Esse tal de Roque Enrow…

Sábado, 31 de agosto de 2019 (antes de entrar setembro)

“Nesta noite, um milhão de canções serão cantadas. Todas sobre a mesma coisa, que eu espero seja o que todo mundo veio ouvir. Na verdade, são todas sobre vocês e eu, e todo mundo perto do palco, e todo mundo que não conseguiu chegar aqui. E sobre as pessoas que vão ler sobre vocês amanhã

– Richie Heavens, na abertura da Feira de Arte e Música de Woodstock, em 1969.

“Quem é ele? Quem é ele?

Esse tal de Roque Enrow

Uma mosca, um mistério

Uma moda que passou

Ele! Quem é ele?

Isso ninguém nunca falou!”

– Rita Lee, Esse tal de Roque Enrow.

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No Brasil o povo adora um ‘dia de qualquer coisa’. O dia 13 de julho, proposto por Phil Collins no Live Aid 1985 para ficar conhecido como o Dia Internacional do Rock, não vingou em quase nenhum lugar do mundo mas por aqui, ficou. O bom disso é que sai sempre alguma coisa legal em programações de rádio, documentários e homenagens pela internet e também eventos e shows gratuitos em muitas cidades. Neste último dia 13 de julho eu estava em São Paulo e caí na besteira de falar pro meu filho que ia ter uma apresentação gratuita do IRA na Praça da República. Resultado: lá fomos nós, eu, meu marido e ele, no meio da tarde, com o corpo todo pedindo cama, rumo à muvuca do centro da cidade, no sábado, para ver o show. IRA, para quem não conhece ou não se lembra, é uma daquelas inúmeras bandas que surfaram na grande onda do rock brasileiro nos anos 80. Eles faziam um som meio diferente, o sotaque paulista carregado também soava diferente e as letras eram legais; eu gostava deles. O show, em si – ou a parte que pegamos dele porque chegamos atrasados –, não foi nada de mais: acústica péssima, falta de força (e de voz, mesmo) no vocal, aquele entusiasmo meio forçado… mas acabou sendo um programa diferente e legal. A movimentação nos arredores da praça era grande e no caminho para lá passamos pela famosa Galeria do Rock. Nela e no calçadão em frente, roqueiros de todas as idades, camelôs vendendo camisas de bandas, bandos de adolescentes de jeans rasgados e nós abrindo caminho entre eles. Na praça houve uma troca de palco de última hora, e nós acabamos nos juntando ao público de outro show. Esse público foi a maior concentração de metaleiros raiz por metro quadrado que eu já vi. Para todo lado que olhávamos, víamos aquelas pessoas com a indumentária típica da tribo do rock: roupas pretas, jaquetas de couro, bandanas, pulseiras com spikes… isso sem falar nos cabelões até a cintura e nos braços tatuados… E o curioso: à vontade com isso como se estivessem de pijama, em casa. Eu estava usando uma camiseta vermelha e meu filho, uma amarela, e garanto que destoávamos gritantemente do restante do público. A banda, que achávamos que ia ser o IRA – e na verdade era uma tal de Golpe de Estado –, ainda não tinha começado a t ocar quando meu filho comentou que ‘aquela galera’ ali não parecia ser o público de show do IRA, devia ter sido algum erro na programação ou algo assim, e aí nós resolvemos sair de fininho. Atravessando a praça, acabamos encontrando o palco do IRA. Arrumamos um lugar lá pelo meio e assistimos ao resto do show. O som era ruim mas a vibe ali era boa. Ao nosso redor também tinha gente de todas as idades: pais cinquentões que como nós foram adolescentes na década de 80, acompanhando – ou trazendo, sei lá –, filhos crianças ou adolescentes (no nosso caso, adulto), casais jovens, pessoas mais velhas e, claro, como não podia faltar, aquele leve aroma de maconha pelo ar… Gente que estava ali por amor à banda ou ao rock, ou talvez só para fazer um programa diferente ou a vontade de alguém, talvez… No meio de tudo isso ainda tinha até a indefectível ‘blogueirinha’ poser, com seu uniforme típico de show de rock: botas de salto, camiseta de banda de rock, cabelo e maquiagem impecáveis e aquela cara de selfie que só elas sabem fazer (minha filha tinha me alertado para elas antes do show). Fiquei pensando se ela realmente conhecia alguma coisa do IRA, mas depois me lembrei de ser melhor que isso e dei a ela o benefício da dúvida. Sabe-se lá… Seja como for, eu me lembrei da Rita Lee. Quem é ele, esse tal de rock’n’roll?

Sobre isso, um pequeno resumo da minha visão pessoal: O rock surgiu como uma proposta de protesto contra a estagnação musical de uma época. Contagiou a juventude do final dos anos 50 – Chuck Berry, o experimento, Elvis Presley, o efeito comprovado – e ganhou força total nos anos 60, puxadas pelo apelo principalmente dos Beatles e de outras grandes bandas daquela ilha encantada do rock que é a Grã-Bretanha. No final dos anos 60 ainda havia a luta pela igualdade racial nos EUA, o mundo pedia pelo fim da guerra do Vietnã, a juventude gritava amor e paz, a contracultura buscava seu espaço e… aconteceu Woodstock. Meio milhão de pessoas reunidas durante três dias nos campos de uma fazenda que não tinha estrutura para um terço disso.Três dias de drogas, amor livre e rock’n’roll. E rolou! Woodstock catalisou as mudanças que estavam transformando os anos 60 e tornou-se um dos acontecimentos culturais mais importantes do século XX: Além de consolidar o rock, consolidou também o potencial comercial da contracultura e do enorme mercado consumidor cultural que aquela juventude reunida no festival espelhava. Woodstock aconteceu num momento de virada do rock, também, marcando o início do heavy metal, do hard rock e do rock progressivo, que iriam marcar a década de 70, a década do rock mais puro e perfeito, na minha opinião. O rock já tinha passado da infância boba para a adolescência rebelde e agora entrava no seu período adulto sonhador e matador. Acho que este foi o período das canções de rock mais emblemáticas de todos os tempos. E das mais poéticas, gritos de guitarras à parte, também. Na década de 80 o Brasil estava em plena abertura democrática, eu era adolescente e sonhava-se muito por aqui. E ouvia-se muito rock, também. Foi a época do nosso próprio boom de bandas do gênero, tanto que tivemos o lendário Rock in Rio 1985 – o primeiro e espetacular –, para coroar tudo isso. Raul Seixas, um dos nossos pioneiros, foi deixado de fora e morreu com esta mágoa, mas este é só um parêntese. As décadas seguintes aqui no Brasil, se por um lado não foram nulas, por outro acrescentaram pouca coisa de relevância para o nosso rock. E o mundo começou a ver o rock mudar, também. Se ainda havia espaço para o surgimento de um rock pesado como o do Guns N’ Roses, também o pop rock começou a ganhar a cena. E entrou com força! Já havia dezenas de subgêneros e o rock raiz foi se transformando e perdendo força. Já no final dos anos 90, performances milionárias de bandas de rock alternativo (e bonito) como Coldplay mostrou que o rock entrava finalmente na maturidade e assim aceitava que também precisava se adaptar ao mundo em que vivia. Sofreu, entre outras, mudanças estéticas, sonoras e ideológicas, como também aconteceu com o mundo (ou como também acontece conosco). Aqui no Brasil já não figura mais no topo das paradas musicais desde 2016. Em contrapartida, a cada vez que a gente pensa que ele está morrendo, surge uma ou outra sementinha aqui e ali. No momento a nova onda são os bares de rock que apareceram nos últimos anos e que arrastam para eles um público fiel ou de neófitos (e também de blogueirinhas poser). Seja para assistir a DVDs com o teatro macabro do Kiss ou para ver Robert Plant fofo, misturando rock com ritmos e instrumentos musicais africanos, o fato é que eles estão se multiplicando por aqui.

No ano passado, voltando de uma excursão intensa de um dia inteiro ao monte Etna, na Sicília, no caminho de volta o nosso guia, que também era o motorista da van, já tendo falado tudo o que precisava e um pouco mais, colocou sua playlist para tocar. Era uma seleção de rock de todos os tempos, de primeira qualidade, e nós éramos um grupo formado por quatro brasileiros, dois alemães, dois americanos e dois ingleses. Todo mundo ali, ao que pareceu, estava em casa com a música. Num certo momento, nos primeiros acordes de um Led Zeppelin, um amigo que viajava conosco, roqueiro de primeira linha, comentou algo sobre também curtir a banda. O guia respondeu que Led Zeppelin não era música, Led Zeppelin era religião. Meu amigo perguntou para nós, lá atrás, se tínhamos escutado aquilo. Do meu lugar no banco de trás da van, olhando pela janela aquela bonita paisagem ao crepúsculo – fim de um dia legal – eu, que não gosto da banda, me lembrei de Stairway to Heaven e pensei que o guia talvez pudesse ter alguma razão. E pensei também, mais uma vez, que na vida a gente pode ter, sim, alguns momentos perfeitos para se lembrar.

E hoje, nessa crônica muito atrasada para o nosso “dia do rock”, concluo lembrando de uma entrevista recente do Roger Taylor, do Queen, para um tabloide britânico: “A vida é uma viagem… e está chegando ao fim para mim. Mas todos vão embora em determinado momento” . Eric Clapton vai aos poucos se despedindo dos palcos. Elton John anunciou o início de sua turnê de despedida no início de 2019. Paul Simon já encerrou a dele. Peter Frampton fez a sua este ano, também. A clássica foto da capa de Abbey Road, dos Beatles, completou 50 anos. A Feira de Arte e Música de Woodstock, mais conhecida como Festival de Woodstock, também fez 50 anos na semana retrasada. Ainda assim, um dos ajudantes do jardineiro que cuida do meu jardim trabalha ouvindo Guns’N’Roses e Animals, entre outros. Um motorista de Uber só toca, no seu carro, sua playlist de rock, ‘para poder aguentar o trampo’. Raul Seixas ainda está entre os três roqueiros brasileiros mais ouvidos em 2019, por aqui, apesar de nenhum rock figurar mais nas nossas paradas de sucesso. E eu… bom… eu também vou entrar nos 50 daqui a alguns dias e fui assistir a um show do IRA em São Paulo…

É, o rock envelheceu. Mas, aproveitando para responder à pergunta da Rita Lee, acho que ele não vai embora, não. Ele ainda é sobre nós, do jeitinho que o Richie Heavens falou, 50 anos atrás. A música é universal, a história do mundo provou isso, mas o rock – e isso quem provou foi David Bowie –, o rock é interplanetário.

Long live rock’n’roll!

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