Por onde andará Tiago Iorc? E a juventude, então?

Domingo, 19 de agosto de 2018 (só uma pegadinha leve para voltar ao compasso da dança)

Prancheta 1 cópia 3

“Antigamente, se bem me lembro, minha vida era um festim no qual todos os
corações exultavam, no qual corriam todos os vinhos.”

– Artur Rimbaud, Uma Estação no Inferno.

Nesta semana, conversando mais uma vez com meu filho, comentei que vi em algum lugar que o Tiago Iorc tinha se retirado do mundo artístico. Estava ‘sumido’, como o Belchior esteve. Ele ficou espantado com a notícia e foi procurar na internet algo a respeito. Achou o texto que ele deixou no Instagram, para se justificar, e me passou dizendo que “esse cara devia estar muito doido quando escreveu isso, mas ficou legal. Lê aí!’ Eu li, claro! E concordei quanto à parte do ‘legal’. A postagem é uma foto dele mesmo gravando seu primeiro vídeo clipe, dez anos atrás, e o texto fala, de uma maneira bonita, sobre os sonhos e sobre a audácia “daquele guri” da foto no momento em que ela foi tirada. Fala de seus medos e de sua timidez, contrapondo o fato de, apesar de não saber de nada, ter certeza do que queria. Diz que o Tiago da foto reconhece o Tiago de agora porque sempre soube que um dia ele estaria ali. Diz, ainda, que nesses dez anos viu-se perdendo tanto os medos como as certezas, e que sente falta disso. Com uma explicação digna de Rimbaud, diz que “Hoje me vi sem certezas e me senti velho. Somente o velho consegue ter certeza do que é sonho”. E termina dizendo que achou que precisava dar um tempo da desgastante vida midiática, sentir novos medos e “voltar a ter certeza do que é improvável”, pois devia isso ao garoto da foto. E ao seu público, também.

Tiago Iorc só tem 32 anos, é um carinha bom de mídia e pode só estar querendo curtir um período sabático. Ou isso pode ser só uma grande jogada midiática dele, também. Seja como for, a postagem foi uma sacada genial, eu achei! Sempre acho genial quando alguém consegue colocar bem, em palavras, algum sentimento geral que é óbvio, mas tão óbvio que quando nós ouvimos ou lemos, aquilo clareia imediatamente algum recanto da nossa mente e pensamos, com algum sorrisinho idiota no rosto: “Mas que coisa, é isso mesmo!” E nós pensamos em nós mesmos, não tem como não. No caso do texto dele, dá para fazer na mesma hora aquela viagem ao tempo que nós éramos ‘jovens’, naquela concepção ali. Tendo 20 anos, como meu filho, ou 48, como eu, isso toca alguma corda em nós. Paramos para procurar, no tempo, em que ‘lugares’ dele fomos deixando as certezas, quais situações minaram os nossos medos, e para onde foi drenado o entusiasmo que um dia propulsionou alguns dos nossos sonhos. Caímos na tentação de rever nossas fotografias antigas, ver aqueles sorrisos ou fisionomias confiantes congelados nelas, e pensar, como o Tiago Iorc (ou como o Oswaldo Montenegro): aquele que está olhando para mim agora sou eu? Eu me reconheço ali? Se sim ou se não, acho que nem importa, na verdade; não é este o mote. Tem uma crônica bonita do Luiz Fernando Veríssimo, na qual ele relembra um banho de mar com moças e rapazes do seu tempo, e do tanto que gostava de banhos de mar naquela época. Conclui depois que nem era dos banhos que ele mais gostava, afinal; que o que ele gostava, mesmo, era “de ser moço”. Esta é a verdadeira grande sacada. E o ser velho ou moço, o que seria?

Lendo o texto eu me lembrei do Rimbaud. Comentei com meu filho que ele escreveu toda a sua estupenda obra poética entre os 15 e os 20 anos, e depois disso abandonou de vez a poesia, por motivos até hoje nunca totalmente explicados. Desilusão, desencanto com a vida, tédio existencial? Quem vai saber? Olhando para a fotografia, Tiago Iorc diz que sentiu saudade daqueles anos, ou que talvez tenha sentido medo de não sentir mais medo. Não seria isso o que gera o famigerado tédio existencial? Não será, talvez, isso o que nos faz velhos? Essa falta de uma luzinha piscando lá na frente, para correr atrás? O Proust também fala disso, numa passagem do Tempo Perdido em que ele relembra o “tempo em que fora um sonhador”: “O que agora com tédio possuía, conversando com uns e outros, nada mais seria senão a realização dos sonhos que na infância julgara mais belos e inacessíveis. Consolava-me confundir, como uma negociante cujo os assentamentos são malfeitos, o valor da posse com o preço ao qual os cotar o meu desejo”. E em outra passagem – ainda como o Tiago olhando para sua foto – , relembra ele mesmo como “eu mesmo outro, imerso em sonhos de outra cor”.

Não acho que o Tiago Iorc estivesse muito doido, como disse o meu filho, quando escreveu sua despedida. Acho que talvez ele tenha só descoberto e conseguido transcrever o que tantos outros antes dele já descobriram e transcreveram, também: o que alimenta, verdadeiramente, tanto as fontes da juventude como a da velhice. A da juventude, os sonhos e a confiança que nós colocamos neles, a despeito das certezas incertas, e os medos a eles associados. A da velhice, o imenso vazio causado pela falta que nos fazem justamente estes sonhos, estas certezas incertas e estes medos.

Tiago Iorc pode bancar e curtir seu período sabático tranquilamente, eu acho. Pode até de lá descambar para outros sonhos, também, quem sabe… E eu sei também que o mundo, que vive sem o Rimbaud e sem o Proust há muito tempo, vai conseguir sobreviver bem sem ele, também, com toda certeza. Mas, já que o que puxou o assunto de hoje foi ele, quero dizer que eu, no seu lugar (ou no de qualquer um), retomaria a ‘juventude perdida’ e voltaria disso com tudo. Pegaria o bonde do Leminski, do Pet Shop Boys, do Renato Russo, do Jethro Tull, do Lô Borges, do Toquinho e de tantos outros que falaram disso, de um jeito ou de outro, e começaria logo transformando esse texto numa música legal. Com o entusiasmo e a certeza de quem tem coisas novas pra dizer, como disse um dia o meu mestre Belchior. Ainda que da idade do mundo estas coisas sejam.

2 comentários em “Por onde andará Tiago Iorc? E a juventude, então?

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  1. Um texto muito legal, e que traz junto a si toda esta comparação eterna entre os eternos eus que temos durante toda a nossa vida. Comparamos eternamente, e não há como fugir disso. Mas isso tem seu lado bom também! Isso nos faz querer competir conosco, com nossos antigos eus, e creio que isso é bom: isso traz o gosto de sangue à boca.
    Quanto ao Tiago Lorc, é apenas uma jogada midiática, não tenho dúvida nenhuma disso. Ele não tem cacife para esconder ases debaixo da mesa…

    Curtido por 1 pessoa

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