A benção, meu Velho Novo!

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Terça-feira, 27 de fevereiro de 2018 (um fevereiro engasgado)

“Porque o homem é essa criatura sem idade fixa, com a faculdade de tornar-se, em poucos segundos, extremamente jovem e que, cercado pelas paredes do tempo em que viveu, flutua nele, mas como num tanque cujo nível mudasse constantemente e o pusesse ao alcance ora de uma época, ora de outra”

(Marcel Proust, Em Busca do Tempo Perdido, vol. 6)

Sentimento é um negócio difícil de colocar em palavras, se você não for um grande poeta. E tem uns que são mais difíceis, ainda. O que eu chamo de ‘sentimento do novo’ é um deles. Ver o último lançamento do cinema, ouvir uma música nova no rádio, descobrir um conto que você nunca tinha lido de um dos seus autores preferidos, dar uma gargalhada com o último meme que circula, conversar com crianças e adolescentes e descobrir o que está ‘pegando’ no momento… Tudo isso produz em mim uma sensação de bem estar que eu não consigo descrever. É um sentimento que me faz sentir viva, jovem e feliz. Paradoxalmente a isso, tem horas em que eu me sinto velha, de verdade, embora não tenha nem dificuldades nem traumas com isso ainda – talvez minha maneira de encarar o mundo já o seja há muito, como suspeitava o Drummond. Às vezes, e no entanto, fico pensando no que ainda vai me fazer feliz quando o inverno chegar, finalmente. Ter pessoas queridas por perto, saúde, uma vida financeira dentro de padrões dignos vai ajudar, sem dúvida! Mas bastará, será?

No começo do mês vi uma matéria de 2016 repostada no El País, que conta como o twitter mudou o resto da vida do ator e dramaturgo chileno Hernán Letelier, que aos 95 anos de idade estreou nas redes sociais, depois de ganhar um smartphone de presente de uma amiga.

O ator, que foi um astro do teatro no seu tempo, vive com sua gatinha em um pequeno apartamento em Santiago, “praticamente esquecido pelas novas gerações”. Vivendo uma vida solitária entre livros (sua biblioteca tem mais de 3000 títulos), poesia e música, ele diz sentir saudade da família e da agitação social e cultural da Santiago do passado: “Tive uma família estupenda, mas minha mãe faleceu, e meu único irmão morreu muito jovem. Não me casei nem tive filhos, e meus tios e primos estão todos mortos. Também minhas grandes amigas e amigos da alma. Na idade que eu tenho, não resta ninguém vivo”. Praticamente sem sair de casa, ele, que fala inglês, francês e italiano, escreve poesia e contos, já concluiu três romances e diz que lê poesia e canta em voz alta todos os dias. Segundo o repórter, no pequeno apartamento tem-se a impressão de haver mais vida do que do lado de fora dele e “a cultura, sob todos os âmbitos, está presente nesse lar acolhedor, como a ferramenta-chave para manter a mente jovem e o corpo menos trêmulo”. Quando resolveu entrar no twitter, passou dias pensando no seu primeiro post, em como poderia dizer o que queria em 140 palavras. Resolveu assim:“Será comum um homem de 95 abrir uma conta no Twitter? Tenho vontade de me conectar com o mundo. Martina, minha gata, está feliz e me aconselha”. E em seu perfil, @ letelier1920 , escreveu: “Tenho 20 anos, mas acabo de fazer 95. Ator e diretor de teatro em meados do [século] XX. Você se lembra de Pierre, le peluquier de La Pérgola de las Flores? Era eu”. Em poucas horas já tinha mais de 900 seguidores.

Fiquei pensando neste velho de quase um século de idade redescobrindo o mundo, um lugar de onde ele não esperava tirar mais nada a essa altura da vida, com certeza. Pensei nele interagindo com os jovens de hoje, e com os velhos de hoje, também, num tipo de comunicação que talvez para ele equivalha a uma realidade de ficção científica: absolutamente impressionante e inacreditável. Imaginei o ‘sentimento do novo’ invadindo o pensamento dele para dizer que tem 20 anos, embora tenha acabado de fazer 95 e consegui, enfim, ver a resposta óbvia à indagação que fiz no começo desta crônica, sobre ser feliz na velhice. As pessoas queridas que tivermos a sorte de ter por perto não serão mais aquelas que nos chamavam pelo primeiro nome, com toda certeza; ter saúde, nessa idade, é de um relativismo que é melhor nem comentar e quanto ao dinheiro… bom, a gente tem que trabalhar essa idéia desde já. Estes são quereres, por assim dizer, aos quais é preciso acrescentar um ‘na medida do possível’. Agora, se aos noventa anos eu tiver alguma felicidade e ainda conseguir pensar que muito mais velho do que eu é o mundo, que no entanto se renova sempre, e puder dizer, como queria meu mestre Belchior, “talvez eu morra jovem, em alguma curva do caminho”, será porque, como cantou sabiamente um outro poeta, Paulinho da Viola, “meu mundo é hoje”. Será sempre, eu espero!

– E ler poesia e cantar em voz alta todos os dias também deve ajudar. Ponto!

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