Oh! A idade de ouro da minha juventude…

Prancheta 1 cópia 7

Domingo, 21 de janeiro de 2018

“Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa…” (Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas)

No começo da semana que passou eu li uma crônica de um Matheus de Souza, na página da Veja, falando sobre o romantismo que se criou em torno da história de “largar tudo e sair e pelo mundo”. Muito interessante, por sinal, principalmente porque vem de um cara jovem, que, junto com a esposa, realmente largou tudo e saiu pelo mundo. Mais interessante, ainda, é saber que esse rapaz ainda não tem nem trinta anos, é graduado em Relações Internacionais e tem MBA em Gestão de Negócios, e foi considerado pelo LinkedIn como o terceiro brasileiro mais influente da rede em 2016 – o mais jovem da lista, aos 27 anos. É escritor, empreendedor e freelancer em marketing digital. Mantém um blog com seu nome, onde escreve sobre a vida. Na crônica ele faz um breve relato do que foi tomarem ambos a decisão de largar os empregos e sair por aí, viajando e trabalhando por conta própria, e reflete sobre contas a pagar, prazeres e responsabilidades. Ao final recomenda prudência e pé no chão, antes de tomar esta decisão. O título do artigo ‘Largar tudo e sair pelo mundo é para quem tem pai rico’ chamou minha atenção porque foram estas as mesmas palavras que eu falei em uma conversa recente.

Ontem, também numa página da Veja, li uma matéria que dizia que cientistas estenderam o final da adolescência dos dezenove para os vinte e quatro anos. Confesso que tive preguiça de ler o estudo, por isso não sei dizer quais os caminhos científicos percorridos para que se chegasse a esta conclusão, mas fiquei aqui refletindo, pensando nessa geração que sucedeu a minha, a geração Y. Eles têm até nome legal, os Millenials, a primeira geração totalmente tecnológica (se você estiver falando de lugares e meios sociais onde a tecnologia chega, é claro) do mundo.

Entrando quase na casa dos cinquenta anos, não quero, aqui, fazer uma enfadonha retrospectiva da minha própria vida, enaltecendo a minha velha infância, linda juventude e dura realidade adulta, mas tenho muita dificuldade em aceitar certas visões de mundo dessa nova geração. Até aqui, nada de novo: esta dificuldade é o que sempre alimentou o chamado conflito de gerações desde que o mundo é mundo. Aceito o conflito. Acho até que a oposição de uma geração à outra é um dos modos de evolução do mundo. É assim na vida, como na arte, como em qualquer campo da estrutura do universo conhecido. E tenho a mente aberta o suficiente para ver o que de positivo esse povo novo, como eu gosto de chamar, vai trazer para o mundo como um todo. Eles são mais preocupados com a saúde, com a alimentação, com um mundo politicamente correto, para citar só alguns pontos, e isto é muito bom! Pelo menos quando não extrapola os limites do exagero e do radicalismo, mas este é só um parêntese. A intenção da mudança, no geral, é muito boa e eu apoio. O que não dá para aceitar é o pensar que eu tenho o direito de tirar desse mundo lindo tudo o que puder para ser feliz. E que o mundo lindo pode esperar até que eu resolva todos os meus conflitos para poder entrar de cabeça na realidade dele. Bom, eu até concordo que o mundo é lindo e acho, também, que devemos fazer tudo para tornar feliz a nossa breve passagem por ele. Agora, daí a achar que o bilhete para esta viagem e o voucher de pensão completa vem junto com a certidão de nascimento e com a caderneta de vacinação, e ainda com o prazo de validade em aberto das tarifas cheias, é uma outra história. Nunca foi nem nunca será um direito adquirido ao nascer, a não ser quando por direito de herança de alguns afortunados no mundo. E aqui podem inventar um alfabeto inteiro de gerações que a história será ou terá sido a mesma: no pain, no gain. Por que, então, a geração da tecnologia, da liberação sexual absoluta, da liberdade irrestrita de costumes, ainda citando só alguns pontos, age como se merecesse os bônus desse wonderful world? E sem arcar com os ônus? A mim parece, sim, é que a geração mais sabida que o mundo conheceu é também a menos preparada para viver nele.

Quando se fala em termos de geração, isto é um conceito e como todo conceito, remete a generalizações, portanto não tenho como não fazer algumas. Eles – e com eles já estou generalizando – desdenham da lei do maior esforço, eles não gostam de acordar cedo, eles dormem pouco à noite, eles desprezam o planejamento, eles se entendiam com muita facilidade, eles têm interesses restritos ou então diversificados, porém superficiais, nas coisas, eles mobilizam redes sociais inteiras com suas causas e eventos os quais, no mais das vezes, nem eles mesmos entendem a fundo; reclamam, bradam, fazem zoada… E querem sempre mais! Também aqui, com exceção das redes sociais, nada de muito novo. Coisas da nossa juventude dourada – Eu também já “dancei no pó dessa estrada”, como lamentou o Belchior. Quem nunca, na verdade? E quem nunca sonhou com uma vida melhor que a dos pais, boa, leve, low profile, sem horários definidos etc? Quem nunca teve vontade de tirar um ano sabático (sempre achei isso lindo!), longe de toda e qualquer pressão e tédio? Ou de dizer ao chefe, depois de uma bronca numa terça-feira de manhã: “– Para mim já deu! Fui!”. Não, o problema não é aqui, não! Todo mundo tem direito de sonhar; são os sonhos que norteiam as realidades que queremos. E adolescentes e jovens costumam sonhar mais que os adultos, por assim dizer. O ponto crítico, aqui, é querer esticar o tempo entre o período em que se sonha e aquele em que começamos a nos esforçar para realizar esses sonhos, nós mesmos. E/ou, como é comum acontecer, achar que, enquanto isto não vem, a conta deles pode ser graciosamente paga pelos pais ou por alguém mais.

Na mão inversa dessa via, como mãe eu posso dizer, também: Qual é o pai ou a mãe que não quer para seus filhos uma vida melhor do que a que teve? Meu pai conta que meu avô, fazendeiro e comerciante rude do interior, deu a ele a oportunidade de estudar em uma cidade melhor. Quando ele concluiu o segundo grau, voltou para casa cheio de ideias novas, que tentou implantar. Em pouco tempo meu avô disse a ele que estava na hora de “procurar seu caminho”, porque ali não havia espaço para as ‘ideias” dos dois. Naquele tempo as pessoas eram mais duras. Meu pai saiu de casa e construiu o seu caminho. Não vou, repito, revisitar minha vida, mas vou dizer que tive, sim, uma infância feliz e confortável, e uma adolescência saudável, num ambiente estável material e emocionalmente falando. Nascida em uma família já de classe média, tive, sim, o privilégio de uma boa educação, mas pela qual fui muito cobrada, também. E o limite material dos meus pais foi este. Tive ainda ajuda financeira num começo difícil, mas nunca coloquei a conta dos meus prazeres materiais nesta fatura. Comprei meu primeiro carro só depois que comecei a trabalhar. Fiz a primeira viagem ao exterior só depois dos trinta anos e assim mesmo, praticamente de mochila nas costas. Eu e meu marido tomamos nosso primeiro vinho bom ( o que quer dizer caro para os nossos apertados padrões da época) no dia em que quitamos nosso apartamento, depois dos trinta e cinco. E só a partir daí, com as contas mais equilibradas, pude me dar ao luxo de curtir e desfrutar um pouco mais a vida adulta. Como meu pai – e meu avô antes dele – dei, também, aos meus dois filhos, oportunidades e facilidades que eu não tive. Evolução deve ser alguma coisa parecida com isto, também. Reconheci, no meio dos sonhos deles, alguns que eu também tive um dia, e uns eu pude e posso bancar para eles, mas dentro de um limite razoável. Ainda tenho os meus próprios sonhos (viajar pelo mundo continua sendo um destes sonhos) e o meu tempo por aqui, em tese, é menor do que o deles. Não considero minha, portanto, a responsabilidade pela conta de uma adolescência estendida.

Hoje eu ainda ralo muito e de verdade. Tenho preocupações e ansiedades como todo mundo, assimilo o cansaço como posso e tento colocar na minha vida toda a leveza que dá para colocar. Encaro o trabalho como um ofício a ser bem executado, não me entedio facilmente e não tenho grandes luxos. Tenho, no entanto, alguns prazeres materiais que só o dinheiro pode comprar. Pago por todos eles do meu próprio bolso e posso até passar um mês fazendo o caminho de Santiago ou um trekking para Machu Picchu, ou para qualquer outro lugar místico desses, se quiser. E não tem um dia sequer em que eu não acorde às 5:30 da manhã e pense que poderia muito bem estar viajando por algum outro lugar desse mundo lindo. Aí eu me lembro das chatíssimas e inevitáveis contas do dia a dia, levanto, tomo um banho e vou trabalhar.

“Todo mundo quer uma vida perfeita, mas a grande verdade é que você só “larga tudo” se recebe uma herança ou tem pais ricos pra te bancar. Não existe largar tudo do dia pra noite para o cara que é CLT ou para a menina que está desempregada” – diz o rapaz que largou tudo, no artigo. Ele largou porque podia, deixa claro!

De minha parte, deixo aqui só um pouquinho de Rimbaud, na Chanson de la Plus Haute Tour (Canção da Mais Alta Torre). A título de conselho, reflexão ou somente para lembrar uma poesia bonita, mesmo:

“Oisive jeunesse
A tout asservie Par délicatesse
J’ai perdu ma vie.
Ah! Que le temps vienne
Où les coeurs s’éprennent”

(Ociosa Juventude / A tudo escravizada, / Por virtude / Perdi minha vida. / Ah! que venha o instante / Que as almas encante)

4 comentários em “Oh! A idade de ouro da minha juventude…

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  1. Fantástico o seu texto! Sensacional!
    Discordo apenas quando você diz que esta é a geração mais sabida. Diria que é a mais informada.
    Vejo muita gente dessa geração Y com muita informação, e pouca sabedoria.
    E também vejo muita coisa boa nos sonhos deles! Mas também vejo
    muita falta de coragem para enfrentar o mundo real. Parece que estão ficando mais frágeis.

    Curtido por 1 pessoa

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