E eis que um homem conquistou a Lua

Domingo, 21 de julho de 2019 (há cinquenta anos e um dia o homem pisava no solo da Lua pela primeira vez)

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Esta semana que passou foi de lua cheia e antes de dormir eu sempre curto um pouquinho dela no meu quintal. É julho, mês de clima friozinho à noite e um vento geral que sopra na cidade toda durante o dia e às vezes0 alcança a noite. Tudo isso me dá uma saudade danada da fazenda da minha infância. E do meu avô, também.

O meu mestre Saramago, em uma de suas mais belas crônicas, descreve um luar que viu na sua infância, e fala que a partir daquele, pouco o comoveram os luares, porque tinha aquele primeiro guardado, que nenhum outro superara. Todo mundo deveria ter um e eu também tenho o meu. Quando eu tinha uns oito anos de idade meu avô me levou, depois de muita manha e insistência minhas, em uma viagem para uma de suas propriedades, com dois dos meus tios e um dos meus irmãos. Nós dois, eu e ele, não ficamos na casa sede dessa fazenda, como os outros três. Fomos a cavalo para a casa de um amigo que cresceu junto com ele, a quem ele considerava um irmão, como eu o ouvi dizer várias vezes. Aquelas eram as terras onde ele tinha nascido e crescido e ele foi me mostrando, pelo caminho, os lugares mais significativos, inclusive os últimos vestígios da casa onde ele nasceu. Não tenho mais a noção da distância que percorremos, só me lembro que não era muito perto, mas nunca me esqueci da emoção com que meu avô ia contando aquelas lembranças. Ele estava perceptivelmente feliz, ali. A casinha do amigo dele ficava em um recanto de mato bonito, perto de um olho d’água todo lajeado, com uma árvore grande na margem. A terra foi doada a ele pelo meu avô, em cartório, em sinal de gratidão e amizade. Era uma casinha pobre, com dois quartos e uma sala/cozinha, sem água encanada ou luz elétrica. Lá só moravam o casal de velhos e uma filha que eles adotaram, e não havia quartos para todo mundo, então eu e meu avô dormimos em redes, na sala da casa. Era uma sala aberta, com apenas uma meia parede com uma portinhola na frente. Para quem não entende isso, há quarenta anos uma casa pobre do sertão nordestino não precisava de trancas porque não havia muito o que se roubar nela. E foi nessa sala pobre do sertão que eu vi a lua que nunca mais vou esquecer na vida. Eu tinha medo de assombração e tinha o costume de ficar com os olhos fechados, se acordasse à noite, mas, nessa noite, talvez estranhando a dormida, acordei e os abri instintivamente. A fachada da casa era aberta, como eu falei antes; na frente tinha uma mata baixa e foi por cima dessa mata que eu avistei aquela luminosidade diferente, que vinha de uma lua para mim inacreditável. Naquela noite eu me esqueci do medo, desci da rede e fui até a portinhola da casa para ver melhor lá fora. Até ali eu nunca tinha visto um luar puro, sem nenhuma iluminação artificial que atrapalhasse a claridade da lua e não sei quanto tempo fiquei ali parada, completamente maravilhada, olhando para aquele pedaço ermo de sertão todo iluminado por aquela luz prateada. Ainda me lembro do silêncio cheio dos sons de mato à noite, que nunca combinou tanto com uma paisagem como naquela noite. Lembro que voltei para a rede e fiquei olhando para aquela paisagem até pegar no sono novamente. Sei que fomos embora no dia seguinte, mas não me lembro de nada do restante da viagem. Lembro que aquele casal era de falar pouco, mas dava para sentir o que significava, para eles, ter meu avô ali, em visita. Era gente antiga, de valores antigos, gente de bem! Nunca mais voltei àquele lugar, e talvez também por isso as lembranças que eu tenho de lá estejam entre as mais preciosas da minha vida. De lá para cá, já vi a lua nascer sobre o mar, já vi lagos e dunas sob o luar, já a vi se sobressair às luzes de grandes cidades, já a vi surgir sobre a neve, numa falha de neblina, já vi a lua na Mantiqueira e nos Alpes, mas, para mim – e Catulo da Paixão Cearense foi quem o disse por aqui, primeiro –, não há luar como aquele que eu vi no sertão.

Esta semana, também as matérias relacionadas aos cinquenta anos do primeiro homem na Lua fizeram com que eu me lembrasse do meu avô. Ele não acreditava que o homem tivesse chegado lá. Era um homem simples do campo, de pouca instrução, porém de convicções firmes e temente a Deus. Para ele, ir para o espaço num foguete e descer na Lua não era coisa que o homem pudesse fazer sozinho. Em 1969 a tecnologia maior que existia lá pela fazenda era o potente Motoradio a pilha no qual ele ouvia, tentando driblar a estática, a Voz do Brasil e as notícias do mundo após o jantar, sentado em uma cadeira de macarrão na calçada da frente da casa. Ele não assistiu, portanto, às imagens divulgadas pela NASA, mas, do que sabia sobre o assunto, à sua maneira ele dizia que aquilo tudo tinha sido uma montagem. Era engraçada a maneira como ele falava disso, geralmente nas noites de lua cheia, quando alguém tocava no assunto. Aquilo virou uma espécie de piada na nossa família e bem mais tarde, quando eu já era adolescente, de vez em quando alguém ainda puxava por isso com ele, que se manteve irredutível mesmo após o acesso à televisão. “E se foram uma vez, por que então nunca mais voltaram lá? Ram!”. Alguém deve ter dito que tinham ido mais vezes, mas isso nunca mudou sua convicção. E hoje, quando ainda guardo com todo o carinho esta lembrança, penso que eu deveria ter me empenhado em convencê-lo do contrário, insistido que o homem tinha, sim, conquistado a lua e que eu podia afirmar isso com toda a certeza porque estive lá para ver com meus próprios olhos. Quem conquistou a lua, para mim, foi ele, meu avô, naquela noite em que me deu a oportunidade de vê-la em toda a sua pureza e esplendor pela primeira vez. E, ao contrário do Saramago, talvez por causa disso é que até hoje ainda me comovam – e muito – os luares. Mas sei também, no entanto, que jamais haverá outra lua igual àquela que eu vi naquela casinha pobre desse nosso sertão rico das Graças de Deus. Eu deveria ter dito isso ao meu avô, também. Ele teria entendido.

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