A Cor do Flamboyant

Terça-feira, 09 de janeiro de 2018

Prancheta 1 cópia 6

(Tenho tido alguma dificuldade para postar aqui. Passei muito tempo escrevendo só para mim e agora fico com aquela sensação de preso que é libertado e não sabe para que lado vai. Na dúvida, vou para cima, como queria Guimarães Rosa. Mas esta é uma outra história)

Umberto Eco era um linguista e filósofo por formação e excelência. No livro A Ilha do Dia Anterior ele faz uma das mais bonitas reflexões sobre pontos de vista e sobre a metáfora que eu já vi: Do alto de uma colina, num excelente diálogo com o protagonista Roberto, Pe. Emanuele, um personagem absolutamente formidável, pergunta o que ele vê lá em baixo. Quando Roberto responde que vê os prados, o padre começa a divagar, dizendo – e aqui faço só um resumo pobre – que aqueles mesmos prados podem mostrar-se diferentes e inspirar sentimentos diversos, dependendo da hora do dia, da coloração do céu, da estação do ano e de quem olha para eles. Ele segue citando possíveis nuances desses prados e no final, conclui assim: “Pois bem, filho: se houveras dito simplesmente que os prados são amenos não terias senão representado o verdejar – que eu já conheço –, mas se disseres que os Prados riem, far-me-ás ver a Terra como um Homem animado, &, reciprocamente, aprenderei a observar nos vultos humanos, todas as nuances que colhi nos prados… E tal é o ofício da Figûra mais excelsa, a Metaphora. Se o Engenho, e, portanto, o Saber, consistem em reunir Noçoens remotas e encontrar Semelhança nas coisas dessemelhantes, só a Metaphora, a mais aguda e peregrina das Figûras, é capaz de causar Maravilha, da qual nasce a Deleitaçam, como na mudança de cena no teatro. E se a Deleitaçam que nos causam as Figûras é o de aprender cousas novas sem fadiga, e muitas cousas em pequeno volume, eis que a Metaphora, fazendo voar nossa mente de um gênero a outro, permite-nos entrever numa única Palavra mais de um objeto”.

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Passando por uma ruazinha um pouco fora do meu roteiro habitual no último final de semana, dei de cara com um enorme flamboyant – árvore que eu primeiro conheci pelo nome de pé de maravilha – em plena floração. Meu fascínio por essa árvore vem de longe, do tempo em que eu ouvia Luiz Gonzaga e Roberto Carlos numa radiola a pilha, numa calçada de fazenda. Luiz Gonzaga cantava a fulô da maravilha e Roberto Carlos chorava a saudade do flamboyant que dava sombra no quintal dele.

A primeira imagem que eu tive de um pé de maravilha foi numa visita que fiz com meus avós a uma fazenda de parentes. O quadro formado por aquela árvore de ‘qualidade’ – era assim que o povo de lá chamava cor – vermelho vivo no meio do verde novo das primeiras chuvas e o tapete que as flores caídas formaram embaixo de sua copa, no chão daquele pátio de terra batida, ficou gravado na minha memória com uma nitidez de fotografia. Naquele dia eu sonhei em ter o meu, mas a vida nômade de Banco do Brasil que a gente vivia naquela época não era compatível com o tempo de um flamboyant.

Quando meu pai comprou uma fazenda mais tarde, visualizei meu flamboyant na frente da casa. “Nós não comemos flor. Vamos plantar é caju, manga, laranja…” Visões de mundo são coisas pessoais, comecei a aprender. No dia que tive essa resposta cresci um pouco, eu acho, e guardei a semente do meu flamboyant. Fomos embora para Minas e eu me esqueci dele por uns tempos. Quando voltamos em definitivo para o Piauí, no primeiro dezembro que passei em Teresina, fiquei bestificada com a quantidade deles que vi por aqui. Nas praças, nos jardins, nos terrenos baldios, na beira dos rios… tinha vermelho para todo lado que a gente olhava. Mas nossa casa não comportaria um e nessa época eu estava ocupada com outros sonhos.

Mais tempo passou e eu resolvi construir uma casa. Nos sonhos para o meu quintal estavam uma goiabeira, uma jabuticabeira e, claro, um flamboyant. Minha arquiteta, uma botânica amadora e entusiasta da causa verde, perguntou se eu iria querer um quintal ou um flamboyant, porque haveria ali uma incompatibilidade de sombra, raízes e não sei mais o quê. Desisti mais uma vez – e definitivamente, já que não pretendo construir outra casa – do flamboyant no quintal. Levo comigo aquela fotografia antiga, de qualquer forma.

Rodando pelas ruas de Teresina hoje, principalmente na zona leste, ainda vemos alguns flamboyants, mas agora é diferente. Só enxergamos as copas das árvores, altas e fora de alcance, e as flores caídas passam quase despercebidas. Eles estão fechados por detrás de muros altos, dentro de quintais ou espaços que foram diminuindo com o tempo para se adaptar a novas realidades. Só o vermelho permanece o mesmo: cor de sonho antigo.

Eu presto muita atenção às lições dos mestres.

6 comentários em “A Cor do Flamboyant

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