Eu quero outra vez ter 15 anos – uma pausa para confissões de adolescente

Terça-feira, 27 de novembro de 2018 (se a vida começasse agora, tomara que não fosse numa terça-feira)

Prancheta 1 cópia 5

Outubro passou mais uma vez, levando com ele seus ventos uivantes e densos nevoeiros. De lembrança deixou só a velha insônia, mas esta é um monstro há muito conhecido e já quase que domesticado. É dela, inclusive, que saem muitas vezes as crônicas que quebram a barreira da postagem. As do último mês ficaram quase todas entocadas, esperando por dias mais claros, talvez. E novembro chegou, de qualquer forma, e já está indo embora, mas aí faltou o tempo. Vamos ver o que sai daqui pra frente.

As últimas duas semanas foram corridas e cheias de acontecimentos notáveis e daqueles que às vezes criam encadeamentos sem fim. Começou no café da manhã do domingo retrasado, na casa da minha irmã, quando minha sobrinha adolescente falou que eu era a única pessoa que ela conhecia que conseguia usar um ALL STAR sem que parecesse “querer ser jovem com isso”. A gente tinha acabado de falar sobre o filme do Freddie Mercury e sobre o Rock in Rio 85 – o primeiro e sensacional. Ainda naquele domingo, li uma entrevista do Robert Redford anunciando a sua provável aposentadoria como ator. E na terça-feira morreu o Stan Lee. Mais pro meio da semana vi uma reportagem da página cultural do Estadão, comparando, mais uma vez, o Admirável Mundo Novo, do Aldous Huxley, com o 1984, do George Orwell, e questionando, também como é usual, qual dos dois seria mais condizente com a realidade hoje. Li ainda uma matéria sobre um sistema de ‘pontuação social’, com premiações e castigos, que a China vai implantar para seus cidadãos até 2020. E Cuba anunciou o encerramento de sua participação no programa Mais Médicos brasileiro. Ah, e teve um show do Zé Ramalho, aqui, no fim de semana. E o denominador comum disso tudo? Tudo isso me fez lembrar de quando eu tinha 15 anos e sonhava muito, acreditava em tudo e achava que sabia demais.
Decompondo item por item, vou tentar resumir a seguir.

Quando eu tinha 15 anos, assisti ao Rock in Rio pela TV. Freddie Mercury já era um ídolo mas todas as vezes que eu penso nele, ainda é daquele show que eu me lembro primeiro, e com aquela mesma emoção. Minha sobrinha falou que cantou todas as músicas, no filme, e eu disse a ela que também tinha cantado. Na hora de Radio Ga Ga eu até chorei um pouquinho. Ela nem é uma das músicas do Queen que eu mais gosto, mas foi uma das que mais marcou aquele show deles, e das que mais tocou naquele verão de rock. E que verão, aquele! Os meses de propaganda do festival tinham feito uma verdadeira lavagem cerebral na gente e todo mundo, até quem não gostava de rock (e naquela época estes eram raridades entre adolescentes) sabia o hino oficial Se a Vida Começasse Agora. A gente virava a noite assistindo aos shows e no outro dia ninguém falava de outra coisa. Em casa, na praça, no clube, onde a gente se encontrasse. Tem lembrança melhor (ou das melhores) da vida do que essa? Falar de rock com amigos antes que a vida ficasse pra valer? “And everything I had to know I heard it on my radio”. E eu vou ser fã do rádio para sempre.

Foi também em torno dos 15 anos que eu calcei o meu primeiro ALL STAR. Era a última moda entre adolescentes na época, principalmente o modelo original americano, que eu não me lembro se era o Converse ou o America, e só era vendido no exterior (nunca tive um). Foi o tênis que rompeu um padrão e libertou a gente do uso das meias, e dava para ir a quase todo lugar com ele. E isso muito antes de seu uso ser popularizado até para as noivas, nesses casamentos descolados que a gente vê por aí. Desse tempo para cá nunca fiquei sem ter pelo menos um par no armário. Sabe-se lá por que, né? Não é um tênis de beleza notável, não serve para praticar esporte, não é lá muito confortável… Mas eu adoro. Acho que o conforto que ele me passa talvez seja de outro tipo, talvez o espírito daquela época boa, sei lá…. Disse para minha sobrinha que talvez, de tanto tempo que eu uso, meu corpo possa ter assimilado a idéia, daí a falta de estranheza, mesmo eu sendo uma ‘velha’ num calçado de jovem. E ele entrou para a cultura geral lá de casa, também. Meus filhos usam, é o calçado oficial de trabalho do meu marido e o meu de sexta e sábado, quando a vida começa a ficar leve. Topar com as colegas de salto alto, no elevador, nunca se constituiu exatamente num problema ou constrangimento para mim.

Também com 15 anos eu era apaixonada pelo Robert Redford. Eu já tinha insônia nesse tempo e varei madrugadas inteiras assistindo aos clássicos do cinema na Sessão Coruja, da Globo. Acho que vi tudo dele que passou ali e fui dormir muitas vezes com a lembrança do seu sorriso. É uma daquelas paixões que sempre será. Meu marido sabe disso desde quando namorávamos e não perde nunca uma oportunidade de me mostrar como o tempo tem sido cruel com ele. Não me importo nem um pouco. Aquele sorriso dele para mim é mágico e atemporal, mesmo naquele rosto enrugado. Ele está velho, com o andar vacilante e meio surdo, mas ainda veste sua costumeira indumentária preta dos pés à cabeça e ainda tem total lucidez e clareza de idéias. E o sorriso. Na entrevista o repórter pergunta o que ele acha que mudou em Hollywood, em termos de qualidade, nos últimos anos. Ele diz que a qualidade foi sempre a sua paixão, o que o fez feliz, principalmente nas histórias que ele mesmo quis contar como diretor. Diz que bolou, para mantê-la, um esquema de três passos: o primeiro, a história, o segundo, o personagem, e o terceiro, a emoção, e acha que o que mudou foi que o público atual, principalmente os mais jovens, estão preferindo a ação e os efeitos especiais em detrimento da história. Fala que para ele, o primordial foi sempre a história, e conclui com isto: “Afinal, existe frase mais evocadora do que “Era uma vez…”, com a qual todas as histórias começam?”

Aí, como que para contrariar o Robert Redford, morreu o Stan Lee. Qualquer um que estiver lendo esta crônica vai ter alguma referência dele para se lembrar, mesmo que não seja fã. Eu sempre achei que ele era o único personagem que nunca iria morrer no final e me senti um pouco de luto com a sua morte. Talvez por aquela percepção de fim de mais uma era, mesmo. Ele e alguns dos seus complexos personagens também são daqueles que sempre foram, para mim, desde as hoje pré-históricas revistas em quadrinhos que eu lia na adolescência, passando pelos desenhos animados, até sua mais atual, fantástica, estrondosa e milionária ascensão para as superproduções no cinema. Assim como George Lucas e Walt Disney, ele foi uma dessas peças-chaves de universos sem os quais uma parte grande e boa daquela fase da minha vida teria sido menos interessante. O Universo Marvel, ao contrário do da Disney clássica, a dos desenhos e contos de fadas, embora também fantasioso, é um universo muito mais cru, e seus personagens muitas vezes são personalidades complexas, profundas, angustiadas e… humanas. Alguns são bobos, vazios e inconsistentes, também, mas todos eles têm uma história meio real. E esta história – com efeitos especiais espetaculares e tudo – foi transposta para as telonas de maneira incrível. Pelo menos foi assim com os que valem a pena. Também a exemplo de Walt Disney, muito já se falou – e vão falar ainda mais agora –, do oportunismo dele, das questões de direitos autorais, etc. A mim também isto não importa muito. Heróis, mitos e lendas, cada um cultiva os seus e da maneira que acha que deve, eu penso. Stan Lee é outro desses mitos e os filmes de super-heróis não existiriam sem ele. O cinema acabou por consolidar a lenda, tanto com as velhas como com as novas gerações. A idéia de suas participações especiais foi o golpe publicitário definitivo. Todo mundo já entrava no cinema querendo saber onde ele iria aparecer daquela vez, mesmo o público mais jovem, o que nunca abriu um gibi do Homem-Aranha ou do Thor, meus preferidos no tempo das revistas. Deixei de ver alguns dos filmes, os dos personagens dos quais não gostava, e perdi a cena do Stan Lee em uns dois deles, também. Num dos últimos que eu vi ele está lendo Admirável Mundo Novo num ônibus, durante uma cena de ação intensa, e grita “It’s amazing!”, enquanto o livro sai voando pelo mundo. Eu quis dizer que concordava com ele.

Li Admirável Mundo Novo nessa época dos 15/16 anos, também. Muito antes que eu lesse William Shakespeare, de quem veio a inspiração para o título. Permanece como um dos ‘livros da minha vida’. Fico impressionada até hoje com a genialidade de se imaginar uma sociedade fantástica como aquela, com pessoas planejadas, produzidas em série, condicionadas em atos e pensamentos e mantidas felizes por efeito de uma droga, num universo funcionalmente perfeito. Toda aquela filosofia, o questionamento sobre Deus, os conceitos de conforto, verdade, liberdade, felicidade… Um dia eu ainda vou escrever só sobre ele, é uma promessa! O 1984 eu só li mais tarde, feliz ou infelizmente. Talvez felizmente, mesmo, porque acho que a gente precisa passar primeiro pelas utopias para poder enxergar melhor e entender bem as distopias. Teria sido um livro assustador na época; é um livro deprimente em qualquer tempo. Outro universo fantástico, porém muito mais distópico devido à guerra, mais cruelmente controlado e sem nada que possa levar à felicidade, mesmo uma condicionada. Colocou pela primeira vez, preto no branco, a expressão ‘crime de pensamento’. Ah, é, e inventou a novilíngua. Não tenho vontade de escrever sobre ele e só fui entender o pensamento político de George Orwell mais tarde, também, de qualquer forma, mas queria ter lido a Revolução dos Bichos na adolescência. Talvez – só talvez – eu tivesse economizado muito em leituras chatas, energia gasta com discussões idiotas mais tarde, e decepções com ideias e ideais.

E foi no meio das minhas próprias revoluções da adolescência – e talvez por causa delas – que eu comecei a conhecer mais a fundo as revoluções comunistas do século XX. Da coleçãozinha de bolso O Que é Socialismo?, O que é Comunismo?, O que é Democracia? etc, fui evoluindo, vamos dizer assim, para as leituras mais profundas e pesadas. E chatas! Mas eu não enchia muito o saco de ninguém nessa época, só levava broncas ‘repressoras’ do meu pai. Se você não conhece bem a História, os fatos do passado podem ser totalmente fascinantes ( e isto é o mais puro Aldous Huxley) e eu era meio fascinada pelo ideal de um mundo melhor e mais justo pelo qual supostamente se lutou por aqui, nos nossos tristes trópicos (também ainda não acreditava totalmente no Belchior nesse tempo). Cuba era o que tinha sobrado disso. Ou assim eu pensava na época, no meu raso entendimento de uma História mal contada. Se fosse dissertar sobre essa minha percepção, teria que escrever um livro que ninguém iria querer ler, mas postei na semana passada, no Facebook, em meio à notícia da ‘retirada’ cubana do Brasil, uma poesia do Herberto Padilla que guardo desde muito tempo atrás. O caso Padilla foi uma pedra bem incômoda na bota de Fidel Castro. Ninguém entende mais de sonhos do que alguém que foi traído por eles e que conheceu de perto o triste pesadelo em que eles podem se transformar ou a realidade que acobertam às vezes. O livro Fora do Jogo, do Padilla, em especial o poema Em Tempos Difíceis, foi um relato poético perfeito do ‘prêmio’ concedido aos que se entregaram àquele sonho específico, e que depois tiveram que desconstruí-lo. Mas o Facebook não é lugar para poesia e nem para ironia. Outra ilha da ilusão. E o Zé Ramalho escreveu Admirável Gado Novo, também. Que ele me desculpe a descontextualização, mas não pude deixar de me lembrar dessa música quando vejo agora aquela grande Oceania orwelliana que é a China, implantando um ‘ranqueamento social’ e distribuindo prêmios e ‘castigos’ para a sua imensa população, baseada em critérios meio mal explicados, que vão de bom comportamento social até dados de consumo comercial. Povo marcado, povo feliz. Mas não fui ao show do Zé Ramalho desta vez.

E anteontem, quando eu estava terminando de organizar as ideias desta crônica, uma amiga que mora na Inglaterra entrou no ZAP para falar do filme do Freddie Mercury. Falei que tinha ido no primeiro dia, de tão ansiosa que estava para ver; parecia até que era a minha cinebiografia. Depois disse a ela que na verdade, talvez fosse um pouco isso mesmo, né? Tem um pouco da nossa história aos 15 anos, naquela lá. Ela, que teve a sorte de assistir ao show ao vivo no Rock in Rio e entende muito, tanto de rock como de nós, concordou. Com 15 anos eu ouvia rock no rádio (e na TV, Roger Taylor que me perdoe), vivia entre lendas e super-heróis, sonhava com galã de Hollywood enquanto lia sobre utopias e cultivava fabulosas idéias de um mundo mais justo. Tudo isso calçando um tênis modinha e sonhando com o modelo americano dele, que coisa!

Vi num meme, outro dia, que a gente sabe que cresceu quando vê que deixou de gostar de filmes de super-heróis. Acho que não cresci total e definitivamente ainda, se for assim. E ainda calço meu ALL STAR como se 15 anos tivesse. O que mudou foi a percepção das coisas: agora eu sei muito menos do que sabia naquela idade. Com o tempo – e já vai longe e alto esse tempo – à exceção das estrelas, eu deixei de acreditar completamente em tudo que brilha de longe, e passei a simplesmente manter a mente aberta e tentar ver melhor os fatos, tentar distinguir o que dá certo do que não dá. E que não é o conceito, nem a ideologia, nem mesmo os sonhos que fazem a diferença. Numa mistura de ficção com realidade e de teorias com práticas, direita, esquerda, democracia, tirania, grande urso, grande irmão, Soma, Prozac, Cuba, China, América, Vietnã… nada disso importa muito, na verdade. O que a História mostra hoje para mim é tão constante no universo quanto pode ser a sequência de Fibonacci (embora haja controvérsias acerca desta): entre histórias e ações, com efeitos especiais e tudo, o que vale sempre, no final, é o personagem. Entre sonhos, utopias, delírios e jogos de poder, o que conta, o que faz dar errado, quem bota tudo a perder sempre, é a nossa triste humanidade (e isto talvez seja um pouco de Fernando Pessoa). Mas, heróis, mitos e lendas, parece que nós estivemos sempre precisando deles em todas as eras do mundo. E aí, digo mais uma vez, cada um com os seus. E hoje eu penso que tudo o que eu queria saber aos 15 anos de idade a vida ia acabar por me ensinar melhor depois. E tudo o que eu realmente precisava saber naquele tempo era o que já tocava no meu rádio. Ou estava escrito nas histórias em quadrinhos e livros de poemas e de universos fantásticos, quiçá.

Salve, por esta e por outras, Roger Taylor, Freddie Mercury, Brian May, John Deacon, Belchior, Zé Ramalho, Padilla, Stan Lee, Aldous Huxley, George Orwell e Fernando Pessoa. E ao Robert Redford eu digo apenas que as histórias que eu sei são só as da Gata Preta…

Um comentário em “Eu quero outra vez ter 15 anos – uma pausa para confissões de adolescente

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  1. O envelhecer tem suas próprias regras, e não traz em si qualquer relação de simetria. Nosso corpo e nossa mente envelhecem, muitas vezes, em um tempo diferente. Há os jovens de mente velha, e há os velhos de mente jovem. E existem caras como nós, que usamos nosso ALL STAR, trazemos com carinho nossas paixões da juventude e ainda temos nosso rock’n roll! Era uma vez nós, que ainda existimos e curtimos muito isso tudo!
    Parabéns pela crônica…

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