Here comes the rain, de Nova York à Coreia do Sul.

Sábado, 30 de novembro de 2019 (40° amanhã, e por enquanto só o cheiro leve de chuva no ar; encerra-se novembro!)

“A Wizard is never late, Frodo, nor is he early. He arrives precisely when he means to.” (“Um mago nunca se atrasa, Frodo, nem chega cedo. Ele chega precisamente quando quer.”)

– Fala de Gandalf para Frodo, em O Senhor dos Anéis – uma correção feita pela minha filha (que além de minha filha é também psiquiatra e mergulhadora) para minha última crônica daqui, sobre eu ter dito que o Gandalf pode ter passado atrasado na porta dos meus cinquenta anos. Nada a ver com a história de hoje mas tem rumo, como a gente diz por aqui quando quer dizer que faz sentido. Assim como ser psiquiatra e mergulhadora, que eu sei. Ela também disse que aquela foi a crônica mais visceral que eu escrevi até hoje. (Não sei se isso veio da minha filha, da psiquiatra ou da mergulhadora, mas tem rumo, também).

Este blog é meu log book, então, e aqui eu falo do que me dá vontade de falar. E hoje vou dar uma saída, emergir da zona do deep-diving, dispensar o profundímetro e ficar só no snorkeling. Vou nadar em águas rasas, resumindo. Vou falar de cinema. Este foi um semestre bem rico de filmes bons.

Aqui em casa é todo mundo meio viciado em cinema. Minha filha e meu marido, principalmente, embora em diferentes estilos. Ela é daquelas que vai a festivais de filmes gregos e ucranianos, fala dos novos e velhos diretores cult com desenvoltura e intimidade e adora o cinema europeu e o asiático. Mas também assiste às grandes produções hollywoodianas, como o restante da humanidade. Já o meu marido, este assiste a tudo que estiver passando no cinema às quintas e aos domingos e tem crises de abstinência na falta de um filme novo, sejam eles candidatos ao Oscar, ao BAFTA, ou ao Framboesa de Ouro. Admiro, mas, apesar de também adorar cinema, atualmente me reservo o direito de selecionar bem o que vou passar duas horas ou mais assistindo. Vou pelo feeling com a história, lida ou vista no trailer, ou pelo meu estado de espírito do dia. Funciona bem, assim.

Aqui, no deserto de fim de mundo onde eu moro, só tem cinema nos shoppings. Digo isso porque, dentre todos os programas que eu detesto fazer no mundo, ir ao shopping é o top one. Sério mesmo, de verdade! Meu cartão pré-pago de estacionamento já durou mais de seis meses em um dos dois shoppings que temos por aqui. Só vou mesmo quando tenho uma coisa específica para fazer neles. E para ir ao cinema. E só o cinema vale o sacrifício de um shopping center num domingo à noite. Neste último, quando voltava do filme novo do Woody Allen, respondi a uma mensagem de meu irmão mais novo, que tinha me telefonado enquanto eu estava no cinema. Disse a ele que retornaria a ligação no dia seguinte e perguntei como ele achava que vai ser a nossa vida quando não tiver mais um filme novo do Woody Allen para assistir aos domingos. Um Dia de Chuva em Nova York é um filme simplesmente delicioso! Eu não sei como ele consegue aquilo, sinceramente. Você entra, senta na poltrona do cinema e durante uma hora e meia, mais ou menos, consegue se esquecer do mundo, do tempo, do lugar, das pessoas ao seu redor… De repente você não é mais você, mas um ou vários dos personagens da história que está vendo. Você começa a andar por uma cidade onde nunca esteve, conversa com pessoas que nunca viu antes e parece saber exatamente para onde ir; dá aquela sensação de pertencimento, sei lá… De cinema eu só sei dizer, mesmo, o que me agrada e porque, ando léguas distante de ser uma grande entendida no tema. Mas, assistir a um filme do Woody Allen, para mim, é como entrar em casa, tirar os sapatos, vestir um pijama e deitar na varanda com uma boa história para ler, na mão. Em algumas cenas, tive vontade de me levantar e fazer uma xícara de chocolate quente. Caminhei pelas ruas de Nova York e foi como se eu tivesse nascido lá, como o protagonista do filme. O fascínio dele pela chuva, como diretor, é algo como o meu próprio, e talvez por isso eu tenha tanta facilidade em sentir as gotas de chuva no rosto, em seus filmes. E o barulho da chuva (ok, aqui a tecnologia Dolby Atmos de som ajuda, eu sei) eu ouvi como se fosse na minha janela.

Ainda sobre o filme, li nesta semana uma entrevista na qual um repórter pergunta o porquê de sua adoração pelos dias de chuva e por que o céu carregado seria melhor do que o sol, para ele. “Porque a luz é mais bonita. E porque acredito que nesses dias as pessoas pensam mais a partir do seu interior, da sua alma. A minha é um pouco triste… e se abro a janela pela manhã e está ensolarado, acho desagradável. Por outro lado, vejo que as cidades são lindas sob a chuva. Paris, Londres, Nova York, San Sebastián são muito bonitas, mas se chove ficam mágicas”, foi a resposta. Eu não acho o sol desagradável, e minha alma não é triste, mas adoro a chuva e entendi perfeitamente o que ele quer dizer. Na entrevista o repórter pergunta também sobre a nostalgia, outro dos seus motores de popa: “— A nostalgia, esse monstro… ou a nostalgia, esse bálsamo? — A nostalgia, essa armadilha. Camus fala dela como uma armadilha sedutora, e eu caio nela constantemente, sobretudo quando falo de Nova York. Quando criança, era uma grande cidade. Eu diria que foi assim até o final dos anos cinquenta. Então começou a se modernizar de um modo que não gosto muito, você sabe, lugares novos e feios ocupando o espaço de lugares antigos e deliciosos, lojas de balas que desapareciam, o trânsito que começou a piorar… e, depois de certo tempo, muita criminalidade[…]”. Ele, eu e quem nunca, não é verdade? E então ele pega um dia de chuva, coloca a nostalgia no seu devido lugar e, com seu toque de gênio, consegue transformar uma cidade como Nova York numa cidade aconchegante, onde você se sente totalmente seguro, à vontade, em casa… Woody Allen é um gênio da lâmpada que não pergunta a ninguém quais são os seus desejos, mas consegue nos transformar no que ele quiser e também nos transporta (Meia Noite em Paris está aí para diligentemente provar) para onde ele quer. E que me perdoe a parte do mundo que o boicota pela sua história pessoal.

Comecei com o Woody Allen pelo meu amor maior aos seus filmes, mas teve mais, também. A começar por Bacurau. Eu fui e fui na paz. Fui com medo mas fui. Todas as vezes que eu vejo um filme provocar a já costumeira celeuma política esquerda/direita, eu sinto um arrepio que me trespassa a alma. Mas encarei e não me arrependi. Isolei, como sempre tento fazer, a celeuma. Tentei não subverter o filme a nada. E, adivinhem … Achei o filme espetacular! Para mim elevou o cinema nacional a alguns patamares acima do que era. O filme é uma produção nordestina, que foge totalmente ao padrão sudeste de cinema e aos clichês das comédias Globo Filmes (e eu gosto de algumas dessas, também). Mas e o social, e a contextualização e não-sei-mais-lá-o-quê? Ah, me poupem! O filme levou cinco anos para ser terminado, gente! Não foi feito depois da eleição do ano passado nem durante a campanha, não. Tudo bem que tem lá uma comunidade nordestina oprimida pela falta d’água, sob o jugo e sob os interesses dos poderosos de sempre. Tudo bem que tem nordestinos vendidos pelo preço que alguém quiser pagar por eles. Tudo bem que tem bandidos sendo festejados pelo povo e aclamados como heróis… Mas quem é capaz de dizer que nunca antes na história dessa República Bananeira do Brasil isso aconteceu? Presos ou #livres, com Deus acima de todos, de um jeito ou de outro nossos heróis sempre tiveram algo de bandidos. Zumbi dos Palmares, Lampião… se puxarmos pela memória a lista chega em qualquer planalto, favela, restinga ou caatinga dessa terra de gigantes. O pensar é livre e o sentir, também, claro, mas, para mim, Bacurau é excepcional!

E aí veio o Coringa. Mais uma celeuma, mais uma luta de classes, mais oprimidos pelo capitalismo selvagem… E eu, mais uma vez, curti muito o filme. Curtir o filme não quer dizer, em nenhum momento, negar a desigualdade de classes, a pobreza e tudo o mais que esta desigualdade promove, antes que venha a condenação. No meu entendimento, acho apenas que Coringa é um mergulho vertiginoso em uma mente doentia (não sei a patologia exata, mas vou perguntar pra minha filha), que ressalta – aí sim– as dificuldades a ela associadas pela falta do que precisa para se ter um acompanhamento e uma aceitação melhores: dinheiro. Achei surpreendente a maneira como as pessoas justificaram a sanha assassina do Coringa com a sua condição social, com as injustiças sofridas etc. Gente, o Coringa é um doente mental! É um doente mental pobre numa sociedade doente de outras coisas, é verdade, mas é um doente mental. E aqui, mais uma vez, quem quiser que pense mais.

Depois teve o Ford x Ferrari. Nada de muito relevante, aqui, apenas um filme leve, legal, bonito e que me fez ter saudade do tempo que eu acompanhava a Fórmula 1, um período que durou dos meus sete anos até uns oito anos atrás, quando já não tinha muito mais motivo para isso; não havia mais pilotos que emocionavam e ganhavam corridas no talento e no braço. Deu saudade do tempo em que os domingos começavam sempre com muita emoção e não existia programa melhor para mim e para alguns dos meus irmãos. É um filme legal, ponto.

E aí, finalmente, veio o último. De um domingo de Wood Allen pulei para uma terça-feira de Parasita. Como eu falei antes, assisto aos filmes pelo sentimento que me passam as prévias que vejo deles, suas histórias. Assisti ao trailer e antevi um filme pesado, mas sabia que era bom e resolvi encarar. Também nunca tinha assistido a um filme coreano e achei que seria bom experimentar. Também aqui não me decepcionei, o filme é excelente! Na mídia, novas polêmicas, nova guerra dos ricos contra os pobres, injustiças sociais, tudo de novo. Só que, desta vez me pegou pelas pernas e derrubou. Não saberia, como nós comentamos por aqui, classificar o filme em termos de gênero. Para mim, assim como Bacurau, foi uma grande surpresa em termos de qualidade, mas a essência do filme, o que ele passa, de fato, é acachapante. Mexeu comigo como nenhum dos outros conseguiu. A miséria e ambição humanas na sua pior vestimenta e em trajes de gala, também. O mundo visto de baixo para cima, sob uma ótima de subsolo, de quem vive, literal e miseravelmente, abaixo do chão e aprecia e se espanta, a um só tempo, com o brilho que o sol pode ter. E finalmente a chuva, trazendo à tona, por sua vez, tudo o que, também miseravelmente, tentamos esconder. É um filme pesado, sem dúvida. Um Wood Allen às avessas, com todas as nuances de sol e chuva. Pelo menos para mim foi assim. Saí do cinema meio baleada e no dia seguinte, liguei para minha mãe guardar almoço para mim, fui para a casa dela, almocei e fui com ela para o meu antigo quarto, onde ficamos deitadas, as duas, conversando amenidades e rindo por umas duas horas.

No filme do Woody Allen tem uma fala de uma das personagens que diz que a realidade é para quem não tem mais nada. Talvez, então, eu, que tenho mais do que o básico na vida, seja só uma alienada do mundo, vivendo minhas pequenezas de fundo de quintal e gastando tempo com uma quilométrica crônica sobre os últimos lançamentos do cinema, quem pode dizer que não? Mas talvez não. Não quero dizer que “se há uma crise lá fora não fui eu que fiz”, mas nunca fiz nada desonesto nem ilícito na minha vida, tudo o que conquistei foi com trabalho de verdade (meu e dos meus pais, antes de mim), tento contribuir de uma ou outra forma para um mundo melhor e não devo nada a ninguém. Uma outra frase, de um livro que li recentemente, diz que a realidade nunca foi páreo para a imaginação, então, talvez eu seja apenas alguém que consegue encarar a realidade feia do mundo com uma boa dose de imaginação. E mesmo assim admito que, mais do que a ausência de um filme novo do Woody Allen aos domingos, fico pensando às vezes em como vai ser a minha vida quando não puder mais ligar para minha mãe pedindo que guarde meu almoço, seu colo e um tempinho para uma conversa leve comigo numa quarta-feira de trabalho também leve.

Mas esta será uma outra história.

P.S.: Este ano ainda vai ter Star Wars, A Ascensão Skywalker.

2 comentários em “Here comes the rain, de Nova York à Coreia do Sul.

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