Anônimo, anônimo demais – uma breve história na história de um povo sem memória

Sexta-feira, 12 de março de 2019 (porque amanhã é sábado e eu vou trabalhar)

A melhor maneira de se conhecer uma cidade é caminhando anonimamente por ela. Esta é uma máxima que eu sigo na prática há muito tempo. Se for uma cidade antiga, tanto melhor será o passeio. Andando a pé pelo centro de São Paulo no começo do ano passado, perto da linda Igrejinha de Santa Cecília passei por um prédio antigo e mal conservado, que me chamou atenção mais do que os outros: A fachada era toda grafitada, formando painéis isolados, separados por pequenas colunas, o que é comum naquela região, e na calçada, como também é comum por lá, moradores de rua dividiam a sombra da marquise. Um destes quadros chamou mais minha atenção que os outros. Nele um desses moradores dormia a sono solto em plena tarde, e por trás dele o painel de grafites e panfletos na parede mostrava, entre outras, as seguintes inscrições: ‘Ninguém manda no que a rua diz’, ‘vendo sua memória’ , ‘atenção! Pessoas morando’ e em destaque, em letras garrafais, “o poema muda o sentido do caminho’’. O quadro formado pela cena toda não era um quadro bonito, mas fiz o registro fotográfico, mesmo assim, e segui viagem.

Ainda no ano passado, visitando a cidade de Palermo, na Sicília, fiquei encantada com a linda e imponente fachada do Teatro Massimo Vittorio Emanuele, no centro da cidade. Bem em cima, nesta fachada, esculpida na pedra está a seguinte inscrição: “L’arte rinnova i popoli e ne rivela la vita. / Vano delle scene il diletto, ove non miri a preparar l’avvenire”. O sentido disso eu consegui entender, mas, para trazer para cá, recorri à ajuda de alguns italianos nativos, porque é italiano antigo e a segunda parte é meio enigmática e difícil de explicar. Se não entendemos errado, disso saiu algo mais ou menos assim: “a arte renova os povos e revela suas vidas. O deleite da cena é vão, onde não pretende preparar para a futuro”. A autoria da frase é desconhecida, mas a mensagem que deixou encontra eco em tudo o que se refere à arte, e no ano passado reverberou e ganhou o mundo através da internet, quando a primeira parte da inscrição foi novamente escrita numa parede, desta vez sob a forma de um grafite, também anônimo, em um muro da mesma cidade onde foi gravada em pedra mais de cem anos atrás. Em 2018 Palermo foi nomeada pelo Ministério da Cultura a Capital Italiana da Cultura, depois de ser eleita para sediar a “Manifesta 12”, a Bienal Europeia de Arte Contemporânea. Com isso a cidade recebeu um incentivo financeiro de um milhão de euros para promoção e investimento públicos, com vistas ao provável aumento do turismo local.

Lendo o Estadão no domingo, vi uma matéria sobre as manifestações contra o corte de 23% nas verbas para a cultura, anunciado pelo governo estadual de São Paulo. Segundo a reportagem, na esteira deste corte naufragarão inúmeros projetos culturais, sobretudo aqueles de inclusão e de capacitação que beneficiam principalmente as camadas mais carentes da população. Dentre outras medidas, a Pinacoteca do Estado já anunciou o encerramento da entrada franca aos sábados e o Museu Afro Brasil corre o risco de encerrar suas atividades de sexta a domingo. Entre os que participaram desta manifestação estava o maestro João Carlos Martins, que pedia pela revisão do corte: “O corpo de uma nação é a indústria, o comércio, a saúde, a educação. Mas a alma é a cultura”, e pedia “diálogo, conversas, mas corte, nunca”. João Carlos Martins é um dos criadores da Fundação Bachiana, uma organização privada, sem fins lucrativos, que promove projetos voltados para música e cultura, os quais contemplam cerca de quatro mil crianças e adolescentes de escolas públicas.
Daí eu me lembrei de uma grande polêmica cultural que houve na Itália, uns anos atrás quando o governo, tentando tirar o país de uma crise econômica na qual, entre outras coisas, as verbas públicas para restauração de monumentos achavam-se minguantes, resolveu incentivar a preservação do imenso patrimônio cultural italiano através de incentivos fiscais com a lei Art Bonus, que encoraja pessoas físicas e jurídicas a investir na restauração de patrimônios culturais oferecendo um bônus fiscal que equivale a 65% do valor doado e ainda dá um crédito fiscal de 30% a instituições turísticas que investem em restauração ou modernização. Na época vozes importantes da cultura italiana levantaram-se contra isso, com brados de que a Itália estaria à venda ou algo assim. A isto respondeu o governo que não, não estavam à venda, mas estavam, sim, desesperados.
A Itália é um país rico de primeiro mundo e possui um dos maiores acervos culturais da humanidade, o que deve gerar, em turismo, somas astronômicas ao país. Não entendo de economia nem da política italiana, mas, dentre as poucas coisa que sei do mundo, uma delas é que a corrupção não é uma marca Reg® só do nosso país, e a Itália até que já figurou bem nesse ranking. Não sei se o que existe, portanto, é uma má gestão – vou chamar assim – desta renda, com prejuízo para o patrimônio cultural daquele país, mas, ainda no meu limitado entendimento das coisas, sei também que existe uma crise econômica global que está fazendo o mundo repensar políticas e ideologias. E sei também que restaurar e manter obras de arte custa muito, muito caro, para ser bem simplista. Se a iniciativa italiana está funcionando bem (o governo diz que sim) ou não eu não saberia dizer, mas sei que pontos turísticos famosos, dentre estes o Coliseu e a Fontana de Trevi, já foram beneficiados com milhões de euros através dela, apenas no seu período experimental.
Daqui, do lado de baixo do Equador, o Brasil é este país rico das Graças de Deus, que se perdeu no caminho que leva às coisas que dão certo. Aqui, além da cultura, não funciona também a educação, nem a saúde, nem a segurança, e muito menos a economia, para citar o básico. Mesmo com uma pesadíssima carga tributária , as contas do governo não fecham. De má gestão ou de corrupção nós podemos dar aula, então; da educação infantil à pós graduação. E ‘enquanto esses comandantes loucos ficam por aí queimando pestanas, organizando suas batalhas’, a costumeira fogueira de vaidades, negociatas e jogatinas políticas emperra, na Praça dos Três Poderes, uma reforma necessária e urgente. Com isso tudo acontecendo, o povo dá milho aos pombos, e, juntamente com uma parte deste governo, discute seriamente se veste rosa ou azul, se canta o hino ou não canta, ou se tem que se ajoelhar perante a bandeira nacional. Não seria a hora, então, de se tentar mudar o modelo de gestão dos recursos culturais e, ao invés da evasão fiscal que costuma ser praticada por aqui, como um esporte, aqui também se incentivasse o patrocínio cultural privado, tirando do Estado, não a responsabilidade total, mas a (in)competência sobre esta área? Aqui se poderia dizer que nós já temos a nossa famosa lei Rouanet. Sobre ela eu pouco sei, ou, o que deve ser pior, sei quase que só o que a mídia fala. Acredito, no entanto, que ela tenha trazido benefícios à cultura, sim, mas diria também que o que se esperava que fosse incentivar o mecenato acabou fomentando mais foi o mercenarismo. É um modelo que não parece ter dado certo em muitos aspectos e que serviu para acalorar um debate muito mais político do que cultural, e que muito contribuiu para aumentar em alguns níveis a antipatia popular pela arte, de uma maneira geral. Além disso, o benefício fiscal que oferece é irrisório em relação à lei italiana, para dizer o mínimo, e ainda deixa muito nas mãos do Estado.
Num país como o nosso, onde uma parte imensa da população não tem o básico, nem mesmo para comer, parece inoportuno sair às ruas pedindo por cultura. Não acho que seja! A cultura é o conjunto das características que determinam a identidade de um povo. Isso inclui não só a arte, como também a política, meios de vida, educação e até sua sabedoria popular. A arte é apenas a expressão mais vistosa dessa cultura. E a arte, seja como uma válvula de escape da nossa própria realidade (como queria o Nietzsche), seja como o registro poético, por assim dizer, da história de um povo, ou ainda, como fonte de geração de recursos coletivos ou individuais, é inerente ao ser humano e parece ser uma necessidade nossa desde que habitávamos as cavernas e desenhávamos ‘garatujas’ em suas paredes. Através dela povos e épocas extintas sobrevivem, como também parte de sua história. Sua forma de expressão variou ao longo dos séculos e, a despeito do que se fala sobre isto hoje, o que é ou não é arte é um debate antigo, reativado em cada época que o mundo racional conheceu. A cultura vai muito além do que gera em divisas e não é só a alma, mas é também a memória de um povo, e um povo que não preserva sua memória corre o risco de ver uma parte grande dela desaparecer em uma única noite, numa coluna de fogo e fumaça, como aconteceu com o Museu Nacional no ano passado, e deixa de preservar sua própria história, sua identidade. Ou, tanto pior, deixa que esta história seja escrita ou editada segundo a necessidade ou a conveniência da época em que se vive – o espírito da época, ou Zeitgeist, como se diz em alemão – e a história da humanidade tem recontado sempre este conto. Isto é fato e contra fatos, diz-se por aí, não há argumentos, não é assim?
Então, não, não é inoportuno nem inapropriado pedir incentivo às artes e à cultura. O errado aqui é a quem pedir. A lei de incentivo fiscal foi só um dos meios que a Itália usou para ajudar a preservar seu patrimônio. Além deste, existem os financiamentos coletivos, crowdfoundings, vaquinhas ou sei lá como são chamadas, que já arrecadaram grandes quantidades de recursos para restauração de monumentos e locais turísticos. Uma parte da sociedade italiana tomou para si a responsabilidade pelo seu próprio patrimônio cultural, com doações que vão de dois euros, doados pelo cidadão comum, até as generosas quantias doadas por grandes corporações. Por aqui não seria a hora do nosso povo, que se emprega em perpetuar polêmicas bestas – dos dois “lados”–, começar a pensar em assumir o seu papel em relação à cultura? Se não bancando (até porque não poderia, mesmo), mobilizando-se e “pedindo” a quem de fato pudesse fazer isso, sob as bençãos ou benefícios fiscais de um Estado que tem que pelo menos tentar fazer seu papel de Estado? A cultura compreende, também, os costumes de um povo e para entender isto é preciso uma educação a que a grande maioria da nossa população não teve e nem tem acesso. A educação, segundo a nossa constituição, é um dever do Estado, seria bom começar por aí, mas este é só um parêntese. Num país falido, que não foi educado para isso, uma reflexão como esta cintila no brilhante céu dos sonhos e das utopias, mas, se iniciativas como a do maestro João Carlos já existem, por que não pensar que outras importantes poderiam surgir? Até já existem, na verdade, em pequena escala, espalhadas e tocadas por gente com pouco dinheiro e boa vontade de sobra, mas ainda longe do alcance ideal. O Estado não pode ficar totalmente de fora disso, claro, mas os cortes, acredito que precisam ser feitos. Concordo com o maestro em relação à abertura do diálogo, só que acho que este diálogo deve ser aberto ao Governo, à iniciativa privada e à população, de maneira geral, e visando um novo modelo de gerenciamento. Já vão longe os anos de D. Pedro II, e o mecenato é difícil por aqui. Nosso povo é também difícil e mercenário (isto também é cultural) em vários aspectos, e a ideologia às vezes se veste de arte ou de bandeira do Brasil e sai raiando por aí. Mas, se é para sonhar, que sejam sonhos bons, não é? Porque pesadelos, estes nós já temos em excesso.
‘Ninguém manda no que a rua diz’ – estava escrito lá, em um pedaço da fachada daquele prédio, com um morador de rua completando o cenário.Três meses depois daquele passeio, vi a notícia do desabamento de um prédio no centro de São Paulo, pertinho da Igreja de Santa Cecília: um edifício velho, todo grafitado e habitado por sem-tetos através de um esquema que envolvia dinheiro, muita sujeira política e também muito descaso.‘Vendo sua memória’ – Era um prédio histórico, tombado, marco arquitetônico do modernismo em São Paulo. –O poema muda o sentido do caminho– Para esta crônica fechar bem dramática, eu deveria dizer que era o mesmo prédio que fotografei, e que aquela cena tristemente poética que registrei sumiu para sempre do mundo, sob os escombros daquele prédio que, sem manutenção e com as estruturas abaladas, desmoronou após um incêndio, em pleno centro de São Paulo, a cidade mais rica do país. Tenho que dizer que não era. Mas poderia ter sido! Como eu disse antes, prédios mal cuidados, abandonados e grafitados, com moradores de rua nas calçadas são as cores daquela região da cidade. “A arte renova os povos e revela suas vidas’, diz a elegante inscrição anônima que durará pelo tempo que também durar o imponente Teatro Massimo de Palermo, que parece não ter problemas de manutenção. Arte ou não, aqueles grafites feios, em São Paulo, não servem ao deleite nem se destinam ao futuro. E não ganham o mundo, como ganhou aquele midiático grafite de Palermo. Anônimos como nascem, anônimos perecem, sob escombros ou não, levando com eles uma breve história de um povo que, parafraseando um artigo que li outro dia, através do trivial escrito em letras garrafais numa parede de rua, acaba revelando, num estranho paradoxo, não só uma parte da sua identidade cultural como também o anonimato em que já vive de fato.
Brasil, Atenção! Pessoas morando’!

P.S.: O termo garatujas, para quem não conhece, é um “desenho rudimentar, malfeito, normalmente sem forma e ilegível. [Por Extensão] Os rabiscos que as crianças fazem na tentativa de representar o mundo que as rodeiam.” Foi utilizado aqui em relação as inscrições rupestres como uma homenagem ao meu irmão mais velho, e ele sabe por que.

3 comentários em “Anônimo, anônimo demais – uma breve história na história de um povo sem memória

Adicione o seu

  1. É o que somos, Gata Preta; este povo terrivelmente violento que se debate sem rumo, que se dá conta apenas quando já se foi; que aumenta o volume da música porque não sabe como falar. Somos este povo terrível, adestrado pela Marvel ou pela escola de Chicago, que bate continência à “stars and stripes” sem saber porque, que ri sem saber porque.

    Somos este povo que não sabe quem é.

    Curtido por 1 pessoa

  2. Nossa cultura é muito ampla e diversa, mas nosso país, potencialmente rico, não encontra rumos certos para ser consertado, pois faltam lideranças que promovam um grande e desafiadora concertação com esse objetivo.
    A abordagem é interessantíssima, Peteca. Lamentavelmente, as políticas públicas e as poucas iniciativas privadas não são expressivas nessa direção, pois, pelas restrições fiscais e limitações para investimentos, focam (?🤔) em questões mais básicas, como educação, saúde… Onde continuamos na lanterna no “mundo em desenvolvimento”.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: