Ainda é de flores que eu quero falar

Sexta-feira, 3 de janeiro de 2020 (uma curtinha de aniversário, para dormir antes da guerra)

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– “Sam:

Isso não é justo.

Na verdade, nem devíamos estar aqui.

Mas estamos.

É como nas grandes histórias, Sr. Frodo.

As que tinham mesmo importância…

… eram repletas de escuridão e perigo.

E, às vezes, você não queria saber o fim…

porque como podiam ter um final feliz?

Como podia o mundo voltar a ser o que era…

…depois de tanto mal?

Mas, no fim, é só uma coisa passageira…

essa sombra.

Até a escuridão tem de passar.

Um novo dia virá.

E, quando o sol brilhar, brilhará ainda mais forte.

Eram essas as histórias que ficavam na lembrança…

Que significavam algo.

Mesmo que você fosse pequeno demais para entender por que.

Mas acho, Sr. Frodo, que eu entendo, sim.

Agora eu sei.

As pessoas dessas histórias…

tinham várias oportunidades de voltar atrás, mas não voltavam.

Elas seguiam em frente…

porque tinham no que se agarrar.

Frodo:

E em que nós nos agarramos, Sam?

Sam:

No bem que existe neste mundo, Sr. Frodo…

pelo qual vale a pena lutar.”

Diálogo entre Samwise Gamgee e Frodo Bolseiro em O Senhor do Aneis – As Duas Torres, quando as coisas estavam muito difíceis na jornada para a destruição do Um Anel. Sam era um jardineiro humilde do Condado, que depois virou herói. Após o fim da guerra ele ganhou da Senhora da Floresta de Lothlorien, Galadriel, uma semente de mallorn, a linda árvore prata e dourada que só crescia naquele lugar, e um punhado da terra fértil de lá, que na volta ele espalhou por todo o Condado. A semente da mallorn, esta ele plantou no centro de sua vila, para que todos pudessem apreciá-la. Tudo o que ele achava que sabia da vida era sobre as plantas e flores que cultivava.

– “Onde sempre acabou cada ilusão,

A força dos meus sonhos é tão forte,

Que de tudo renasce a exaltação

E nunca as minhas mãos ficam vazias.”

Versos do poema “E Depois de Uma Tarde”, da poetisa portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen. Segundo uma reportagem de Maurício Meireles, da Folha, ela colhia camélias no inverno e rosas na primavera, no jardim de sua avó, e mantinha sempre um vaso cheio delas, perto da janela do seu quarto. À noite ela mastigava as flores, pétala por pétala. “No fundo, era a tentativa de captar qualquer coisa a que só posso chamar a alegria do universo, qualquer coisa que floresce”, dizia ela. E que ideia mais bonita! – Digo eu, que não tenho camélias e nem inverno mas tenho rosas e muitas flores o ano inteiro.

Li também um dia desses uma matéria sobre um filósofo espanhol, Santiago Beruete, que desenvolveu uma teoria original sobre a busca da felicidade, na qual ele estuda as conexões entre as utopias e os diferentes estilos de jardinagem, relacionando filosofia com jardins. A Jardinosofia (assim ele a chamou) é uma viagem grande demais até para mim, que mantenho sempre um pé nas nuvens mas, dentre as bobagens (lo siento por esto, señor) que ele diz lá, teve uma que eu achei interessante, se não for levada ao pé da letra. Ele fala que “a história fundamental da nossa civilização é a de duas pessoas expulsas de um paraíso natural”, e que teria sido depois disso, da perda das “formas de sustento”, que teria surgido a revolução agrária e outras inovações que acabaram por transformar a espécie humana em uma espécie ‘predadora”.

Da mistura dessas três histórias é que eu quero introduzir a minha de hoje, para comemorar os dois anos de publicação da primeira crônica da Gata Preta. 2019 não foi um ano lá muito produtivo por aqui mas consegui manter a determinação de postar pelo menos uma vez por mês. E mesmo que não as tenha contado aqui, muitas histórias eu vi, ouvi e vivi. Na escola dos dias foi um ano bem rico em aprendizados pessoais. Além disso, fui até o fim do mundo, li poesias novas e ouvi algumas músicas inéditas. Também vi filmes bons, plantei novas flores, ganhei outras tantas e renovei um pouco meu jardim. É certo que o mundo piorou um pouco neste ano e ainda estamos todos à mercê dos grandes e também dos muito pequenos líderes mundiais, do fascismo, do fundamentalismo, do populismo, do terrorismo e de não sei mais quantos ismos, e por isto, digo aqui mais uma vez, eu ainda prefiro as histórias de flores. Algumas coisas devem ter melhorado também, mas o que é bom não dá Ibope nem twitter nem Facebook etc, e também por isto eu ainda prefiro as histórias de flores, mesmo que elas não vençam canhões (ou drones, para ser mais atual). A minha filosofia é de quintal, não tem nenhum nome e estes são tempos difíceis para os sonhadores, eu sei. Mas, quem é que pode viver sem sonhar?

O conto que escolhi para o aniversário do blog faz parte do livro “Contos Africanos”, de Ernesto Rodriguez Abad. Na edição espanhola é “Cuentos africanos para dormir el miedo” – o medo dorme quando contamos uma história – e é um brinde aos heróis da resistência que ainda acham que no mundo ainda existe algo de bom pelo que se lutar. Nem que seja só para contar uma historinha boa, inspirada em uma noite de insônia ou numa tarde calma em um fundo de quintal.

O Velho Narrador

Ninguém acreditava mais nas antigas lendas. Os narradores que se sentavam embaixo do baobá a desemaranhar longas histórias, protegidos pelas estrelas, já tinham partido quando a areia chegou.

As palavras estavam caladas.

Ninguém mais acreditava em um céu protetor. África era um enorme lençol amarelo. A areia, grão a grão, tinha construído um grande deserto. Interminável. Ninguém percebeu, ou ninguém quis se dar conta.

A desolação chegou em silêncio. Aconteceu quando os glaciais se esvaneceram em uma queixa interminável, quando os ursos e as baleias se converteram em recordação, quando as águias perderam o rumo.

O céu, cansado da torpeza da humanidade, se refugiou em outro céu, mais distante. Fugiu. Não podia mais proteger a terra.

O velho tinha visto as pessoas partirem, os mais jovens em direção ao norte, os mais fracos em direção à escuridão.

Sentiu uma nostalgia distante o invadir lentamente. O velho narrador, embaixo do último baobá, contou uma lenda antiga.

Nela, falava do nascimento das estrelas, da luz, do mundo… Mas não havia ninguém mais disposto a escutar um velho prosador. Olhou em torno, procurando algum ouvido. África, rio amarelo, estava rodeada de silêncio. Buscou uma estrela perdida, no céu só havia escuridão.

O velho apoiou as costas cansadas no tronco dolorido do baobá. Casca com casca. Pele rachada, alma dolorida.

A árvore da vida estremeceu. O vento dava rajadas contra a areia carbonizada. Tinha que partir. Sabia que tudo se acabava. O último baobá e a última voz da África iriam embora juntos. Abriu o punho. Trêmulo, contemplou a semente diminuta que havia guardado tanto tempo. A semente da esperança.

Olhou a árvore. Era o momento. Não se pode atrasar a retirada.

Separou a areia até chegar à terra. Virou a mão e, pela linha da vida, girou a semente até encontrar um sulco.

O baobá havia aberto a casca e do oculto coração brotou a água milagrosa. A árvore era a vida.

O velho voltou a fazer crescer baobás grandiosos como gigantes que beijavam as nuvens. Agora, sobre os escritórios, nos telhados, sobre as avenidas e os trens; nos beirais, sobre comércios, bancos e ministérios crescem trepadeiras coloridas. Embaixo delas, está escondida a destruição como uma lembrança dolorosa.

Entre os dedos tremeu a semente.

Diminuta e brilhante.

Nunca imaginou que sairia de lá um dragão alado,

uma sereia de ondulantes cabelos,

um sonho eterno de esperanças.

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