O Gol que Pelé fez – uma história de futebol

Sexta-feira, 9 de dezembro de 2022 (tempo de Copa do Mundo, agora sim)

Cartaz afixado na porta de um  teatro da capital mexicana, durante a Copa do Mundo de 1970

Canal 100, quem se lembra dele? Aquele cinejornal que passava nos cinemas antes de qualquer filme, nas décadas de 70 e 80, narrando algum momento marcante do futebol. A voz do locutor é um daqueles ecos do meu passado que nunca deixam de me emocionar. E a musiquinha, então: ” Que bonito é… tan tan tan tan tan tan tan tan tan tan tan… ” Traz de volta aquele gosto bom de expectativa por um filme dos Trapalhões, Star Wars, Herbie e tantos outros daquele tempo simples, de prazeres  fáceis de se alcançar. Não sei com que frequência mudavam o documentário, nem me lembro de nenhum deles, em especial, mas me lembro dos dribles de Garrincha e das muitas vezes que vi Pelé, Zico e Roberto Dinamite (dos que eu me lembro) em lances descritos com precisão por aquela voz de narrador de futebol de rádio..l Entusiasmava até quem não entendia nada de futebol, como eu. Que lembrança boa! 

Eu fui criança na década de 70, quando a memória coletiva da Copa do México ainda impulsionava as chuteiras dos meninos e todos queriam ser Pelé, Rivelino e não sei quem mais que brilhou no inesquecível escrete. Cresci, além do mais, numa casa cheia de figuras masculinas entusiastas do esporte. E se isso soa machista hoje, não posso fazer nada. Era a minha realidade, como a de muitas outras meninas e mulheres daquele tempo. A despeito disso, cresci à sombra do mito que é Pelé. Ainda hoje acho incrível a maneira como este mito ‘entrava’ na vida da gente, desde um tempo em que a memória não alcança. O que eu quero dizer é que eu não sei quando foi que eu soube quem era Pelé porque, para mim, parece que eu sempre soube quem era Pelé. Como se naquela época nós já viessemos ao mundo sabendo disso. Pelé virou deus e consolidou a paixão pelo futebol. E como sempre acontece na história das divindades, o tempo consolidou o mito. Muitos craques surgiram depois dele, é o que dizem, mas nem os fenômenos mais recentes superaram o mito. E o que fica do mito, acima de tudo, é história. E é de histórias que eu gosto de falar.

No começo desta semana eu vi, ressuscitada pela onipresente e sempre oportunista internet, a foto que compartilho hoje, para ilustrar este post. Um cartaz afixado na porta de um  teatro da capital mexicana, durante a Copa do Mundo de 1970, anunciava uma ‘greve’ dos artistas: “Hoy no trabajamos porque vamos a ver Pelé”. Atores e funcionários da ANDA (Associação Nacional dos Artistas), manifestavam assim o desejo de verem Pelé jogar. Como a internet, eu também sou uma oportunista, e aproveitei o clima do momento para cavucar, por aí, alguma coisa boa. Paixões humanas e futebol (e a paixão pelo futebol) foram matéria para muitas crônicas de Nelson Rodrigues, e de uma dessas coletâneas de crônicas de futebol eu tirei a que compartilho aqui hoje. É um dos momentos mais magistrais dele, no tema, eu acho. Foi uma crônica de momento, escrita logo após o jogo do Brasil contra a Tchecoslováquia, na Copa de 70. iIustrada pelo famoso ‘gol que Pelé não fez’, fala da glória e do desterro dos mitos, diante do rápido e volúvel julgamento humano. Fala da paixão que cega e do ódio apaixonado, que cega também. E dos que dão mais importância a um cocô no gramado, mesmo diante de um dia celestial. Mas, entre críticas e resistência a elas, fala, sobretudo – e brilhantemente – dessa paixão nacional explicável que é o futebol. 

O que fica é a história e é de histórias que eu gosto de falar. Do que fica delas para mim. Eu hoje não acompanho mais os jogos da Copa do Mundo;. No máximo, vejo os gols. A seleção que marcou a minha vida, a que me empolgou e me fez tentar entender um pouco de futebol foi a de 1982, não a lendária seleção de 1970. Como atleta e como pessoa, minha admiração maior é para o Zico, não para o Pelé, apesar de tudo. E vivo bem, obrigada, sem nenhum dos dois. Mas a história me encanta. A paixão, mesmo a dos outros, me emociona. E mesmo imune à paixão cega que vejo nos entusiastas do futebol, nenhuma imunidade eu tenho ao sentimento dos apaixonados. Por isso apareço para ver os gols. A emoção, a vibração e a alegria genuínas que vejo nas pessoas – e por uma causa boa – é sempre um espetáculo digno de ser observado, e se possível, compartilhado.

Lá no México o cartaz do teatro foi imortalizado num mosaico de azulejos numa parede do imponente Teatro Degollado, em Guadalajara. Hoje, por aqui, enquanto a bola rola nos impecáveis gramados do Catar, onde jogadores igualmente impecáveis, com seus cabelos impecavelmente estilizados disputam o direito brilhar mais do que o sol, a parte mortal do imortal Pelé vai se despedindo do mundo no qual foi referência. Sob uma verdadeira torrente de homenagens, amparado na solidariedade do planeta inteiro, ainda é para o futebol do Brasil que o Rei deseja força para seguir adiante. E o Brasil segue! E há os muitos de nós que lembram o tempo todo que nós temos problemas gigantemente maiores do que uma Copa do Mundo para vencer. Verdade pura e dura! Mas, ninguém deveria poder negar nem deixar de se maravilhar com a paixão e a emoção que emanam do futebol numa Copa do Mundo, eu penso. Sei muito bem que tudo isso vai passar rapidinho, em meio às nossas desgraças pessoais e coletivas. Mas, ainda vale o espetáculo, eu acho. Como um dia celestial, a despeito do cocô no gramado.

Hoje, mais uma vez o Brasil vai parar e se entregar ao ópio e, se o Deus que se diz que é brasileiro quiser, soltar o grito de gol. E o jogo está começando e o mundo vai ver o Neymar ( quem se lembra dele na copa passada?), o Richarlison, o Vinícius Junior… Mas só que não, eu acho. Hoje nós não vamos trabalhar porque vamos ver é o Pelé. E eu, que provavelmente só vou ver os gols e a comemoração deles, só posso dizer: Que bonito é!

Aquele gol, no fim eu acho que Pelé fez sim. E antes que o Sol se vá, O Grande Sol do Escrete, por Nelson Rodrigues 

O Grande Sol do Escrete (1)

Disse Rilke que a glória, o que chamamos glória, é a soma de mal-entendidos em torno de um homem e de uma obra. E não só a glória. Também a desonra pode ser o queutra soma de mal-entendidos. Qualquer um de nós já amou errado, já odiou errado. Eu próprio, certa vez, desprezei um homem, tive por esse homem a maior náusea ética. Não podia vê-lo sem que minha úlcera desse pulinhos de rã. Sem fazer segredo do meu horror, chamei-o, em público, de cadáver moral.

Eu teria, na ocasião, 17 anos. E o adolescente vive de falsos horrores. Tempos depois, verifiquei que estava errado, errado de alto a baixo. O homem que eu supunha infame era, na verdade, uma dessas nobilíssimas figuras exemplares, um falso defunto moral. Quase um santo.

Eis o que eu queria dizer: — dedico esta crônica aos equívocos que, em certos casos, inauguram a estátua e, em outros, desencadeiam a vaia. Começarei falando de Pelé, o divino crioulo.

Muitíssimas vezes, Pelé foi estátua e, muitíssimas vezes, foi vaia. Eu me lembro de um jogo do escrete em que jogou mal ou, como diz a gíria, jogou pedrinhas. E, no fim de certo tempo, explodia a ira da multidão. No futebol, a apoteose está sempre a um milímetro da vaia. Não sei se todos se lembram de um fato muito curioso. Num jogo Brasil x Inglaterra, aqui, no ex-Maracanã, ao ser anunciado o nome de Julinho, todo o estádio vaiou. Mas começa o jogo. Julinho fez uma série de jogadas perfeitas, irretocáveis. Em dez minutos, o que era humilhação passou a ser apoteose. E assim Julinho teve a fulminante reabilitação.

Volto a Pelé. Repito que, naquela tarde, ele foi pouquíssimo Pelé. E, então, começou a fúria popular. A ninguém ocorria que o supercraque não precisa jogar bem. O perna de pau é que tem de se matar em campo. De mais a mais, o gênio pode ter as suas nostalgias da burrice. Em outro plano, Sartre, o grande Sartre, andou por aqui e disse coisas de que se envergonharia Luvizaro. Podia dizê-las, porque era Sartre. Por exemplo, afirmou o grande homem: — “O marxismo é inultrapassável”. O já citado Luvizaro não diria isso. Ele sabe que, daqui a quinze minutos, o marxismo pode estar ultrapassado por coisa muito melhor. Mas o que sabe Luvizaro Sartre pode ignorar, porque é Sartre.

E, em qualquer clássico ou pelada, Pelé pode fazer tudo, porque é Pelé. Se abrir a Revista do Rádio (2) no meio do campo, estará usando um dos privilégios do gênio. Mas a multidão não perdoa, em Pelé, um passe errado. Se vinha o adversário e frustrava o seu drible, Pelé era quase apedrejado como uma adúltera bíblica. Éramos, ao todo, umas 150 mil pessoas. E dizíamos, uns aos outros, que Pelé já não era o mesmo. Houve um, mais afoito, que declarou: — “Pelé está morto.”

Ninguém protestou. Ou por outra, houve, sim, um protesto. Estava lá o Manoel Duque, que reagiu e gritou: — “Pelé continua sendo o maior jogador do mundo.” E, como um outro resmungasse, o Duque repetia: — “O maior jogador do mundo, em todos os tempos.” Mas, como ia dizendo: — vaiaram Pelé os noventa minutos. Posso dizer que influiu na vaia, além do mais, um certo cansaço, um certo tédio do mito. A multidão precisa destruir os mitos que promove.

A partir de então, não só o homem de arquibancada, também os “entendidos”, também os técnicos, também os cronistas começaram a meter a picareta na estátua de Pelé. Tem sido uma alegre demolição. O crioulo passou a ser o responsável por todos os males que afligiam a seleção. Fui a um sarau de grã-finos e lá ouvi alguém jurar: — “Pelé morreu para o futebol.”

Chegou a correr a notícia de que seria barrado do escrete e do Santos. Ou por outra: — do Santos, não, porque seu nome ainda é bilheteria. Cheguei a imaginar que, humilhado, ofendido, ele próprio saísse da seleção. Mas diz a minha vizinha gorda e patusca: — “Nada como um dia depois do outro.”

Já na classificação, Pelé teve momentos de Pelé. Mas insistíamos, obsessivamente: — “Não é o mesmo! Não é o mesmo!” E, para todo mundo, menos o Manoel Duque, já deixara de ser o maior jogador do mundo. Duque vivia repetindo: — “Mesmo jogando a metade do que sabe, ainda é o maior.” Até que chegou a primeira partida do Brasil, na Copa contra os tchecos. Ora, segundo todos os críticos de futebol, a Tchecoslováquia era um dos mais formidáveis concorrentes ao título mundial. Enquanto o Brasil se preparava em quinze dias, ela se cuidou durante quatro anos. Era assim uma potência da Jules Rimet.

Desde os primeiros momentos sentiu-se que o Rei era um falso defunto do futebol ou, mais do que isso, um salubérrimo defunto, a explodir de saúde. Aliás, recuando um pouco, eu poderia falar do jogo recente, aqui, no Mário Filho, contra a Áustria, onde Pelé foi maravilhosamente Pelé. Mas o que importa, de momento, é a nossa estreia de quarta-feira. Foi, em primeiro lugar, um homem isento de idade, isento de tempo, com uma vitalidade de 17 anos. Defendeu e atacou, estava em todas as posições ao mesmo tempo. Inventou jogadas que nenhum outro jogador faria, em qualquer tempo.

Foi no primeiro tempo? Não: — no segundo. Exatamente, no segundo tempo. l x l ainda no marcador. Recomeça a partida e Pelé estava ainda no campo brasileiro. Apanha a bola. E, súbito, recebe a visita do próprio gênio. Viu que o goleiro tcheco estava fora de posição, muito adiantado. Fez, então, o que não ocorreria a ninguém. De onde estava, deu um prodigioso tiro de cobertura. A TV, que não sabe fantasiar e tem o escrúpulo da mais exata veracidade, descreveu-nos o lance.

A câmera, numa tomada por trás do gol, mostra toda a curva implacável da bola. Por um momento, ninguém entendeu. Por que Pelé não passou? Por que atirava de tão espantosa distância? E o goleiro custou a perceber que era ele a vítima. Seu horror teve qualquer coisa de cômico. Pôs-se a correr, em pânico. De vez em quando, parava e olhava. Lá vinha a bola. Parecia uma cena d’Os três patetas. E, por um fio, não entra o mais fantástico gol de todas as Copas passadas, presentes e futuras. Os tchecos parados, os brasileiros parados, os mexicanos parados — viram a bola tirar o maior fino da trave. Foi um cínico e deslavado milagre não ter se consumado esse gol tão merecido. Aquele foi, sim, um momento de eternidade do futebol.

Pelé nunca foi tão alto no seu gênio. Mas por que fez isso? Simplesmente, ali o Rei se vingava das nossas vaias. E não só ele: — também o escrete, todo o escrete. Bem sei que as hienas da crônica ainda uivam contra a defesa. “Há falhas, há falhas”, rosnam as hienas (nas minhas crônicas as hienas rosnam). Lendo certos colegas, eu penso num velho episódio. Estava eu em Teresópolis, num edifício de apartamentos. Desci com a cachorrinha. Fazia uma diáfana manhã parnasiana, de um azul de soneto. No jardim, eu tremia. E, de repente, lá da janela, um vizinho pôs-se a esbravejar. Sabem por quê? Porque a cadelinha acabara de sujar o gramado. E, então, o sujeito achou que a porcaria mínima era mais importante, mais transcendente do que o céu, a floresta, a luz, as fontes, os pássaros. Assim fazem os cronistas que esquecem uma exibição deslumbrante para catar falhinhas que têm, cada uma, o tamanho de uma pulga.

Amanhã jogaremos com a Inglaterra. Eu sei que a Inglaterra é grande. Mas nós somos maiores, porque somos Brasil, imensamente Brasil, eternamente Brasil.

O Globo, 6/6/1970

(1) Título sugerido pela edição do livro À sombra das chuteiras imortais (Companhia das Letras, 1993). A crônica foi publicada originalmente na coluna “As confissões de Nelson Rodrigues” com o título “O grande sol do escrete brasileiro”. (N.E.)

(2) A Revista do Rádio, lançada por Anselmo Domingos, circulou de 1948 a 1970. Uma das mais famosas publicações da época, o periódico é um dos símbolos da chamada “Era do Rádio”

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