abraçar quase todos em algum momento. Retrospectiva melhor que esta não há, eu creio. 

Promessas, estas eu não farei. Não acredito muito nelas. E para mim, o ano se renova a cada evento natural bom que eu tenha a possibilidade de ver, a sorte de presenciar e a capacidade de apreciar. De resto, penso que amanhã, no Ano Novo, o mundo ainda continuará como hoje está, e não é em coisas boas que eu penso quando falo isso. Mas eu também nunca deixei de seguir a onda. Por isso, então, também pipocarei meu espumante à meia-noite. Não vou prestar atenção à cor da roupa, vai ser a mais confortável que encontrar. Mas, abraçarei meus pais e sogros, falarei com meus filhos e minha família e cruzarei o ano com meu marido, como tem sido nos últimos trinta e cinco anos. Tentarei ignorar o barulho dos fogos, e a música deverá ser um rock bom ou alguma do Belchior ou somente a da chuva no telhado, quem sabe… E amanhã plantarei minhas costumeiras flores do ‘dia de ano’, como dizia minha avó, para ver no que darão. Grandes esperanças têm que ser algo mais do que um romance de Charles Dickens, afinal. Uma vez bichos-homens, sempre bichos-homens, e por isso, também não vou perder a fé nem deixar de sonhar. E sendo assim, o final de hoje fica por conta do Ano Novo do Ferreira Gullar. Um Feliz Ano Novo a todos, para não fugir do costume. E vamos seguindo com fé!

Meia-noite. Fim

de um ano, início

de outro. Olho o céu:

nenhum indício.

Olho o céu:

o abismo vence o

olhar. O mesmo

espantoso silêncio

da Via-Láctea feito

um ectoplasma

sobre a minha cabeça

nada ali indica

que um ano novo começa.

E não começa

nem no céu nem no chão

do planeta:

começa no coração.

Começa como a esperança

de vida melhor

que entre os astros

não se escuta

nem se vê

nem pode haver:

que isso é coisa de homem

esse bicho

estelar

que sonha

(e luta).

5 comentários em “Ao que temos para hoje e para o que vier depois

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