Ao que há de vir! – Seis anos das histórias da gata preta.

Quarta-feira, 3 de janeiro de 2024 (ontem choveu a primeira grande chuva de inverno)

Seis anos das histórias da gata preta! Uma parlenda de infância que marcou a minha vida ao ponto de passar de uma caçadora ávida de histórias para uma contadora (preguiçosa) delas. Contrariando até um traço forte da minha personalidade, que é a dificuldade de lidar com a exposição das minhas ideias fora das minhas ilhas de segurança. Mas eu gosto de escrever e isso ajuda, eu acho. E mesmo sem disciplina e numa frequência irregular, algumas coisas legais foram saindo. Esta de hoje é a crônica número 101 deste despretensioso espaço que eu mantenho para – quem sabe – , um dia poder me dedicar mais.

Passou o Natal e o Ano Novo e a inércia me venceu. Mas ainda dá tempo de falar. Este foi um Natal tranquilo e alegre como há muito tempo não tínhamos por aqui. A família quase toda reunida e numa harmonia que só me fazia pensar em… Natal! Ainda me impressiona um pouco a  memória celular (ou algo que o valha) que me faz sentir uma espécie de euforia assim que entra o mês de dezembro. É uma alegria que vem de anos. Tempo de chuva e de família reunida, festas, desejos bons, abraços que esperam um ano todo… Meus irmãos todos aqui, meus pais, meus tios, meus filhos, meu marido, meus sobrinhos… Os Natais de outros tempos acabam se sobrepondo numa sequência errática, que vai e volta no tempo mas que traz sempre muitas lembranças de histórias boas e muita saudade boa, também. É o meu caleidoscópio de Natal, que eu procuro conservar íntegro e vívido, ano após ano.

Mas a história de hoje é outra.

No Natal deste ano eu me lembrei de uma história que ouvi alguns anos atrás, de uma senhorinha que atendi no trabalho. Ela devia ter uns sessenta anos e estava fazendo sua rotina anual de exames. A conversa, na minha profissão, é necessária, mas às vezes ela descamba da informação técnica, por assim dizer, para um plano mais pessoal. Acontece muito isso com idosos. Era a última semana do ano e, quando perguntei quantos filhos ela tinha, respondeu que era viúva, tinha um filho e uma filha e, do nada, começou a me contar do seu Natal. Falou que o filho trabalhava numa cidade distante da dela e disse que não poderia ir para casa neste ano. A filha, que mora com ela, preferiu ir para um tipo de acampamento no Pará, junto com alguns amigos. Ela não tem parentes na cidade e passou o Natal sozinha. Contou isto com voz amarga e olhar distante. Em seguida, voltando ao presente ela olhou para mim e disse algo mais ou menos assim: “A senhora sabe o que eu fiz, então?  Pensei que era Natal e fui à rua comprar um peru. Enquanto o peru assava, arrumei a casa e a mesa como se fosse ter festa. Me arrumei toda, passei até perfume e fiz minha ceia sozinha”. Terminou este relato com um tom de triunfo na voz. Não sei se é isso o que chamam de Espírito de Natal, mas sei que entendo ela demais.

Ainda sobre esse tal Espírito, neste fim de ano meu filho me mandou um vídeo de um comediante cantando uma música de Natal. A resenha do vídeo era: a música mais bonita de Natal do mundo foi feita por um ateu. Entre gracinhas politicas e críticas ao consumismo e ao cristianismo, ele diz que ainda gosta do Natal. Que gosta das músicas de Natal das igrejas, apesar das letras suspeitas. E o refrão diz sempre que ele vê seu pai, sua mãe, seus irmãos, suas irmãs, sua avó e seus tios e primos. E eles estão sorrindo e tomando vinho branco ao sol. No fim, percebe-se que ele fez a música para sua filhinha e ele termina dizendo a ela que no futuro, esteja ela onde estiver, aquelas vão ser sempre as pessoas com quem ela contará sempre. E que estarão sempre esperando por ela em algum lugar. Sorrindo e tomando vinho branco ao sol. Eu chorei.

E esta foi quase uma crônica de Natal atrasada, só que não. O aniversário de Jesus já passou, já estamos em janeiro e outro dezembro vai custar a chegar. Mas hoje eu tenho dois outros aniversários para comemorar. Seis anos das histórias da gata preta. Cento e trinta e um anos do nascimento de J.R.R. Tolkien, um dos meus contadores de história favoritos. É dele o finalzinho de hoje, com um dos mais bonitos poemas de O Senhor dos Anéis: A Canção de Bilbo (em tradução livre e pessoal). Para mim ela também é carregada de algum tipo de Espírito de Natal.

“Sento-me ao lado do fogo e penso.               Em tudo o quanto eu vi. De flores e borboletas do prado                 Nos verões que se foram.                                   

De folhas amarelas e finas                          Nos outonos que passaram                              Com a névoa da manhã e o sol prateado      E o vento em meus cabelos.                              

Sento-me ao lado do fogo e penso               Em como será o mundo            Que algum dia verei.              Quando o inverno chegar sem uma primavera.                                                                                                    

Pois ainda há tantas coisas                        Que eu nunca vi.                                                   Em cada floresta, em cada primavera        Há um verde diferente.                                       

Sento-me ao lado do fogo e penso             Nas pessoas de há muito tempo                     E em pessoas que verão um mundo                  Que eu nunca conhecerei.                                

Mas o tempo todo em que eu me sento e penso         Nos tempos que antes existiram           Escuto o retorno dos pés. E as vozes à porta.”

Um bom ano aos que me acompanham por aqui!

 

3 comentários em “Ao que há de vir! – Seis anos das histórias da gata preta.

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