Crônica de avião para espantar o tédio – de quando não podemos imaginar castelos no ar.

Quarta-feira, 30 de junho de 2021 (meio ano já se foi)

Escrevo neste momento de dentro de um avião. Não estou sentada à janela!Tem uma ‘goteira’ na saída do ar condicionado, pingando bem em cima da minha perna. Fecho a saída de ar e vamos ver como vai ficar. 

Eu detesto viajar de avião! Não tenho nem um pouco de medo, mas detesto. A espera no aeroporto, o desconforto das poltronas, a falta de espaço para esticar as pernas e o fato de estar presa em uma caixa de aço com mais trocentas pessoas, sem ar puro ou ar livre para respirar, normalmente me angustiam. É sempre a pior parte das viagens, para mim. A despeito disso, com família espalhada por vários estados e férias anuais divididas em três suaves prestações de dez dias, antes da pandemia costumava viajar com certa frequência nessas carroças voadoras. Parei por uns tempos em respeito à minha própria vida. À medida que a vacinação cresce e a média móvel de óbitos pela covid diminui, a coragem começa a aflorar novamente. Hoje, viajando em missão familiar especial e encarando um avião pela segunda vez em 15 dias (e pela terceira vez desde que começou a pandemia), escrevi esta crônica apenas para enganar o tempo durante o vôo. É um relato típico de uma viagem aérea partindo da minha cidade, com situações presenciadas inúmeras vezes, sempre na mesma sequência. Vamos começar pelo começo.

Na esteira de raio X, excepcionalmente, ninguém foi barrado com algum objeto perfuro-cortante hoje. Falo isso porque é comum acontecer. Numa das minhas últimas viagens um senhor tumultuou, querendo levar consigo uma faca de caça que, segundo ele mesmo, era para cortar a carne que ele levava na marmita. A marmita vinha amarrada num pano, à moda antiga do povo do interior. Foi uma diversão geral. Hoje passei tranquilamente.

No salão de embarque, funcionários da companhia aérea apelavam para que as pessoas despachassem gratuitamente suas bagagens de mão devido à lotação do vôo. Para alguns dos passageiros que se dispuseram a isso, estes funcionários tiveram que explicar pacientemente que só poderiam despachar uma bagagem, das duas que carregavam. E que só uma bagagem de mão era permitida, fazendo com que alguns que já se encontravam na fila desistissem da intenção.

Preparando-se para o embarque, soltam o anúncio da chamada dos grupos prioritários e a indicação de como seriam chamados os demais. Primeiro apelo, através dos auto-falantes, para que aguardassem sentados, não formassem filas até a chamada do seu grupo (indicado no cartão de embarque) e que, quando fossem chamados, mantivessem entre um e outro a distância recomendada. Entram os cadeirantes, os idosos e os passageiros com crianças. Voltam os do grupo não sei das quantas que tentaram entrar com as prioridades. Novo apelo da funcionária, agora pessoalmente, bem próximo aos impacientes passageiros, sem auto-falantes, para que observassem os grupos no cartão de embarque e AGUARDASSEM SENTADOS até que fosse chamado o seu. Entra o segundo grupo, cuja prioridade pode ser a riqueza ou algo que valha por ela, sei lá… Voltam novamente alguns que descobriram que não são o tipo de ricos daquele grupo. Entra então o grupo 3, eu no meio dele. Enquanto espero, com certa pressa porque posso sentir até o vento da respiração do passageiro posicionado atrás de mim, os primeiros do grupo 4, na fileira ao lado,  rompem a barreira e passam meio desembestados na minha frente, no que são novamente instados a aguardar a vez. Seguimos para a aeronave. 

Não temos pontes móveis para acoplagem de aviões. Nosso embarque é feito diretamente saindo do salão para uma caminhada pela pista do aeroporto até a escada da aeronave. Faixas de travessia de pedestres e uma ‘trilha’ azul, no solo, indicam por onde caminhar. É uma pequena jornada em linhas retas, com viradas em ângulos de 90 graus, e guardas da Infraero ficam por ali para reconduzir a elas os passageiros que insistem em diminuir a distância entre dois pontos, cortando caminho pela diagonal. Não falha nunca!

A entrada na aeronave, em si, é uma crônica à parte. Começa civilizadamente, com os primeiros passageiros acomodando suas bagagens nos compartimentos acima e abaixo das poltronas, como ouvimos, repetidas vezes, dos comissários. Compartimentos para bagagens de um padrão determinado, eles deveriam completar. Entram então as padronizadas malinhas de bordo. Ok. Aí vêm as enormes sacolas de lojas de grife (embora estas sejam mais comuns nos vôos de volta), tomando boa parte do espaço. Passa para as mochilas estufadas, quase arrebentando os zíperes, que são ‘espremidas’ de qualquer jeito, nalguma nesga de espaço porque – claro! – não couberam embaixo da poltrona da frente, que é o lugar das mochilas. Isso sem falar no famoso ‘velocípede dentro dum saco’ que, para quem não conhece o termo, diz respeito a um pacote tão mal arrumado, mas tão mal arrumado, que nem sob tortura você descobre o que tem dentro dele. Agora imaginem isso daí dentro de um exíguo e padronizado compartimento de bagagem… E ainda tem aqueles que não querem perder as malas de vista, e ficam girando em torno do próprio eixo, no corredor, olhando para os bagageiros e querendo que um espaço se materialize ali de qualquer jeito. Enquanto isso, o corredor vai se enchendo de gente…Nessa hora entram em cena os infalíveis comissários de bordo, arrancando, tão gentilmente quanto a paciência deles permite, as preciosas bagagens destes apegados para acomodá-las onde for possível. Descobri recentemente que existe um código para se referir a eles, mas nem eu nem meu marido conseguimos escutar direito o termo que uma comissária usou, avisando para a outra o que estava causando o congestionamento.

Depois de muito ‘frege’, como dizemos por aqui, vem a – também infalível – questão das poltronas. Bagagens acomodadas ou ‘socadas’ de qualquer jeito, passageiros sentados, cintos afivelados e mais gente entrando no avião. Troca de assentos! A fila pára de andar, alguém em pé no corredor fala para outro alguém, sentado na poltrona (geralmente a da janela), que aquele assento é o seu. A pessoa olha para o bilhete e não consegue se situar. O dono da poltrona mostra a numeração dos assentos e mostra para o outro onde ele está, os dois em pé no corredor a esta altura. E a fila parada. O usurpador da poltrona alheia tenta, então, arrancar sua bagagem para mudar de lugar e/ou caminhar contra o fluxo para chegar ao seu lugar original, invariavelmente argumentando que gosta de viajar na janela. Nova intervenção dos comissários e a fila torna a andar.

Decolamos. Passado algum tempo o piloto anuncia a altitude de 10000 pés. Estou no assento do corredor e o passageiro da poltrona da janela quase passou por cima de mim, neste momento, para ir ao banheiro. Ele tentou fazer isso antes da decolagem, em pleno embarque de passageiros, mas foi impedido por uma comissária de bom senso no meio do caminho. Voltou para o lugar, contra o fluxo, avisando a mim e ao lutador de judô que está sentado na poltrona do meio (amplitude de movimento apenas à esquerda para mim) que iria sair novamente quando o vôo estabilizasse. Estivemos no salão de embarque, em solo, por pelo menos uma hora. E tinha banheiros lá… Mas, segue o vôo.

Já em altitude de cruzeiro, sem a inconveniência daquele serviço de bordo horroroso (créditos à pademia), faço valer meu direito aos 15 graus de inclinação do assento da poltrona e tento tirar um cochilo. Com dificuldade, porque a posição é incômoda demais para quem tem problemas de coluna cervical, como eu, consigo um meio cochilo durante algum tempo até ser despertada pelo meu amigo da janela, que passa novamente pelo meu colo, em direção ao banheiro. Desta vez ele se engancha na alça da minha pequena bolsa, que estava humildemente encolhida dentro do “bolsão à minha frente”. Recolho a bolsa e o meu pobre smartphone do chão, aceito suas desculpas e me consolo pensando que tenho problemas na cervical mas, felizmente, não tenho próstata. Dá um certo alento porque, se não gosto de aviões, mais ainda abomino seus banheiros. 

O avião começa a diminuir de altitude e o piloto avisa o início do procedimento de descida. Agradece a preferência e diz que, uma vez em solo, o desembarque será realizado por fileiras, e pede a todos que aguardem sentados a chamada das suas. Eu rio um pouco no balãozinho, em antecipação. Em aproximação, novo aviso pedindo para que os passageiros coloquem seus cintos de segurança, fechem e travem as mesas, retornem o encosto de suas poltronas para a posição vertical e desliguem seus aparelhos eletrônicos. Ao meu lado, no corredor, um adolescente joga freneticamente no seu tablet, posicionado em cima da mesinha de refeição. Ao lado dele uma senhora está com sua poltrona confortavelmente (sai dizendo) reclinada. A comissária, com ar cansado, corrige os dois. 

Aeronave em solo e finalmente parada. Portas abertas, são liberadas, pelo auto falante, as fileiras VIPs de números 1 e 2. Um passageiro da fileira VIP 3 levanta-se e é convidado – desta vez por uma comissária que já perdeu o pouco que lhe restava de simpatia – a se sentar novamente e aguardar a vez da sua. Meu companheiro da janela já olha em volta com olhar ansioso. Ao ouvir outro anúncio, pedindo para não deixar as máscaras no avião, meu companheiro judoca avisa para a aeromoça que deixou só o copo descartável que usou para tomar água. Sem problemas, liberado. E então saímos todos, fileira por fileira, levando nossas bagagens pessoais e intransferíveis pela vida e aviões afora.

P.S.: Este foi apenas um pequeno exercício mental para quem não conseguiu assento na janela, desta vez, e não pôde, consequentemente, brincar de pareidolia com as nuvens. Passa o tempo que é uma beleza!

P.S2.: Transporto muitas vezes, como bagagens de mão, mudas de plantas que recolho ou compro por aí. Sobre velocípede dentro dum saco, já trouxe até um berimbau da Bahia, uma vez. E obriguei um irmão e em seguida, uma irmã, a carregarem, de Vitória à Brasília e desta cidade à Teresina, uma enorme panela de barro do bairro das Goiabeiras, de Vitória.

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