Da morte, do nada e das intermitências da vida

Domingo, 13 de maio de 2018

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“Descobri que sou tal qual o elefante, uma parte de mim aprende, a outra ignora o que a outra parte aprendeu, e tanto mais vai ignorando quanto mais tempo vai vivendo.” (José Saramago, A Viagem do Elefante)

Uma pequena introdução: Fazendo uma leitura geral das poucas publicações deste despretensioso blog (tão produtivo quanto o tempo que me falta para dedicar a ele), fiquei pensando, outro dia, se não estaria sendo muito repetitiva em associações e pseudo profundidades. Pensei mas segui em frente porque minha mente já funcionava assim quando sequer pensava em publicar qualquer coisa e o que eu queria, mesmo, era contar histórias. Pouco depois desta reflexão, li uma linda crônica do Saramago, que eu não conhecia e que me redimiu e elevou um tiquinho assim, se me for permitida a vaidade, minha autoestima como (#projetode) escritora. Na crônica ele começa falando da sua incapacidade de definir o tempo, narra a notícia que leu que o fez pensar nisso e pede desculpas por aquelas falsas profundezas desencadeadas pela tal notícia. Diz, ainda, que “não iria longe esta crónica se não fosse a providência dos cronistas, a qual é (aqui o confesso) a associação de ideias”. Entre pseudo profundidades e falsas profundezas – simples nuances da língua – e reflexões parecidas, tenho certeza que eu não merecia tanto (apesar de já ter dito ao meu marido que acho que o Saramago e eu éramos almas gêmeas.). Adiante!

Nesta última quinta-feira morreu, aos 104 anos, de morte voluntária e assistida, o cientista inglês há muito tempo radicado na Austrália, David Goodall. Na semana passada ele virou notícia mundial ao declarar esta intenção. Ele tomou a decisão depois de uma queda grave que sofreu dias atrás, em seu apartamento, em consequência da qual passou dois dias no chão, antes de ser encontrado e socorrido. Seu próximo destino em vida seria uma casa de repouso para idosos. O suicídio assistido já é uma questão que rende quando a pessoa que escolhe esta alternativa tem uma doença terminal, uma tetraplegia ou qualquer outra condição patológica irreversível. Quando, como no caso, isso parte de alguém cuja única condição irreversível que possui é o tempo de vida, aliado à uma deterioração da qualidade desta vida, aí o mundo vai à loucura. Ainda neste último mês, duas outras notícias relacionadas ao desejo de morrer também chamaram atenção: Uma, que causou comoção na mídia nacional, foi o suicídio de dois adolescentes de um colégio de classe média de São Paulo. Vivendo numa cidade que figura, com relevância, no triste ranking de suicídios entre jovens, no país, confesso que não me surpreendi nem um pouco, embora tenha ficado igualmente consternada. E a terceira notícia foi um depoimento de um médico que integra uma equipe de médicos e psicólogos que assistem crianças sírias atingidas pela guerra. Na matéria ele mostra os desenhos feitos por estas crianças e diz que a idéia geral do pensamento delas é de que se morrerem, quem sabe poderão brincar? Isto talvez tenha sido a coisa mais triste que eu li nos últimos tempos.

Eu não entraria, aqui, nem sob tortura, na delicada questão de quem tem direito de decidir sobre a vida, se o sagrado ou o profano. Muito menos me perderia em análises técnicas sobre educação, comportamento e acompanhamento de adolescentes no mundo atual. E menos ainda falaria sobre as razões que são usadas para justificar uma guerra. Mas, nesses tempos de filósofos modernos que ajudam a vender assinatura de jornais e lotam auditórios (com ingressos disputados a tapa), apenas salientando o óbvio do mundo para o mundo, tentando parecer originais, eu, que não tenho nem pretensões nem patrocínios, apenas gosto de escrever, fico muito à vontade para puxar pelas obviedades, também.

Existe um conceito existencialista que diz que nós, enquanto homens ( homem = mamífero da ordem dos primatas, único representante vivente do gên. Homo, da sp. Homo sapiens, caracterizado por ter cérebro volumoso, posição ereta, mãos preênseis, inteligência dotada da faculdade de abstração e generalização, e capacidade para produzir linguagem articulada – esta definição, inclui, portanto, a mulher), possuímos como características existenciais o fato de sermos estes seres provisórios, temporais, que sofrem a influência do mundo que nos cerca e neste procuram também influenciar, e que vivem e trabalham o presente sempre com vistas ao que esperam do futuro. O existencialismo defende que não existe uma essência humana. Diz que o homem primeiro existe e é livre para fazer suas escolhas e que são estas estas escolhas que vão determinar a sua essência. Dessa maneira, a vida do homem é sempre um projeto a ser concretizado. O fato de ter que escolher a todo momento o melhor caminho para a realização deste projeto é que gera o que essa corrente filosófica chama de angústia existencial. A ausência ou perda de projetos de vida geraria, dessa maneira, o desespero, o desamparo e não sei o quê mais lá. Diz, ainda, que somente a morte faz o homem finalmente completo. Relacionado a isso (ou pelo menos assim eu penso), na sociologia existe um conceito chamado anomia, segundo o qual a humanidade vem justamente perdendo objetivos, vontade de realizar coisas etc, e que isso se dá pela perda de valores e, consequentemente, de identidade, que o vazio existencial gerado por esta perda deixou. Obviamente que isto é uma simplificação grosseira. Eu gosto de ler sobre filosofia e sociologia, mas ainda não sou tão chata ao ponto de estudar isso a fundo (quem sabe um dia serei?). Gosto, na verdade, de tudo que fala de gente, mas não quero que isso pareça um pseudo ‘intelectualismo’. Nem sequer concordo com tudo, na verdade. Da minha filosofia do fundo do meu quintal, vejo a natureza do ser humano, sua essência, como algo que não mudou em todos os séculos do tempo, nem eu acho que mudará. Penso que as mudanças do mundo ao longo do tempo apenas modificam a maneira como nos colocamos e vivemos nesse mundo e nesse tempo. Coloquei os conceitos muito superficialmente, apenas para ilustrar porque, voltando às obviedades, o que estas ciências fazem é tentar explicar a vida, como e por que ela é (o que, tenho que dizer, eu até já acho muito). A filosofia é o amor ao saber, etimologicamente falando, então estejam à vontade os filosófos para amar, mas a sabedoria, sobretudo acerca da existência, é uma coisa que sai do povo e da vida de cada um. E da maneira como cada um leva esta vida ou se deixa levar por ela.

A sabedoria é o seu Jesus, da cantina do meu colégio na adolescência perguntando para mim e para uma amiga o que gente achava que era mais importante na vida, e sorrindo com condescendência quando ouviu de nós que era o amor, para depois dizer serenamente que até para o amor era preciso ter saúde, e que portanto, esta era mais.

É uma senhorinha idosa e humilde me falando, com muita amargura, durante a realização de um check-up, que só queria terminar de criar uma neta, depois disso Deus poderia levá-la porque não queria mais nada desse mundo.

É a avó do meu marido, aos 92 anos, viúva depois de 60 anos de um bom casamento, cercada de filhos, netos e bisnetos, mas dependente em tudo, inclusive de um cateter de oxigênio para respirar, perguntando, com lucidez e em voz alta, o que ainda estava fazendo por aqui.

É mesmo o meu marido, barganhando seu tempo de vida pelo número de pores do sol que já viu e ainda pretende ver na praia.

É um amigo me perguntando, sem que eu tivesse tempo para explicar, como eu achava que alguém podia se preparar para a velhice.

E até eu mesma, dizendo aos que me são próximos (e desde muito antes de saber o que era existencialismo), que a gente tem que ter sempre uma luzinha piscando lá na frente, para ir atrás.

É aquele solitário ator e dramaturgo chileno, Hernán Letelier, entrando no Twitter aos 95 anos, querendo redescobrir o mundo e a este se reconectar.

É a milionária Kate Blackwell, no Reverso da Medalha do Sidney Sheldon, também com quase 100 anos, recusando-se a morrer antes de direcionar a vida do bisneto de 12 anos, depois de ter manipulado e destroçado a vida da família inteira para dar continuidade ao seu império.

É o mestre Belchior, cantando o cidadão comum “que caminha para a morte pensando em vencer na vida”.

É o Herbert Vianna, num lamento que quer ser ouvido (e em qualquer idade), pedindo, diante de tanto mar, vento, vela e razão para ficar.

É o Fernando Pessoa, naquela verdadeira ode ao desencanto que é A Tabacaria, perguntando-se “que sei eu do que serei, eu que não sei quem sou?”

É aquele adolescente problemático do Apanhador no Campo de Centeio, do Salinger, falando da vontade que teve de se matar pulando da janela, mas que só não o fez porque não tinha a certeza de que alguém fosse imediatamente cobrir seu corpo quando se esborrachasse lá em baixo.

É também a velha avó Josefa do Saramago, da janela da casinha pobre lá no seu torrão natal, de onde nunca tirou os pés, suspirando e falando, diante de uma linda noite estrelada, do tanto que o mundo era bonito e da pena que tinha de morrer.

É o próprio Saramago, sem pensar em guerras (ou talvez pensando nelas ), escrevendo uma história para crianças e falando de um menino que queria salvar uma flor, e que por este alto ideal rodou o mundo “naquela vagarosa brincadeira que o tempo alto, largo e profundo da infância a todos nós permitiu”.

É o Gonzaguinha, que também não conheceu a guerra da Síria, cantando que a melhor definição de vida é a que a pureza da resposta das crianças dá: é bonita, é bonita e é bonita!

É aquele versículo da Bíblia dizendo assim: “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé.”

É, por fim, ( e por que não?) o premiado cientista inglês, que até os 102 anos ainda publicava trabalhos, morrendo, por vontade própria, depois de fazer um brinde com cerveja e uma refeição com seu prato preferido, cercado por familiares e ouvindo a Ode à Alegria, de Beethoven.

Naquela crônica do Saramago ele envereda pela recordação de uma gota d’água caindo numa caverna e fala do tempo a fabricar pedras. Diz, ao final, que fala de tempo e de pedras quando é em homens que pensa, porque é o homem a matéria prima do tempo. E eu aqui, pegando a carona do mestre, enquanto falava de desejos de morrer e de viver, era em sonhos que pensava. Também porque, se são os homens a matéria prima do tempo, creio que são os sonhos a matéria prima da vida. A morte, nossa primeira e única certeza, é também a última das nossas possibilidades. Há entre nós, no entanto, os que com ela sonhem porque, realizados ou não, já sonharam demais. Há os que sonham com ela porque não sabem com o que sonhar. E há, ainda, aqueles que sonham com a morte para terem alguma vida pela qual sonhar. O mérito sobre isto, não tenho o arbítrio para julgar. Não obstante, deixo, em última instância e para finalizar esta crônica do óbvio ululante, um trechinho daquele poema do sertão e da vida, Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. É a última parte, quando depois de percorrer um sertão inteiro atrás de uma vida melhor, o Severino retirante chega ao Recife e descobre que a vida melhor não existirá para ele. Conclui que ele é, na verdade, apenas um defunto que chegou adiantado para o próprio enterro e resolve se matar, pulando de uma ponte. Pergunta ao mestre carpina José, que vive na extrema miséria de um mocambo e que durante a conversa recebe a notícia do nascimento do filho (para o qual duas ciganas prevêem um futuro não menos miserável), qual o sentido daquela vida. É para todos os severinos do mundo que mestre carpina José responde:

“— Severino retirante, deixe agora que lhe diga: eu não sei bem a resposta da pergunta que fazia, se não vale mais saltar fora da ponte e da vida; nem conheço essa resposta,
se quer mesmo que eu lhe diga é difícil defender só com palavras, a vida, ainda mais quando ela é esta que vê severina; mas se responder não pude
à pergunta que fazia, ela, a vida, a respondeu com sua presença viva. E não há melhor resposta
que o espetáculo da vida:
vê-la desfiar seu fio,
que também se chama vida,
ver a fábrica que ela mesma,
teimosamente, se fabrica,
vê-la brotar como há pouco
em nova vida explodida;
mesmo quando é assim pequena
a explosão, como a ocorrida;
mesmo quando é uma explosão
como a de há pouco, franzina;
mesmo quando é a explosão
de uma vida severina.”

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