Sobre mangas, riso e samba

Prancheta 1 cópia 8

Sexta-feira, 05 de janeiro de 2018

Primeira sexta-feira do ano. (Não que eu ligue a mínima para essa coisa de virada de ano, mas não foi minha a idéia de contar o tempo, então eu sigo o corso.)

Um tempo atrás, conversando com uma senhora que reclamava dos problemas causados pela nora, eu tentei contemporizar e disse a ela que com o tempo a nora ia acabar amadurecendo. Ela me respondeu falando a idade da pessoa e completou, – sabiamente e torcendo os lábios – , assim: – Minha filha, manga podre não amadurece, só faz é cair. Essa apodreceu no pé.

Na Folha de São Paulo de hoje saiu que o famoso “Negão do WhatsApp” (ou, mais popularmente, “Negão da Piroca”), depois de meses circulando, fazendo rir e constrangendo através deste aplicativo, fez suas primeiras ‘vítimas’ na vida real. A filial brasileira da multinacional Salesforce, que trabalha com softwares empresariais, realizou uma festa de confraternização de fim de ano com um concurso de fantasias. Um funcionário caracterizado como o personagem ficou em quarto lugar no concurso e membros da diretoria posaram para uma foto ao seu lado, todos achando muita graça. A foto chegou à filial da empresa nos EUA e não agradou nem um pouco por lá. O imbróglio culminou com a demissão do próprio funcionário, de um diretor e do presidente da empresa no Brasil.

A repercussão por aqui foi a esperada. Para nós, brasileiros, a atitude parece um exagero. Falta de senso de humor. Hipocrisia do capitalismo selvagem. Incompreensão e desconhecimento do brasilian way of life Afinal, somos um povo descontraído, alegre, irreverente, bem humorado, que faz graça e samba com tudo, que ri das suas desgraças políticas, econômicas etc… E não é que eu tenha algo contra o riso, muito pelo contrário. O riso faz bem e quem consegue rir de suas próprias mazelas tem uma probabilidade maior de ser feliz, eu acho. Um povo inteiro, inclusive. E o “Negão da Piroca” tem memes realmente hilários, não há como negar. O problema, aqui, é achar que o mundo além da fronteira do verde e amarelo tem que entender isso. E concordar, ainda por cima. O problema é essa nossa eterna falta de visão e de maturidade para nos enxergar de fora para dentro, por assim dizer. Só para abrir e fechar parênteses, às vezes eu penso que os espelhos que deram aos nossos antepassados índios eram realmente mágicos e distorciam a realidade, de fato, e a cultura assim seguiu. No último livro do Lobão, Guia Politicamente Incorreto dos Anos 80 pelo Rock, ele, no seu eterno papel de rebelde com ou sem uma causa, diz isso de maneira contundente: “O brasileiro no imenso buraco de seu vazio existencial vive a confeccionar alegorias profiláticas no intuito de evitar qualquer descoberta adulta e honesta de si mesmo. O brasileiro, por assim dizer, não existe: o brasileiro ornamenta. O Brasil pode entrar em crise, mas a imagem que o brasileiro faz de si próprio, jamais.” Discordo da parte do vazio existencial e sei que o brasileiro existe, sim, e rala muito para continuar existindo, mas, em relação ao buraco, em qualquer sentido figurado que se dê, e por mais otimista que alguém seja, não há o que se discutir. As alegorias, estas nós precisamos inventar e ter, porque a realidade é dura de verdade; elas fazem parte até do carnaval que os gringos tanto amam e pagam para ver. Nada contra elas, também. Quanto a amadurecer, já temos quinhentos anos e nem somos mais o país do futebol… Não vamos cair de podres, então…

E, ainda sobre as mangas: Atentai, brasileiros! O mundo dança o vosso samba mas não é o vosso quintal.

8 comentários em “Sobre mangas, riso e samba

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