E quando se vê passaram… 50 anos?

Segunda-feira, 14 de outubro de 2019 (é do fim do mundo que aqui posto a de hoje)

Então é isso, eu fiz 50 anos.

Um tempo atrás eu vi um meme de alguém que dizia que não tinha encontrado nenhum armário com portas para Nárnia aos 8 anos de idade e não tinha recebido nenhuma carta de Hogwarts aos 11, mas esperava, sim, que o Gandalf estivesse à sua porta na manhã dos seus 50 anos, convidando para uma grande aventura. Ele não estava na porta da minha quando saí de lá na madrugada do meu aniversário. Se passou depois, chegou atrasado: quando o sol saiu eu já estava literalmente nas nuvens, a caminho do fim do mundo. E também já faz tempo que peguei, mesmo sem ele, a estrada das grandes aventuras. Ela é só, na verdade, aquela estrada de tijolos amarelos que começa sempre na porta da nossa casa, seja esta onde for, e ao longo da qual todo mundo tem que encontrar a coragem, a inteligência e um coração para poder amar. Mas não é só para a Cidade de Oz que eu caminho nela. Várzea, Sítio do Pica-Pau Amarelo, Terra do Nunca, Asgard, Avalon, Terra-Média, Hogwarts, Nárnia… Do meu quintal eu saio nela até para trabalhar. A criança curiosa que eu nunca deixei de ser gosta de brincar de esconder com a adolescente estranha que eu fui e com a velha chata que um dia eu serei. Hoje as três fazem uma pausa na brincadeira e se encontram bem aqui nesta crônica, no meio (mais ou menos) do caminho, como numa falha do espaço/tempo, para lembrar que agora somos todas a mulher de cinquenta anos.

É, eu fiz cinquenta anos. Achei que ia doer, mas não. Acordei de madrugada para viajar e o rosto no espelho do banheiro ainda era o mesmo que me olhou antes de ir dormir: Cabelos que a vaidade ainda não deixa o tempo pintar de branco, ruguinhas que o botox não tocará jamais, dentes recuperados, corpo tentando manter os limites… tudo a mesma coisa de sempre. Mas e o peso dos cinquenta, que todo mundo fala? Aproveitei o vôo para tentar sentí-lo. Foi o meu exercício de aniversário este ano. A primeira coisa que me veio à cabeça é que eu tenho cinquenta anos, filhos crescidos e criados, mas mesmo assim ainda amo as férias escolares. Daí eu tive que ir mais adiante.

Eu fiz cinquenta anos, então, e o que foi isso? E o que vai ser? O que sobra, “além da “experiência de um tempo que passa cada vez mais depressa”, como disse Rubem Alves tão lindamente na crônica-poema “Resta…” (eu recomendo ler)? Comecei a responder como ele mesmo, na mesma crônica: “Resta uma criança que mora nesse corpo de velho e procura companheiros para brincar”. E de que tem sede essa alma adulta? Ele também responde com as lindas linhas de Bernardo Soares, do Pessoa: “De qualquer coisa como tudo que foi a nossa infância. Dos brinquedos mortos, das tias idas. Essas coisas é que são a realidade, embora já morressem. Não há império que valha que por ele se parta uma boneca de criança.”

As minhas próprias bonecas de criança eu não tenho mais, mas elas ainda vivem como meus próprios símbolos. Dei à minha filha o nome da primeira delas de que me lembro. Tenho em casa, também, uma coleção de princesas Disney que mantém minhas sobrinhas sempre por perto. E a mais nova delas, de quatro anos, me disse um dia desses: “tia, você é engraçada”. Perguntei por que e ela me respondeu que eu brincava de boneca e estourava plástico-bolha – ela ainda não entende como isso liberta. De tanto assistir com meus filhos, conheço os diálogos dos desenhos e animações clássicos de trás pra frente e de frente pra trás. Tenho também todas as naves de Star Wars em miniatura. Durmo com um pijama do Harry Potter (e ganhei um de Star Wars, também) e tenho meias Dobby Free. E um par de havaianas de Game of Thrones. Também leio livros infantis e vou assistir às animações novas no cinema. Às vezes só com meu marido porque com cinquenta anos já não precisamos mais pedir sobrinhos emprestados para disfarçar, mas também curto muito ir com eles. Sobre os companheiros para brincar, então, estes são tantos… Meu irmão mais novo me disse que lamentava não existir um livro chamado “A Mulher de Cinquenta Anos” para me dar de presente. É, ele fez isso, me deu A Mulher de Trinta Anos, do Balzac, quando completei aquela idade. Ao meu marido eu disse que agora ele teria que viver com uma mulher de cinquenta. E me lembrei que eu também tenho personalidade suficiente para acompanhá-lo a um casamento onde todos estão de sapato social e só ele de All Star (“deixa pra lá, ele já fez cinquenta anos, afinal”, foi o que eu pensei, completando o pensamento com uma prece silenciosa por, pelo menos, não ser o vermelho). Ainda recebo, de um amigo bruto e querido, uma foto de um ipê florido, de sua fazenda, só porque isso o fez se lembrar de mim. E uma cunhada também se lembrou de mim por eles no meu aniversário. De uma amiga/irmã, ganho uma música que, segundo ela, é a minha cara desde muitos anos atrás (e ela tem muita razão nisso). Outra, de lá da Inglaterra me mandou flores. E também, de uma antiga faxineira do local onde trabalho, tenho promessas de sementes de flores. Brinco com os meus irmãos quase todos os dias e no meu aniversário deste ano ganhei, de minha filha um tapete de boas-vindas do Yoda, que me lembra sempre que é em casa que estou chegando; do meu marido, que sabe tudo de mim, uma super mangueira de jardim que não dobra, não resseca e tem oito tipos diferentes de jato, e do meu filho, que detesta as luzes da ribalta sobre ele, uma linda homenagem com um pouco da história de nós dois, também. Bons companheiros para brincar não me faltam, então.

E a experiência, então? O sentimento? O que resta, como disse o Rubem Alves? Resta admitir que agora você sabe os seus motivos, por mais difícil que isto seja. Que você ama, sim, as férias escolares mas não porque estará brincando ou terá crianças brincando ao seu redor, mas sim porque o trânsito para o trabalho estará bem melhor. Chegar aos cinquenta implica em conseguir encarar o seu espelho freudiano da verdade e fazer a temível pergunta: “Qual a sua responsabilidade na desordem da qual você se queixa?”. Isso quer dizer deixar de ser a vítima de circunstâncias que muitas vezes foi você mesma quem criou e saber de si o suficiente para ver o que fez de bom e assumir, tentar consertar e/ou lamentar e tirar a lição do que conseguiu estragar. Já se deve, nesse tempo, ser humilde o bastante para reconhecer os próprios defeitos e tentar corrigí-los, mas aceitar que é preciso também preservar alguns e lutar por isto, também. Clarice Lispector, numa bonita carta à sua irmã, aconselhou-a que tentasse corrigir alguns dos seus defeitos, mas não todos porque “Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso – nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro”. Eu sigo muitas vezes os conselhos dos mestres e ela é uma das grandes; achei este genial! E, ainda sobre defeitos (e esta referência eu devo ao Oswaldo Montenegro), você já pode olhar para trás e pensar em quantos dos que sanou com o tempo eram, na verdade, “o melhor que havia em você”. A espontaneidade é um destes. Às vezes dói um pouco mas a gente aprende a conviver com isso, também.

Por esse tempo você já caiu tantas vezes que levantar acaba se tornando um hábito, embora você já não seja tão ágil nisso como era antes. A força vacila também às vezes, mas a gente tem que saber que ela está lá. E a essa altura já deu para perceber quem de fato está do seu lado para amortecer os tombos e ajudar a se levantar. Aos cinquenta anos também já deu tempo de ser bem resolvida o suficiente para aceitar que não vai conseguir agradar nem convencer todo mundo e ver que isso não vai fazer a menor diferença na sua vida nem mudar em nada a pessoa que você é. Algo como ter personalidade, como se costuma dizer. E você já deve ser capaz de entender, também, que a felicidade não é uma sensação constante (eu já disse isso aqui antes), mas breves momentos bons, plenos, pinçados aqui e ali, na nossa vida. E, a propósito disso, aos cinquenta anos já é tempo de ser capaz de aliviar das outras pessoas e do mundo a responsabilidade pela nossa felicidade, também; ser capaz de trocar o peso do “você me faz feliz” pela leveza do “eu estou feliz com você”. E isso vale para o contrário e para outros sentimentos, também.

Pois é, com cinquenta anos nós já dobramos o cabo da boa esperança. Brincamos na primavera, plantamos no verão e estamos colhendo os frutos no outono. Winter is coming, no entanto. Chegamos ao alto do morro e o caminho agora é ladeira abaixo. Temos que saber segurar firme o tranco da descida e nessa hora o calçado ajuda. Vi num dia desses, numa entrevista/resenha do livro da Constanza Pascolato (e não, eu não li o livro, mas também não tenho preconceito em relação a isso), uma frase dela que achei legal. O repórter perguntou sobre a nova(?) onda, que teria sido puxada por ela anos atrás, de se usar tênis nas mais variadas ocasiões. Ela respondeu dizendo, entre outras coisas, que “você tem a idade do seu sapato”. Eu, que uso tênis desde sempre (embora não em casamentos), só posso concordar muito com essa parte. Eles hoje me dão talvez até mais conforto e alegria do que davam antes, porque sinalizam a hora da liberdade e da leveza. A partir dos cinquenta é ladeira abaixo, sim, mas a gente sempre pode tentar descer bem. Eu, de minha parte vou descendo devagarinho, calçando meu All Star, fazendo, vivendo e contando minhas histórias.

E, sobre histórias – e para terminar isso pelo começo – em O Senhor dos Anéis, primeiro o Bilbo e depois o Frodo, escrevem suas aventuras em um livro intitulado – claro – O Senhor dos Anéis. Não tenho pretensões de escrever um livro de aventuras mas aquela velha que um dia eu serei terá muitas delas para contar, eu espero. De andar pela estrada de tijolos amarelos ainda não me cansei e ao longo dela já perdi e reencontrei a coragem muitas vezes; isso faz parte da vida de qualquer um. A inteligência, essa a gente vai aprimorando pelo caminho, para transformá-la em sabedoria, e saber, assim como viver, aprende-se por tentativa e erro. Aos erros, segundo Oscar Wilde, damos o nome de experiência – deveria haver uma fórmula matemática para se calcular isso (e este talvez seja o mais cinquentista dos meus pensamentos hoje). O coração, se já não tem mais o ritmo certinho de antes, se falha um pouco ou acelera demais de vez em quando, ainda aguenta muita coisa, mesmo assim; amor nunca me faltou na vida, nem para dar e nem para receber. E a estrada… bom, eu vi num artigo sobre viagens outro dia o termo geolongepracaralho (minha filha diz que falar palavrão também é bom e libertador e eu aproveito os 50’s para experimentar), que o autor, Guilherme Cavallari, usou para tentar denominar o ponto mais longe onde se pode chegar do lugar onde se nasceu. E eu hoje estou postando esta crônica de Ushuaia, a cidade mais meridional do planeta, também conhecida como a Cidade do Fim do Mundo, pertinho do lugar mais ao sul ao qual se pode chegar de carro no mundo. Não é o meu geolongepracaralho (de novo!) porque eu já fui mais longe do que isso uma vez, mas é um geolongepracaramba. Só que, com cinquenta a gente já entende, no entanto, que por mais longe que vá na estrada, ao ponto mais distante que consiga chegar nela, o seu geolongepracaralho (recorde!), que seja, ainda vai ser você mesma quem estará lá junto com você quando finalmente chegar. E que o fim do mundo é tão relativo que se você seguir sempre em linha reta, sendo a Terra redonda como ela é, ele fica imediatamente atrás do ponto onde começou, que é onde você está agora. Então, talvez eu até chegue mais longe do que aqui, em distância, algum dia, talvez não… Quem sabe do amanhã, não é? Mas, tenho cinquenta anos e a consciência de que nunca vou poder ultrapassar a mim mesma em nenhuma situação. Talvez isso possa ser chamado de humildade, mas não sei. No momento, no aqui e agora e depois de toda essa lenga-lenga, o que posso dizer é que estou com cinquenta anos completos, num lugar conhecido como o fim do mundo, ainda conseguindo sobreviver bem a mim mesma e apreciando minha própria companhia. Naquela carta para sua irmã, a Clarice também diz a ela que respeite a si própria, mesmo no que tem de ruim, que não queira ser ninguém além dela mesma. E a isso – e desta vez eu tenho certeza do que digo – chama-se autenticidade.

Fazer cinquenta anos foi só e exatamente isso, se algum significado quiserem que eu dê ao fato. Não me pesou muito ainda. E, sério mesmo, acaba sendo bom e libertador, também. Assim como estourar plástico-bolha, calçar um tênis e falar palavrão (sic). De verdade! Todo mundo deveria experimentar! Eu recomendo!

E vamos seguindo com fé!

* E, claro, em mais um indefectível post scriptum, que deixei para o final para ser facultativo, dois belíssimos excertos de Fernando Pessoa, por duas de suas contraditórias pessoas. São de tempos e heterônimos diferentes, e brigam um pouco entre si, mas se completam, eu acho. O Pessoa é uma pessoa só, afinal. A leitura deles é, como eu disse, opcional, entretanto.

– 1 –

Vive, dizes, no presente;

Vive, dizes, no presente;

Vive só no presente.

Mas eu não quero o presente, quero a realidade;

Quero as coisas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?

É uma coisa relativa ao passado e ao futuro.

É uma coisa que existe em virtude de outras coisas existirem.

Eu quero só a realidade, as coisas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.

Não quero pensar nas coisas como presentes; quero pensar nelas como coisas.

Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.

Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;

Vê-las até não poder pensar nelas,

Vê-las sem tempo, nem espaço,

Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.

É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.

–(“Poemas Inconjuntos”. In Poemas de Alberto Caeiro. Fernando Pessoa)

– 2 –

Sempre neste mundo haverá a luta, sem decisão nem vitória, entre o que ama o que não há porque existe, e o que ama o que há porque não existe. Sempre, sempre, haverá o abismo entre o que renega o mortal porque é mortal, e o que ama o mortal porque desejaria que ele nunca morresse. Vejo-me aquele que fui na infância, naquele momento em que o meu barco dado se virou no tanque da quinta, e não há filosofias que substituam esse momento, nem razões que me expliquem porque passou. Lembro-o, e vivo; que vida melhor tens tu para me dar?

— Nenhuma, nenhuma porque também eu lembro.

Ah, lembro-me bem! Era na casa velha da quinta antiga e ao serão; depois de coserem e fazerem meia, o chá vinha, e as torradas, e o sono bom que eu haveria de dormir. Dá-me isto outra vez, tal qual era, com o relógio a tictacar ao fundo e guarda para ti os Deuses todos. Que me é um Olimpo que me não sabe às torradas do passado? Que tenho eu com deuses que não têm o meu relógio antigo?

Talvez tudo seja símbolo e sombra, mas não gosto de símbolos e não gosto de sombras. Restitui-me o passado e guarda a verdade. Dá-me outra vez a infância e leva Deus contigo.

— Os teus símbolos! Se eu chorar na noite, como uma criança com medo, nenhum dos teus símbolos me vem afagar no ombro e embalar por ali até que eu durma. Se eu me perder na estrada, tu não tens Virgem Maria melhor que me venha buscar pela mão. Tenho frio das tuas transcendências. Quero um lar no Além. Julgas que alguém tem sede na alma de metafísicas ou de mistérios ou de altas verdades?

— De que é que se tem sede nossa alma?

— De qualquer coisa como tudo que foi a nossa infância. Dos brinquedos mortos, das tias velhas idas. Essas coisas é que são a realidade, embora morressem. Que tem o Inefável comigo?

— Uma coisa… Tiveste algumas tias velhas, e alguma quinta antiga e algum chá e algum relógio?

— Não tive. Gostaria de ter tido. E tu viveste à beira-mar?

— Nunca. Não o sabias?

— Sabia, mas acreditava. Para que descrer do que só se supõe?

Não sabes que este é um diálogo no jardim do Palácio, um interlúdio lunar, uma função em que nos entretemos enquanto as horas passam para os outros?

— Pois sim, mas eu estou a raciocinar…

— Está bem: eu não estou. O raciocínio é a pior espécie de sonho, porque é aquele que nos transporta para o sonho a regularidade da vida que não há, isto é, é duplamente nada.

— Mas o que quer isso dizer?

(Pondo-lhe a mão no outro ombro, e envolvendo-o num abraço.)

— Ó filho, o que quer qualquer coisa dizer?

(Livro do Desassossego por Bernardo Soares. Vol.II. Fernando Pessoa).

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