Sobre o que sonhamos e deixamos de sonhar, e o que a terra anda a procurar.

Domingo, 30 de maio de 2021 (hoje eu colhi açafrão-da-terra, plantado e cultivado no meu jardim, por mim mesma)

“De dia já não saíamos, de noite não sonhávamos. O sonho é o olho da vida. Nós estávamos cegos.”

– Trecho do primeiro caderno de Kindzu, O Tempo Em Que O Mundo Tinha A Nossa Idade, no qual ele fala sobre a guerra, em Terra Sonâmbula, de Mia Couto.

Apenas uma estrada de terra para algum lugar – acervo pessoal

Num sábado desses, algumas semanas atrás, despertei às 5:56 da manhã e me lembrei que tinha acabado de sonhar com John Lennon. Registrei logo porque sabia que me esqueceria do sonho. Pelo menos a parte que me lembrei dele eu registrei. Como acontece com a maioria dos sonhos que sonhamos dormindo, também ficaram só fragmentos imprecisos deste.

Bom, mas eu sonhei com John Lennon e ele conversava comigo no sonho – e aqui cabe um emoji star eyes. De vez em quando eu tenho desses sonhos bestas com alguém famoso, mas até agora acho que a pessoa mais famosa com quem eu tinha sonhado era a Xuxa, cuja casa fui visitar com minha filha pequena. O sonho com o John Lennon foi totalmente nonsense, como não poderia deixar de ser, tanto pelo nonsense do sonho como por ser o John Lennon. Como não vou conseguir narrar literalmente, falarei dos fragmentos dele dos quais me lembro. Dá para costurar um pouco a ideia.

Acho que nenhum sonho nonsense poderia ser mais nonsense do que um que reunisse Kurt Cobain, Dave Grohl e John Lennon no mesmo enredo, e foi isto que aconteceu no meu. John Lennon pode até ter sonhado com alguém como Kurt Cobain mas não chegou a conhecer o Nirvana – não a banda, pelo menos – e por mais que eu pense, não sei de onde foi saiu essa associação na minha cabeça. Histórias mitológicas e psicodelias à parte, não posso me considerar exatamente uma fã desta lendária banda. Mas no sonho os três não estavam juntos, devo dizer.  No sonho eu começava me lembrando de uma reportagem da revista People (publicação que nunca li, por sinal), que contava um dia de loucura de Kurt Cobain e Dave Grohl, que saíam em uma excursão ora por uma rua cheia de lojas, ora pela margem de um rio com muito capim nas margens, cantando músicas de outros cantores e bandas. No final dessa ‘turnê’, como se já fosse um videoclipe, antes da última música Kurt dizia: “agora vamos ser piegas, vamos cantar John Lennon”, e emendava com um “eu também sou um sonhador”.

Não sei como o John entrou no contexto depois disso, só me lembro que eu e meu filho estávamos com ele em algum lugar. No meio desse bate-papo eu me lembrei da matéria da revista e contei para ele. Ficou aquele desconforto no ar, ele fez cara de quem não tinha gostado e se retirou para ir ao banheiro – já estávamos, então, sentados à mesa em algum lugar. Meu filho falou: – Mãe, acho que ele pegou ar. O motivo, acredito que tenha sido o ‘piegas’. Não me lembro de como o resto se desenrolou, mas sei que eu saí procurando até encontrar, em uma caixa de revistas velhas, aquela com a matéria que tinha falado e entreguei a ele, pedindo que lesse na íntegra, porque era uma coisa legal. A partir daí não lembro de mais nada.

Sobre sonhos (ou, talvez, sobre livros?), foi o Neil Gaiman quem disse que os livros são sonhos que podemos carregar nas mãos. Ou algo assim. Aproveitando a deixa do meu sonho maluco, e para fechar mais um mês das histórias da gata preta, coloco aqui uma parca resenha do potente (na falta de uma palavra que o diga melhor) Terra Sonâmbula, de Mia Couto, que li recentemente. O livro – um representante africano do realismo mágico –, é ambientado no período da Guerra da Independência de Moçambique, que devastou o país entre as décadas de 70 e 80. O conflito deixou um rastro de mais de um milhão de mortos, outros tantos, de refugiados, e mais não sei quantos milhões de pessoas que perderam tudo. Perder tudo não é muito para quem já não tem quase nada, e é partindo desta premissa que o jovem Kindzu resolve abandonar sua mãe e sua aldeia para tentar encontrar os Naparamas, guerreiros que, no seu entender (eu precisaria entrar em detalhes históricos para explicar estas figuras e não é este o mote da crônica de hoje, sorry), combatiam a guerra que dizimava tudo, e a eles se juntar. Ao longo da jornada ele vai escrevendo em cadernos as histórias que viveu e vai vivendo. A história desenvolve-se em duas narrativas paralelas: a de Kindzu, com sua busca, e a de um velho e um órfão, Tuahir, que deixam um miserável campo de refugiados e atravessam toda a devastação da guerra para tentar achar os pais do menino. O garoto não consegue se lembrar de sua origem, mas tem flashes de memória que vão construindo, aos poucos, seus anseios e suas esperanças –“quando é que cores voltariam a florir, a terra arcoiriscando?”. As duas narrativas se entrecruzam quando os dois encontram, junto a um corpo carbonizado, os cadernos de Kindzu, e o menino começa a lê-los em voz alta para o velho, para ajudar a passar o tempo e fugir um pouco daquela realidade. Eles seguem sempre à margem de uma estrada (mas nunca por ela, onde o perigo é maior), ao tempo em que vão narrando as mudanças da paisagem. Só que às vezes andam em círculos e voltam ao mesmo lugar (um ônibus meio queimado, onde passam as noites). E é como se, enquanto dormissem, quem andasse, de fato, fosse a terra – “se um dia me arriscar num outro lugar, hei-de levar comigo a estrada que não me deixa sair de mim”. O realismo fantástico e seus engenhos… É um livro bonito, dentro do que se pode encontrar de bonito numa narrativa tão triste. A linguagem, poética, linda e comovente. Vale muito a leitura, sobretudo agora, quando enfrentamos todos nossa própria guerra .

Eu gosto de falar sobre sonhos (e também sobre livros, feat. Neil Gaiman). E também gosto de sonhar, dormindo ou acordada. Nesta última modalidade a prática parece estar no nível hard ultimamente, o que tem dificultado planos. A aparente normalidade de um mundo que anda meio longe de estar normal tem me feito perceber mais as mudanças gritantes. Meu ônibus incendiado é aquele meu postinho de observação do mundo, no fundo do meu quintal, para onde levo o resumo do dia.  Eu saio de casa cedo, ando, trabalho, encontro pessoas, converso, espio, vejo as notícias e tiro minhas próprias conclusões. Vejo hoje em tudo um crescendo ruim. Na paisagem, placas de ‘vende-se, ‘aluga-se’, portas fechadas, desemprego e a população de mendigos aumentando a olhos vistos… sonhos nível hard. Nas pessoas, polarização! Radicalismo de direita, de esquerda, de centro e do escambau que seja, num jogo feio que subverte, na busca pela propriedade da razão, o conceito de direito e de liberdade – a intolerância grassando o mundo – sonhos nível hard. No meu entorno, a pandemia recrudescendo e começando a encher novamente nossos hospitais, à revelia de todos: os que têm razão, os que não a tem e os que são felizes. Sonhos nível hard!

Do fundo do meu quintal, no banco de trás do meu ônibus incendiado, tentando um olhar ‘de fora’, observo o que a pandemia tem feito com as pessoas e o que tem puxado do íntimo delas, e não são coisas boas, na maior parte do que vejo. E isso vai bem além das perdas materiais e de entes queridos. Nesse ponto eu atinjo o meu nível onírico hard pessoal e procuro me lembrar de que não preciso ter razão, o que, por sua vez, me abre o caminho para tentar ser feliz. E ser feliz, em tempos de apocalipse-covid, é ainda estar por aqui e com os meus (será que eu já disse isso aqui antes?), enxergando o que de bom ainda tem por aqui ou o bem que ainda pode-se fazer, e assim – quem sabe? –, também ver o bom que ainda se pode ser. E aqui eu volto, então, ao princípio: meu sonho maluco. Termino com o final do ‘passeio’ de Kurt Kobaim e Dave Grohl. E aí faço igual ao Kurt, resolvo cantar John Lennon.  Mas não é com a letra de Imagine que eu vou encerrar. Esta história de hoje eu termino com uma das passagens mais bonitas do livro do Mia Couto: Um diálogo de Kindzu com seu pai, já falecido, que lhe aparecia em sonho ou como “assombração”, e com quem ele não conseguia se entender. Estas são, afinal, as histórias da gata preta, as histórias que eu sei e gosto de contar. Além disso, eu também (ainda) sou uma sonhadora, e numa outra época, já bem longe para trás no tempo, aprendi também a costurar. E sou piegas até não poder mais…

“- O que andas a fazer com um caderno, escreves o quê?

– Nem sei, pai. Escrevo conforme vou sonhando.

– E alguém vai ler isso?

– Talvez.

– É bom assim: ensina alguém a sonhar.

– Mas pai, o que passa com esta nossa terra?

– Você não sabe, filho. Mas enquanto os homens dormem, a terra anda a procurar.

– A procurar o quê, pai?

– É que a vida não gosta sofrer. A terra anda a procurar dentro de cada pessoa, anda juntar os sonhos. Sim, faz conta ela é uma costureira de sonhos…”  

PS: A terra de Moçambique “sonambuleia” até hoje. Desperta de vez em quando com o estrondo da explosão de alguma mina esquecida. Por lá a herança da guerra ainda aparece em cada ponto frouxo de costura que a terra dá. E segue a vida, como não pode deixar de ser, mas esta já seria uma outra história…

2 comentários em “Sobre o que sonhamos e deixamos de sonhar, e o que a terra anda a procurar.

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