Na primavera ou em qualquer das estações – uma crônica para se lembrar da mochila nas costas

Domingo, 22 de setembro de 2019

(pela lembrança boa de uma valsa)

Há exatos vinte e quatro anos eu dancei uma valsa. Era a valsa da minha formatura, a coroação, o momento final de uma verdadeira batalha de mais de seis anos. Quando penso naquela noite, é principalmente da valsa que eu me lembro. Ao final dela teve um brinde para os formandos, ao som de Amigos para Sempre, e aquele foi o ponto máximo da noite. Um daqueles momentos que a gente lembra como mágicos na vida. Lembro que no meio desse brinde, a mãe de um grande amigo naquela época circulou entre nós e me disse para curtir muito aquele momento, porque ele seria único na vida. Hoje me deu vontade de falar sobre isso.

Eu hoje não frequento mais muitos grupos de ZAP. Gosto muito de brincar mas agora me mantenho restrita aos grupos de trabalho e de estudos relacionados ao trabalho, e aos da família e também daqueles de amigos bem próximos e de confiança. A vida é mais simples assim e o bom dos grupos de família e de amigos de verdade é que a gente pode falar sobre o que quiser e sem medo. Nesses últimos dias um amigo de um desses grupos mandou um artigo escrito pelo Zeca Camargo, contando que resolveu fazer uma viagem de mochila nas costas novamente, para lembrar o tempo de juventude e de liseira. Ele conhece praticamente o mundo todo e diz, citando alguns dos hotéis exclusivíssimos onde já se hospedou, que resolveu fazer essa viagem agora sem malas, apenas com umas poucas roupas na mochila, provavelmente (ele não diz mas dá a entender), ficando em locais mais baratos. No roteiro estão alguns dos lugares que ele visitou quando jovem e marcou para voltar um dia, alguns que nunca se cansa de visitar e alguns onde sempre teve vontade de ir mas nunca foi. Eu disse que entendia isso e meu marido comentou que era legal, mas, quando terminasse essa viagem, ele voltaria a se hospedar nos locais de sempre e a curtir a mesma vida luxuosa que tinha. Isso é verdade, também, mas eu me lembrei, como não podia deixar de ser, do final de Paris é Uma Festa, do Hemingway (um relato dele mesmo, contando o tempo da Geração Perdida, quando tentava ganhar a vida como escritor, em Paris), quando ele diz ter saudade do tempo em que eles eram muito jovens, muito pobres e muito felizes. E é este o sentimento que eu consigo entender bem.

Nunca fui muito pobre. Não me faltou nada do básico durante minha vida com meus pais, mas também não tínhamos nada sobrando. Fui criada num regime de dividir tudo com meus irmãos e com minhas irmãs, até as roupas. Estudei em colégios particulares ( com sacrifício, como eles diziam, de meus meus pais, porque nós somos sete filhos), mas sempre com vistas a uma universidade pública. Demorei muito tempo para entender que uma universidade pública também não saía de graça para meus pais porque eles mesmos já tinham pago muito caro por elas, mas esta é uma outra história. Nunca tive dúvidas sobre a profissão que queria seguir, perdi dois vestibulares, porém sempre com a intenção de tentar até conseguir. Por uma gravidez complicada precisei trancar praticamente um ano de curso. Casada e com uma filha pequena, meu marido morando longe por um tempo e com um curso difícil para levar, posso dizer que não foi moleza, não. Virar a noite era coisa corriqueira nessa época. E sem insônia. A formatura era a motivação de todos os dias. Chegar lá, conseguir, era o pensamento que dava o impulso. Apesar das dificuldades, aquele foi um tempo feliz. E quando eu falo de dificuldades, falo das minhas como estudante, mãe e esposa, mas não deixo de considerar o relativismo disso porque tive colegas que almoçavam todos os dias no RU, um que morava em casa de estudante carente, outro que vinha de outra cidade todos os dias, só para citar alguns exemplos. Dificuldades, então, cada um com as suas, mas todos ali tínhamos um objetivo comum e as alegrias iam chegando a prestação. As frustrações, também, e o equilíbrio entre as duas é uma das coisas que a gente precisa aprender cedo na vida; o quanto antes, melhor. O tempo de faculdade (como seriam, mais tarde, os sei lá quantos primeiros anos de trabalho) foi um tempo de dar todo o gás e a gente tinha esse gás para usar. É nesse tempo que a gente pensa e sonha muito com tudo o que vai fazer de bom depois, por nós e pelos outros. É o tempo maior do idealismo. Ou era, sei lá… A juventude de hoje não me parece mais tão idealista assim, mas a realidade é muito outra agora. Ou sempre foi essa e a percepção é que era outra, quem sabe? E antes que isso descambe para outras coisas, volto aqui ao sentimento de mochila (assim eu o batizei, em homenagem ao Zeca), que motivou, juntamente com meu aniversário de formatura, esta crônica de hoje. Ele nada mais é do que o prazer que a gente sente em conquistar objetivos, o gosto do novo e de ser jovem e ter vontades, não só a satisfação dessas vontades. A sensação de conquistar alguma coisa pela qual você mesmo lutou e trabalhou. Isso deve vir de algo muito antigo no ser humano, eu penso. E faz a diferença, eu acho. O pular etapas nessa questão, quem sabe se não é a causa de todo esse vazio que uma parte grande dessa juventude de hoje sente? Não me lembro de ter ficado entediada na minha infância e adolescência, não tive tempo para isso no período de faculdade e muito menos na vida profissional depois disso. Mas esse acabou sendo só outro parêntese.

Sei que depois de vinte e quatro anos de formada a gente já pode admitir que deu adeus a muitas das ilusões do tempo de estudante. A realidade, aquela mesma que tentamos, com teorias, colocar em prática, dificilmente faz jus ao que imaginamos para ela. Existem as conjunturas econômicas, políticas, culturais, sociais e pessoais que a ela se interpõem, e com o tempo a gente vai se conformando com o fato de ter que ceder a estas conjunturas. A essa altura da vida profissional da maioria de nós, a variável ” sobrevivência pessoal” é uma que há muito já sobrepujou a variável “sonhos” e a variável “outros” (ou “os outros”) naqueles gráficos de expectativas idealizadas que tínhamos quando saímos da faculdade. O fator pessoal, na maior parte dos casos, joga para o lado o coletivo, na maratona diária. Nós já amadurecemos (ou apodrecemos, sei lá) e entendemos que, assim como colocamos um dia nossos nomes naquela placa pomposa que atesta a nossa passagem pela faculdade, o destino de alguns daqueles sonhos que tivemos ali também vai ser uma bonita placa imaginária, emoldurada e pendurada em alguma parede de honra da nossa vida, para lembrar que um dia fomos mais nobres. Mas outros sonhos, não. Outros a gente ainda consegue realizar. Eu, pelo menos, se hoje não tenho mais o ímpeto de querer mudar alguma coisa nem idealizo mais minha profissão, ainda tento encarar como um desafio (muitas vezes até pelo cansaço ou pela frustração, mesmo, confesso) cada dia em que trabalho. É o ofício que eu escolhi, afinal, e, apesar de não ter mais pensamentos nem expectativas romantiquinhas sobre ele, ainda tenho às vezes aquele sentimento de mochila quando pego algum caso interessante, quando dou um diagnóstico oportuno e certeiro, quando consigo transferir alguma confiança e conforto a alguém… Enfim, ainda acho que posso fazer, dentro da minha profissão – e mesmo que seja só um pouco –, alguma coisa pelas outras pessoas, além de por mim.

Aquela turma que dançou a valsa de formatura vinte e quatro anos atrás é uma turma de sucesso, no geral. Muitos tornaram-se professores, mestres e/ou doutores em alguma coisa, e compartilham e transmitem, para o futuro, conhecimento e experiências. Já temos livros publicados e artigos científicos em revistas de renome, palestrantes em congressos internacionais e, dos que não enveredaram por aí, todos estão procurando fazer bem a sua parte e não têm muito do que se queixar, até onde eu sei. Todos venceram, cada um à sua maneira. Uns poucos, provavelmente, ainda vivem com alegria a labuta diária, outros a encaram com resignação ou cansaço, uns acham que ainda vale a pena, outros, que não… Aqui entram em cena as circunstâncias pessoais e não me atrevo a entrar por aí. Com a vida seguindo seu rumo e as mazelas do dia a dia a gente acaba perdendo contato com muitos, e não sei quantos de nós, daquela turma, ainda conseguem identificar em si próprio aquele “sentimento de mochila”. Não sei também se daquela turma alegre daquele baile, alguns ainda se lembram daquela valsa e daquele brinde com o mesmo carinho com que eu me lembro. O que eu sei, e que todo mundo sabe também, é que, se por um lado, apesar do momento bonito, muitos de nós ali nunca fomos, nunca seremos ou não seremos nunca mais “amigos para sempre”, como proclama a linda música, por outro, naquele momento nós fomos. Naqueles poucos minutos fomos só nós ali, selando um tipo de vínculo que só se forma quando compartilhamos algum sonho e lutamos juntos por ele; ali nós todos dividimos a alegria e a realidade da conquista daquele ideal pelo qual buscamos juntos. Aquela mãe tinha razão: Foi um momento único. E até os amigos se vão, mas alguns momentos especiais, esses ficam. No meu caso, pelo menos, ficou. Entrou para a galeria das lembranças de ouro do meu Caderninho Azul. E se hoje fosse desejar alguma coisa para meus colegas daquela turma, meu desejo seria o de que todos pudéssemos sentir de vez em quando, na nossa profissão, o sentimento de mochila que traz de volta a sensação daquela energia boa que a gente vai perdendo com o tempo. E aos que não conseguirem mais se lembrar dele, que façam como o Zeca mochileiro: voltem pelo menos ao momento daquele baile, daquela valsa e daquele brinde. Revisitem tudo aquilo! Quem sabe não funcione para trazer de volta um pouco daquele pique? Nós nunca mais seremos muito jovens (a não ser que seja em espírito) e nem desejamos ser muito pobres (muito menos de espírito). Mas ainda podemos de vez em quando, nem que seja em breves momentos pinçados, ser muito felizes novamente. Na profissão e na vida.

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