Tudo o que é bom saber sobre estrelas

Prancheta 1 cópia 7

Quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018
(Como eu já disse uma vez, não sei se é janeiro que pesa ou se são os meus janeiros a pesar. Voltando lentamente à vida, depois de mais um deles)

“Vejo, à noite, uma estrelinha,

No céu, piscando, piscando…

Mamãe diz que ela, de longe,

Pisca, pisca, é me chamando…

Quando eu crescer e Papai

Me comprar um avião,

Vou te buscar, estrelinha,

Na palma da minha mão.”

Minha mãe recitava estes versinhos para os filhos quando eu era criança. Acho que é a poesia mais antiga que a minha memória alcança. Eu consigo me lembrar até da entonação da voz dela quando dizia os versos. As mães sabem, como ninguém, colocar idéias nas cabeças dos filhos. A estrelinha virou um desejo.

Cresci prestando atenção às estrelas. Na fazenda da minha infância, quando eram apagadas as luzes, a gente ficava sob aquele manto de estrelas, vendo o passeio que elas faziam pelo céu (assim eu pensava na época) até a hora de ir dormir. Era bonito de se ver! E tinha tanta coisa que a gente queria saber… Os adultos falavam do que conheciam daquele céu: a Mancha do Sul, o Sete Estrelas, as Três Marias, o Cruzeiro do Sul, a Estrela D’alva… E ainda tinha as lendas e histórias sobre elas, também (da maior parte delas eu já me esqueci, que pena! ). E a gente inventava as nossas constelações, também. Tem um coração que acho que até hoje qualquer um de nós, lá de casa, consegue identificar no céu do hemisfério sul. É até comum, quando um de nós viaja para algum lugar com um céu bonito, falar depois pros irmãos: “– O céu estava lindo, consegui ver o coração”. Passamos o coração para os nossos filhos, também. Pros meus e para alguns dos sobrinhos eu pude mostrar in loco. Nunca existirá um céu como aquele! E as estrelas eram perguntas e divagações naquela época.

Quando li O Pequeno Príncipe pela primeira vez, vi que elas podiam simbolizar o amor e também o riso numa emocionante despedida de uma amizade tão bonita quanto improvável. É uma das mais adoráveis – e também uma das mais tristes – passagens que eu conheço da literatura:

“- Ah! meu pedacinho de gente, meu amor, como eu gosto de ouvir esse riso!

– Pois é ele o meu presente… será como a água…

– Que queres dizer?

– As pessoas têm estrelas que não são as mesmas. Para uns, que viajam, as estrelas são guias. Para outros, elas não passam de pequenas luzes. Para outros, os sábios, são problemas. Para o meu negociante, eram ouro. mas todas essas estrelas se calam. Tu, porém, terás estrelas como ninguém…

– Que queres dizer?

– Quando olhares o céu de noite, porque habitarei uma delas, porque numa delas estarei rindo, então será como se todas as estrelas te rissem! E tu terás estrelas que sabem rir!

E ele riu mais uma vez.

– E quando te houveres consolado (a gente sempre se consola), tu te sentirás contente por me teres conhecido. Tu serás sempre meu amigo. Terás vontade de rir comigo. E abrirás às vezes a janela à toa, por gosto… E teus amigos ficarão espantados de ouvir-te rir olhando o céu. Tu explicarás então: “Sim, as estrelas, elas sempre me fazem rir!” E eles te julgarão maluco. Será uma peça que te prego…”

Na adolescência elas viraram o sonho romântico do Olavo Bilac. No seu Via Láctea ele disse que é preciso amar para saber do que as estrelas falam:

Ora (direis) ouvir estrelas! Certo,
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…

E conversamos toda a noite,
enquanto a Via-Láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo? “

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas”.

Quando minha filha nasceu, cantei para ela uma linda musiquinha de ninar, que me lembrava os versinhos de minha mãe. O mundo tinha mudado um pouco e já havia uma razão lógica para se querer uma estrela:

“Eu quero aquela estrelinha

Que à noite fica a piscar

E por um vãozinho do vidro

Eu fico quietinha a olhar

Brilha, brilha

Brilha estrelinha

Eu também quero brilhar

Quero ser como

Uma fadinha

Para em seus raios brincar”

Cantei isso pro meu filho, também. A melodia e a mensagem da música não comportam distinção de gênero. E foi me lembrando do meu filho que escrevi esta crônica de hoje. Um dia desses ele chegou para mim e falou: “– Mãe, presta atenção na letra dessa música! ”. Até as alergias do meu filho são as mesmas minhas e ele sabe do que me pega pelas pernas, então eu obedeci. Depois que ouvi ele me falou que o Jack Johnson tirou a letra de uma lembrança do seu tempo de criança, de uma vez que ele foi surfar com o pai à noitinha. O nome da música é Constellations e fala desse momento bom: um céu cheio de estrelas, o pai dando explicações sobre elas, eles desenhando suas próprias constelações… Fala ainda, metaforicamente, sobre mudanças e sobre se prestar atenção para encontrar as histórias que precisamos escutar. Serviu, também, para me levar novamente àquele céu da minha infância, embora não tenha feito nenhuma musiquinha linda com a lembrança. Talvez meu filho também tenha voltado a ele e por isso veio me mostrar. Não vou traduzir, nem colocar aqui, vale mais a pena escutar, mesmo; entre crianças, estrelas e divagações sobre elas, a musiquinha saiu um encanto!

Oswaldo Montenegro, sempre falando da vida em Ré maior, transformou, em Estrelas, um momento de separação em algo bonito. Aprendi que as estrelas também podem emudecer:

Pela marca que nos deixa
A ausência de som que emana das estrelas
Pela falta que nos faz
A nossa própria luz a nos orientar[…]”

Nos meus paralelismos e exercícios de encadeamento, acabei evocando um poema de Dylan Thomas, que, segundo contam, foi inspirado em uma menininha de quatro anos, filha de amigos, que ele viu perguntar à mãe de que cor era a glória (embora ele só tenha usado este verso em outro poema). Numa linda metáfora usando as crianças – e também as estrelas – fala de perguntas que não conseguimos responder, perguntas que as crianças sempre farão. E de sonhos de agarrar cometas que sempre terão. O nome do poema é algo como “Por que nos enregela o vento leste e o do sul nos refresca?”, e no fim ele diz que tudo (que importa?) já é conhecido. Que o conselho das estrelas convoca alguma alegria para viajar com os ventos, embora o que elas peçam a estes ventos, enquanto eles cercam, ao longo do tempo, suas torres no céu, somente a muito custo se escute antes que elas desapareçam: Seja feliz, não procure respostas!

Toda mãe deveria falar sobre estrelas com seus filhos.

Eu acho.

7 comentários em “Tudo o que é bom saber sobre estrelas

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  1. Estrelas, céu estrelado… Contemplar com admiração e gosto refinados essa maravilha do universo é privilégio de poucos; e a Lysia, como seus irmãos, tivemos essa grata oportunidade em nossa infância e adolescência, hábito cultivado até hoje e para sempre. Os desdobramentos, a poesia e ensinamentos ficam por conta de cada um, como, por exemplo, nesse brilhante relato.

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