Sobre o tempo de muitas palavras e o tempo de dormir (ou, quem sabe, de voltar para casa)

Segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

(meu dia semanal de achar que a vida não tem sentido)

Prancheta 1 cópia 10

“Senhor da Biografia, salve todos nós da velhice, da saúde debilitada e de uma árvore de esperança que perdeu a faculdade de colocar flores.”

– De uma carta de Mark Twain a Joe Goodman, em abril de 1891

Quando se tem o hábito de escrever, sobretudo sobre as coisas do cotidiano, muitas vezes a crônica fica dançando na nossa frente, mas aí falta o tempo e acabamos perdendo o compasso dessa dança. Muitas passam batido, infelizmente. Antes que mais uma se perca, vou perder um pouco do meu sono por esta daqui.

Na semana passada eu comecei um dos dias de trabalho atendendo um dos meus velhos professores da universidade. Quando digo velho, é velho mesmo, porque ele já era idoso quando paguei sua disciplina, quase trinta anos atrás. Eu achava que ele já tinha morrido há muito tempo, na verdade. Hoje ele tem 89 anos, Alzheimer e anda amparado pela filha. Não me reconheceu mas me retribuiu o comprimento afetuoso com aquele sorriso vago e infantil das pessoas que têm algum tipo de demência. Ele não foi dos professores mais marcantes que eu tive, mas era uma pessoa afável, tranquila, e sua participação resumia-se basicamente a acompanhar os GDs, grupos de discussão que faziam parte da dinâmica de avaliação individual, na disciplina. Funcionava assim: A turma estudava um assunto e ia discutir na sala de aula, arrumada em um semicírculo, mediada pelo professor, que ia dando as notas à medida que a discussão progredia. Geralmente era aí que ele figurava porque aula, mesmo, ele deu poucas. Falei para sua filha que a lembrança maior que tinha dele era a de uma vez que eu cheguei para um desses GDs e ele conversava com alguns colegas na porta da sala, e quando me viu chegando, ele disse para os que conversavam com ele que tinha muita vontade de ver um sorriso meu. Achei graça porque até então nunca havia sequer imaginado que ele prestasse atenção a detalhes pessoais de ninguém. É essa a ideia geral que nós temos da maioria dos professores, afinal. Olhando para isso com os olhos de hoje, penso que talvez aquela fosse a maneira que ele tinha para encarar, às vésperas da aposentadoria, eu acredito, o cansaço e o tédio da repetição daquela atividade ano após ano. Conversando com a filha, ela me falou que ele e outro amigo eram os dois últimos remanescentes de uma turma que se formou em medicina em Salvador, sessenta anos atrás. A única vez que o vi “voltar à vida” durante este breve encontro, foi quando a ouviu falar o nome deste colega e amigo. Perguntou a ela por onde ele andava, que nunca mais o tinha visto. E depois voltou ao seu mundo insondável. Na saída, despediu-se de mim com aquele mesmo sorriso vago.

Quando eu penso na minha velhice, sempre me imagino sofrendo a lenta, limitante e inexorável decrepitude física que ela nos traz mas conservando, entretanto, a lucidez e a capacidade de raciocínio, e uma saúde relativamente boa. Esta seria a velhice ideal para mim. Um tempo em que eu ainda pudesse andar com minhas próprias pernas e me lembrar das pessoas, ainda conseguisse ler um livro, contar uma história, e pudesse manter uma conversa coerente, que ainda interessasse a alguém. Mark Twain fala sobre isso, desta necessidade de conversar, quando fala da velhice. Ele diz que quando “nos tornamos” a idade que temos, começamos a querer conversar mais e mais, e não sobre o presente ou sobre o futuro, mas sobre os tempos passados que, talvez justamente por terem passado, carregam em si o glamour, a graça e o brilho – muitas vezes até inexistentes – que então enxergaremos neles. Desencavar tudo isso, sacudir a poeira e limpar o mofo dessas memórias, e transmití-las a alguém é onde residiria, segundo ele, o pathos, a verdadeira capacidade de provocar a empatia que desejamos nesse tempo de inverno. Mark Twain morreu velho, com mais de setenta anos, mas suas cartas (adoro escarafunchar por aqui) revelam alguém que sempre se sentiu jovem. Ele dizia contar as sepulturas ao seu redor, ao longo dos anos, mas aparentemente não se imaginava em nenhuma delas. Dizia ser incapaz de se sentir velho em espírito e que, entre jovens, sentia-se como estes. Que se entendeu velho no dia em que usou óculos pela primeira vez e neste mesmo dia, no entanto, sentiu-se absurdamente jovem ao andar de bicicleta, também pela primeira vez. “A vida seria infinitamente mais feliz se pudéssemos nascer com oitenta anos e aos poucos chegar aos dezoito.”. Esta era a ideia que teria dado a Deus se estivesse ao seu lado quando Ele criou o homem: Que a vida começasse na velhice e terminasse na juventude. É ou não é uma linda ideia?

Meu pai nunca leu Mark Twain mas a citação dos dezoito anos me lembrou de uma vez que ele disse para mim que achava muita besteira essa história de chamar a velhice de “melhor idade”. Meio que esbravejando ele falou que melhor idade era dezoito anos, nunca sessenta. Ele tem hoje oitenta e quatro anos e um tipo de demência de nome complicado. Suas pernas não obedecem muito facilmente aos comandos cerebrais e sua marcha está bem difícil. Seu localizador espacial, totalmente desregulado. Ele tem dificuldade em reconhecer lugares, ruas etc, que sempre fizeram parte de seu cotidiano, e sua casa, segundo sua impressão pessoal, amanhece cada dia em um lugar diferente. Em alguns dos que já morou ou em outros onde nunca esteve, onde toma café e conversa com gente que não pisa mais neste chão há anos e com outras que ainda arrastam-se por aqui. Meu pai foi um homem ativo, enérgico e autoritário durante a maior parte de sua vida e sempre gostou de contar histórias. À medida que foi ficando velho, isto foi aumentando. Chegava a cansar quando emendava uma história na outra, muitas delas dezenas de vezes repetidas, e queria sempre audiência para estes serões. Um tempo atrás chegou a pedir ao meu marido que trancrevesse algumas delas mas depois a ideia parece ter morrido. Ou quem morreu foi a vontade, talvez… Uma das muitas verdades que o Proust diz sobre a velhice, em algum lugar do Tempo Perdido, é que no início dela nós ainda temos o vigor e a vontade; com o tempo, conservamos a vontade mas vamos perdendo o vigor, e no fim, nem a vontade temos mais. Hoje meu pai anda em um quase mutismo que fala muito alto para nós, que o conhecemos de outra forma. Raramente ri e dificilmente conta uma história, também, e sua vida atual resume-se basicamente a comer, dormir e assistir à televisão. Seu irmão e um dos meus cunhados são os poucos que ainda conseguem tirá-lo disso, embora nem sempre. À mesa sua voz, antes vigorosa e sempre presente, pouco se escuta, e às vezes parece que se isola em um mundo de pensamentos só dele. Não são pensamentos alegres, eu acredito. Mágoas, culpas, arrependimentos, rancores, ressentimentos… Quem sabe o anda por sua mente agora, dentro de uma casa que teima em mudar de lugar e que reúne, a cada novo dia, seus amigos da juventude, vivos e mortos?

Meu sogro vai completar oitenta anos em breve e também está sofrendo um processo acelerado de degeneração cerebral senil. No caso dele, o problema maior é a memória, principalmente a recente. Numa conversa corriqueira ele não consegue fixar o que foi dito quinze minutos atrás. Não se lembra de onde coloca seus objetos pessoais e chegou a se perder ou perder o carro algumas vezes, na cidade e nos lugares onde viveu toda a sua vida. Meu sogro é médico, com mais de cinquenta anos de formado e teve, no início do processo, a real percepção da doença. Depois disso, sua reação foi começar a escrever. Editou, por conta própria, um livreto de contos e poesias para presentear os colegas na comemoração dos cinquenta anos da formatura de sua turma de faculdade, no Recife. Quando comemoraram as Bodas de Ouro, ele e minha sogra escreveram outro pequeno livro com crônicas, poemas e relatos de momentos marcantes de suas vidas. Ele levava uma vida social animada para os padrões da idade até pouco tempo atrás e hoje diz não ter vontade de sair para nada. Gostava de viajar mas agora fica totalmente desorientado e desconfortável quando está em outro lugar. Futebol, uma de suas grandes paixões, não mexe mais com ele. E, como estes, foi perdendo outros pequenos prazeres do dia a dia. Mas escreve freneticamente e agora, às vésperas de completar os oitenta, quer editar mais um livro de memórias para distribuir pra família e pros amigos. O título que ele deu ao livro que escreveu com minha sogra na ocasião das Bodas de Ouro foi um pomposo e antiquado “Odisseia em Dueto”. E daqui eu pulo direto para a Guerra de Tróia.

Meu sogro gostava de ler poesia quando era jovem, mas não sei se ele chegou a Ier os poemas épicos sobre a Guerra de Tróia, a Ilíada e a Odisseia, de Homero. Não sei se ele sabe, também, que a Odisseia tem este nome porque narra o retorno longo e tormentoso do heróico rei Ulisses (em grego, Odisseu) para sua Ítaca natal após a guerra. E que sua primeira parada depois de Tróia foi na Ilha dos Lotófagos, uma terra de homens sem memória, onde crescia uma fruta deliciosa, a fruta do lótus, que apagava nos viajantes que se dispusessem a prová-la todas as lembranças e todo o desejo de voltar para casa. Quem comesse daquela fruta ficaria ali para sempre, sem culpa, dor ou saudade. Mas Ulisses não quis comer e seguiu adiante, para casa, onde só conseguiu chegar muito tempo e numerosas desventuras depois. Ao chegar, encontrou tudo mudado, exceto o amor e a lealdade dos que lhe eram mais caros: sua esposa e seu filho. Foi um grande retorno de guerreiro, o dele. Ainda sobre Tróia, naquela guerra mitológica entraram também os deuses, de cada lado, e foi Moira (ou as Moiras), deusa do destino, quem determinou que o maior herói de todos, Aquiles, morresse jovem para assim viver eternamente na memória dos humanos.

Mark Twain não achava justo que só na idade madura ou na velhice pudéssemos desfrutar das vantagens pelas quais gastamos a vida e a juventude lutando. Lutar é um verbo que comporta mais de uma transitividade: você luta com, luta por, luta contra, luta em, luta algo ou simplesmente luta. Pensando no meu professor, no meu pai e no meu sogro eu os imagino lutando suas próprias guerras. Os três lutaram, certamente, muitas delas durante suas vidas e, como na Guerra de Tróia, algumas vezes como vilões, outras como heróis, acredito. E, boas ou ruins, ninguém chega à idade deles sem histórias para contar, e as da nossa juventude são quase sempre as mais emocionantes. Na minha filosofia do fundo do meu quintal, penso que, a partir de certa época da nossa vida, tudo o que nós queremos é só isso: voltar para casa. Não uma casa física, mas qualquer lugar onde nós nos sentaremos um dia para contar glórias e bravuras, cercados daqueles que um dia amamos e nos amaram também, com uma memória que nos fará lembrar de nós mesmos como aquele Aquiles de Tróia: sempre jovens e valentes lutadores. Sobre estes três guerreiros aqui lembrados eu os vejo hoje em suas odisseias particulares, com seu retorno para casa interrompido no meio do caminho, aportando em uma ilha desconhecida e comendo, à revelia, a tal fruta do lótus e assim perdendo, gradativamente, todo o frescor e também a sensação de renovação que uma boa recordação pode nos trazer. Perdendo aos poucos a conexão com o cotidiano e cada vez mais com o que foi importante para eles. Vejo no velho professor o breve conforto da lembrança de um antigo companheiro de luta. No meu pai, uma incansável tentativa de manter sua casa no lugar onde ele precisa que ela esteja agora. E no meu sogro, uma tentativa quase desesperada de manter alguma memória dele mesmo em algum lugar, já que em sua mente isto está sendo negado.

“Com os adolescentes cuja existência se prolonga, a vida fabrica seus velhos” – Isto também é Marcel Proust. E ele disse também que nós temos que nos resignar à ideia de que nossas histórias não sobreviverão a nós mesmos por muito tempo. Ele escreveu isso no Tempo Perdido, cento e dez anos atrás. Os poemas de Homero têm mais de dois mil anos de contados por escrito, fora os anos de tradição oral. E eu, que só vivo há cinquenta anos, aqui estou hoje, ainda usando os dois para ilustrar três odisseias tristemente interrompidas. A fruta do lótus seria uma droga poderosa e o mundo se acabaria por ela, se pudéssemos usá-la seletivamente. Mas, já que esta não é uma possibilidade, queria só poder viver a vida com a coragem de Aquiles para a luta e a determinação de Ulisses em voltar para casa. Que assim seja!

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