Dos escapes de cada um: o Caderninho Azul, uma lenda pessoal

Sábado, 23 de setembro de 2018 (uma semana para recuperar o fôlego. Vida que segue.)

Muito tempo atrás, quando éramos adolescentes, minha irmã mais velha me falou de uma suposta tortura chinesa que consistia em se imobilizar a vítima e deixar que um pingo d’água caísse lenta e ininterruptamente em um mesmo ponto na testa dela durante horas. Eu não consegui entender como isso poderia ser uma tortura, então ela explicou que em princípio isso parece ser nada, mas, com o tempo a pessoa começa a ter a impressão de dor, de que aquilo vai furar sua testa, chega ao desespero e acaba por enlouquecer. Não existia internet para pesquisar a veracidade e os detalhes disso na época e agora eu não tenho mais vontade de saber. Iria, talvez, descaracterizar um fato fantástico que me impressionou durante muito tempo. E hoje eu já consigo entender o tanto da nossa insanidade que está atrelada ao nosso medo de sentir dor, e ao desejo de causá-la, também, às vezes. Esta é uma história 100% Caderninho Azul e é dele que eu vou falar hoje, cumprindo uma antiga promessa que fiz aqui.

Durante minha vida inteira eu guardei lembranças de coisas que me marcaram de alguma forma. Tenho comigo, ainda em uso, uma caixinha de costura que ganhei aos 8 anos de idade, depois de muito choramingar por ela. Guardo também, dessa época, um livrinho do Pai Nosso ilustrado com os personagens do Maurício de Sousa, da Edições Paulinas. Pedi à minha avó, quando ela se mudou da fazenda, o cobertor que eu usava quando passava as férias por lá, e à minha mãe, quando saí de casa, meu lençolzinho preferido, que usei desde a infância até a adolescência (e que acabou virando o preferido da minha filha, também). Mesmo possuindo um moderno e performático moedor de pimentas a pilha, só uso, para esta finalidade, um pesado pilãozinho de bronze que foi da minha bisavó, o mesmo que usavam na fazenda antigamente. E assim, pela vida fui me cercando destas e de outras pequenas tralhas que me trazem sempre alguma lembrança boa. São referências que fazem com que eu sinta que tenho uma história, dão uma espécie de legitimidade e de autenticidade à minha pessoa, por assim dizer. Constituem, ao mesmo tempo, tanto a prova de que eu vivi aquilo como a certeza de que de tudo o que vivi, foram esses os elementos que ajudaram a definir minha marca pessoal no mundo.

O Caderninho Azul são as tralhas literárias da minha vida. São as passagens marcantes, para mim, de livros, textos, músicas, etc, que me chamam atenção por algum motivo e que eu marco e guardo para levar pela vida. Não sei bem dizer quando foi que comecei a fazer isso conscientemente, mas, desde a adolescência que minhas gavetas eram cheias de pedaços de papel com algumas dessas referências escritas ou recortadas de algum lugar. Boa parte delas eu acabei perdendo pelo caminho, até que uns vinte anos atrás, mais ou menos, comprei um caderno (azul) para organizar melhor esses fragmentos e não perder mais nenhum. Nesse caderno eu anotava, então, o trecho, a página, o livro e às vezes a data em que eu lia, e ficava tudo muito bonitinho e organizado, só que com o tempo aquilo foi ficando inviável; quando era um trecho grande eu tinha que interromper a leitura, perdia muito tempo, aí foi dando preguiça. Eu passei, então, a simplesmente sublinhar a lápis (não leio mais sem um ao meu lado) estes trechos e anotar, na última página do livro, os números das páginas onde eles se encontram. Como hoje uma boa parte da minha leitura é digital, sob os auspícios do ctrl-C/ ctrl-V, ou do copiar/colar, já tenho um arquivo no PC e até no smartphone, para facilitar, e o Caderninho Azul acabou ficando obsoleto e virando ítem de museu na minha biblioteca. O nome ficou como marca Reg®., no entanto, e expandiu-se até para as referências que a minha memória guarda sem escrever. E a finalidade de tudo isso? Na prática, no campo real, mesmo, nada de imprescindível, talvez, mas sempre válido: Uma referência solicitada pela minha filha para uma homenagem em seu convite de formatura, uma música retirada dele para um trabalho escolar do meu filho, as pequenas homenagens que eu mesma gosto de fazer para minha pequena família, as brincadeiras e conversas boas com meu marido e com meus bons amigos… E daí isso descamba para a parte da lenda pessoal, em si; a que ajuda a tornar menos tediosa e mais interessante a pesada rotina do cotidiano. A seguir.

Jorge Luis Borges (e aqui vamos nós de novo. E sempre!) disse, em algum contexto que eu não sei qual foi porque só vi a frase solta, num comentário literário, que a história da humanidade é a história de um homem só. Eu não gosto muito dele; ele é amargo de um jeito que me agride um pouco, mas aqui sua amarga verdade tem razão de ser, eu acho. Na crônica Os Quatro Ciclos (esta eu li, de fato) ele fala também que são somente quatro as histórias contadas no mundo: a da ardilosa luta do homem com e por suas paixões, a do inexorável regresso ao lar, a de uma busca simbólica e a do sacrifício de um deus. “Quatro são as histórias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narrá-las, transformadas”. Na crônica ele dá alguns exemplos de como estas histórias já foram contadas de maneiras diferentes, em diferentes culturas e através dos tempos, e deixa pouco espaço para alguém refutar, com consistência, o argumento.

Meu chefe tem andado mais livre para amenidades ultimamente. Na semana passada ele me enviou, pelo zap, um vídeo legal justamente sobre a sensação de liberdade. Mandei de volta para ele a minha última crônica daqui, a do Riacho do Escorrega, porque achei pertinente. Depois de classificar o texto como “bonito, leve, suave, mágico” ele terminou com o seguinte comentário: “(…) Um texto é universal quando alguém lê e diz: “sou eu”. Se isto não for um pouquinho de Jorge Luis Borges aplicado à prática, não saberia dizer o que é. Agradecendo pelo comentário, respondi que mesmo para alguém que escreve despretensiosamente, como eu, não existe prêmio maior do que ver que quem leu conseguiu captar o espírito, a essência do que se quis transmitir. Mas este talvez seja só um parêntese.

E é com esta conexão que eu queria explicar a parte mais importante do que tem sido o Caderninho Azul para mim: Esses exercícios muitas vezes involuntários de associação entre imagens, situações, músicas, textos e poemas, entre um livro e outro através de uma única frase às vezes… Esses inúmeros fragmentos das histórias de nós mesmos, da nossa difícil humanidade, que vêm se repetindo pelos séculos e que eu vou reunindo até no vento para formar essa espécie de ‘biografia’ do meu universo particular. É minha maneira peculiar de encarar e tolerar este nosso mundo difícil. Além disso, penso também que se chegar a uma velhice relativamente saudável de corpo e de mente um dia, vai ser legal poder abrir um livro qualquer da minha biblioteca e ver o que me chamou atenção nele, tentar contextualizar isso na minha própria vida, pensar no que me pegava pelas pernas ali, naquele momento do passado. Será a minha própria história que estarei revendo através disso. Se isso não funcionar como um alento, quem sabe não funcione pelo menos como uma distração nesse tempo do inverno?

Transformar essas referências nas Histórias da Gata Preta tem sido uma maneira boa de tentar comunicar o que eu penso e o que eu sinto, além de uma terapia maravilhosa para os momentos difíceis, como quando o coração começa a bater 15000 vezes fora do compasso em 24 horas, por exemplo. São pequenas histórias que comunicam nem sempre leveza, nem sempre virtude e nem sempre beleza, mas que eu tento fazer com que passem sempre aquele tracinho de verdade. Uma verdade que hoje eu já entendo e assumo que é pessoal e não precisa mais ser provada a ninguém. E sem intenção de maldade, também. Retórica para isso, se há, é só uma do bem. Bem intencionada e espontânea, que sai da bainha da alma e sem outra pretensão que não seja a de bem dizer o que se quer. Que ninguém nunca precise pedir perdão por isto! E nem pelas metáforas, metonímias etc, também. Através delas muito ainda haverei de falar! Embora muitas vezes mal interpretadas, elas dizem muito melhor e mais belamente o que muitas vezes nós tentamos e não conseguimos – ou nem poderíamos – dizer de outra forma. Umberto Eco explicou tão bem essa parte… Até o seu impulsivo e destemperado Baudolino entendia isso… E eu… Bom, eu aprendi a lição, eu acho. E este é só mais outro parêntese, para complementar o primeiro.

E esta é, então, a singela e simplória história do meu Caderninho Azul, do qual muitas vezes eu me valho para compor estas mui modestas – e para mim, prazerosas – páginas da Gata Preta, e vou assim me desviando daqueles pingos lentos na testa, da minha própria loucura e das pequenas maldades humanas do dia a dia.

Um post scriptum: Eu não conhecia Jorge Luis Borges quando comecei o meu Caderninho Azul, mas já sabia, nesse tempo, de Helena de Tróia, de Ulisses, do Graal, de Jesus, de Odin e de algumas poucas coisinhas mais. O mais que isso a vida seguiu recontando. Para quem tiver curiosidade e oxigênio extra para o ar rarefeito, Os Quatro Ciclos, na íntegra:

Quatro são as histórias. Uma, a mais antiga, é a de uma forte cidade cercada e defendida por homens valentes. Os defensores sabem que a cidade será entregue ao ferro e ao fogo e que sua batalha é inútil; o mais famoso dos agressores, Aquiles, sabe que seu destino é morrer antes da vitória. Os séculos foram acrescentando elementos de magia. Já se disse que Helena de Tróia, pela qual os exércitos morreram, era uma bela nuvem, uma sombra; já se disse que o grande cavalo oco no qual se ocultaram os gregos era também uma aparência.
Homero não deve ter sido o primeiro poeta a referir a fábula; alguém, no século catorze, deixou esta linha que anda em minha memória: “The borgh brittened and brent to brontes and askes”. Dante Gabriel Rossetti iria imaginar que a sorte de Tróia foi selada naquele instante em que Páris arde de amor por Helena; Yeats elegerá o instante em que se confundem Leda e o cisne que era um deus.

Outra, que se vincula à primeira, é a de um regresso. O de Ulisses, que, ao fim de dez anos errando por mares perigosos e demorando-se em ilhas de encantamento, volta a sua Ítaca; o das divindades do Norte que, uma vez destruída a terra, vêem-na surgir do mar, verde e lúcida, e encontram perdidas no gramado as peças de xadrez com que antes jogaram.

A terceira história é a de uma busca. Podemos ver nela uma variante da forma anterior. Jasão e o Velocino; os trinta pássaros do persa, que cruzam montanhas e mares e vêem o rosto de seu Deus, o Simurgh, que é cada um deles e todos. No passado, todo cometimento era venturoso. Alguém roubava, no fim, as proibidas maçãs de ouro; alguém, no fim, merecia a conquista do Graal. Agora, a busca está condenada ao fracasso. O capitão Ahab dá com a baleia e a baleia o desfaz; os heróis de James ou de Kafka só podem esperar a derrota. Somos tão pobres de coragem e de fé que agora o happy-ending não passa de um mimo industrial. Não podemos acreditar no céu, mas sim no inferno.

A última história é a do sacrifício de um deus. Átis, na Frígia, se mutila e se mata; Odin, sacrificado a Odin, Ele mesmo a Si Mesmo, pende da árvore nove noites a fio, ferido com uma lança; Cristo é crucificado pelos romanos.
Quatro são as histórias. Durante o tempo que nos resta, continuaremos a narrá-las, transformadas.

– Jorge Luis Borges, Os Quatro Ciclos, em O Ouro dos Tigres.

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