E enquanto o tempo não vem, e o sono não vem também

Domingo, 2 de fevereiro de 2020 (02/02/2020 – daquelas datas curiosas em que ir da esquerda pra direita ou da direita pra esquerda não faz diferença)

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Nós temos aqui, no Piauí, uma bonita estrada que leva para o litoral. Ela cruza uma região bem árida e já estava em uso há mais de um ano, na verdade, mas só há poucos dias foi oficialmente inaugurada pelo governador do estado. No final de semana da eleição de 2018, retomando umas pequenas férias interrompidas, fui pra praia. Para uma daquelas praias onde a gente se interna: Acorda cedo, caminha, toma banho de mar, uma cervejinha ou uma água de coco, escuta uma musiquinha boa, anda com os pés na areia o tempo todo, toma banho de mar de novo, vê o sol se pôr, vê a lua nascer, passeia, até descalça, se quiser, por uma vilazinha descolada à noite, relaxa e faz tudo de novo no outro dia. Um pequeno refúgio de tranquilidade no meio da sandice do mundo. Mesmo com tudo isso, voltei no domingo a tempo de cumprir minha obrigação de votar. Mais por insistência do meu marido do que por vontade própria; por mim a gente tinha ficado por lá mais um dia, mas voltei e votei. Tanto na ida como na volta, fomos por esta estrada nova, que encurta o percurso em cerca de 80 quilômetros. Prestando maior atenção, vi que na verdade, fora os primeiros 25 quilômetros de um acesso que antes era bem mais longo, entre uma pequena cidade e a próxima, aquela não era uma estrada exatamente nova, pelo menos não entre esta última cidade e o destino final. Mas serviu à propaganda do governo estadual e à captação de recursos, com toda certeza! E no fim das contas ficou bonita depois da repaginada que recebeu. Como não estava dirigindo, fui prestando atenção à paisagem, com minha câmera fotográfica na mão. Fora o asfalto, nada ali era novo para mim. Parecia mais uma viagem através do tempo, ao Piauí que eu via muitos anos atrás. Jumentos atravessando a pista, rebanhos de bode correndo assustados, porcas paridas passeando com seus leitões, galinhas ciscando nos terreiros da frente das casas, cercas de varas nas roças, currais de toras de carnaúba, poços cacimbões antigos, daqueles com roldanas e muretas ao redor, e grandes e pequenas roças de chão cinzento, queimadas por coivaras, à maneira rudimentar de sempre. De novo, mesmo, naquela paisagem de sertão, só as cisternas de captação de chuva (“cisternas da Dilma”), as antenas parabólicas nos telhados ou ao lado das casas e a quantidade impressionante de motos nos povoados. E muitos cemitérios, também. Um número inacreditável deles. Em cada pequeno povoado, pelo menos um, e em alguns eu vi até três, perfazendo um total de 23 cemitérios em menos de 70 quilômetros. Achei aquilo bem curioso e comentei que a impressão que dava é que, somando todos aqueles túmulos dos mortos e todas as casas dos vivos, talvez a população dos mortos ganhasse. Parece que ao longo daquela estrada, mais se morre do que se vive. Acabei me lembrando, com isso, de uns versos do Carlos Pena Filho: “que o que há de bom por aqui / na terra do não chover / é que não se espera a morte / pois se está sempre a morrer”. É de um bonito e triste poema sobre a seca e sobre a vida dos sertanejos nordestinos, em geral, na perspectiva de um boi, o boi Serapião. Assim como o Morte e Vida Severina, destaca todo o conformismo e a desesperança desse povo em relação às suas vidas.

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Já disse aqui algumas vezes que uma parte grande da minha infância foi passada em uma fazenda do sertão nordestino e lá, na privilegiada posição de expectadora curiosa que eu era, vi de perto muito do que envolvia a vida das pessoas do campo naquela época. Mortes prematuras de adultos e crianças, seca, fome, doenças, miséria, falta de infraestrutura sanitária básica, subempregos… a maioria daquele povo apenas subsistia, e mal. Assisti de perto, ao longo dos anos, o que até então eu só conhecia das aulas de geografia: o êxodo rural. A cada vez que chegava lá, tinha menos gente morando, mais casas abandonadas, mais famílias migrando para as cidades grandes, na eterna busca por melhores condições de vida. Vi aquelas terras pouco a pouco esvaziarem-se de gente. Vi governos sucederem-se, a luz rural chegar, a criação de paliativos temporários como as Frentes de Emergência, para garantir alguma subsistência na seca, as campanhas para arrecadação de alimentos, o surgimento dos grandes programas sociais para o combate à fome e à miséria, como o Comunidade Solidária, o Fome Zero e o seu sucessor mais progressista, por assim dizer, o Bolsa Família. E vi, também, as casas habitadas restantes cercarem-se de antenas parabólicas, cisternas da Dilma e motos na entrada. Só não vi serem resolvidos efetivamente os problemas que perpetuam essa mesma fome e essa mesma miséria.

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Luiz Gonzaga desde muito tempo atrás já cantava o sertanejo nordestino como um ente valente, persistente e, feliz ou infelizmente, um crente ( e isto é só uma rima, não uma solução). Um crente nas coisas de Deus e nas promessas dos homens – até isso ele cantava. E já temia pelo seu destino moral, também. Um povo de valores simples e antigos que foi perdendo de forma gradativa a força, a coragem e a disposição, e que se acostumou a viver ao Deus (ou, pior ainda, ao Governo) dará, apenas repetindo o destino da geração anterior, que repetiu o da anterior, seguindo assim numa contagem para trás a perder de vista, seja no incerto destino de retirante ou na teimosa permanência sem expectativa de dias melhores. O impacto social e econômico disso tudo, tanto para o campo como para a cidade, todos conhecem. No grande universo desta situação, são relativamente poucas as histórias que terminaram melhor do que começaram.

Tem uma frase antiga, atribuída a um político inglês do século XIX, Benjamin Disraeli, que diz que “existem três espécies de mentiras: mentiras, mentiras deslavadas e estatísticas”. Não sei o contexto em que foi dita, uso perigosamente apenas como um chiste, aqui, e acrescento que acredito na estatística como a ciência verdadeira que é, mas vejo, hoje mais do que nunca, as verdades cada vez mais adulteradas, editadas sob interesses particulares, sejam eles individuais, partidários ou governamentais, e a dificuldade em se confiar em qualquer fonte. Por não saber mais no que confiar, não me perco mais em análises do que eu não sei ou não entendo e evito fazer pré-julgamentos e comentários. Não sei mais dos dados da fome, nem dos indicadores de pobreza, saúde, educação etc. Falo só do que conheço bem ou vejo por mim mesma, e o que eu tenho visto é a mentira reeditando a si própria e as verdades sendo subvertidas à busca, não da razão, como querem os mais exaltados, mas do poder e suas benécias, como nunca deixou de ser. No vale tudo desta briga, o princípio deve ser o do Príncipe, no qual os fins justificam os meios, não é assim? Justificaria a guerra suja que nós vimos no último período eleitoral e serve aos dois pólos políticos do mundo. Revoluções (ou golpes, tomadas de poder, sei lá… cada um chama como quer) de direita e de esquerda foram quase sempre feitas sob este princípio, no mundo inteiro. A construção de um mundo melhor sempre esteve pretensamente entre os altos ideais da humanidade e foi nestas alturas que ganharam corpo as grandes e revolucionárias ideologias políticas que o século XIX sedimentou e o século XX viu subir ao céu (ou descer ao inferno, dependendo de onde se olha) e depois voltar para a terra, pro plano da vida real, mesmo, onde as ideologias e as boas intenções – quando existem – acabam todas se perdendo nos corredores e gabinetes dos palácios governamentais do mundo e na condição humana de seus personagens frequentadores.

Deve haver alternância no poder – eu concordo. É preciso mudar, sobretudo o que deu desastrosamente errado, para dizer o mínimo – com certeza! Ainda assim eu não consegui votar em ninguém na última eleição, embora torça, mesmo assim, para as mudanças acontecerem (estão acontecendo) e darem certo (algumas, parece que até estão). Só que, a despeito da esperança que eu ainda tenho, o espetáculo circense a que eu assisto hoje, nesta nossa república bananeira do Brasil, para mim tem sido só uma variação daqueles a que assisti nos anos e governos passados, aqui incluídos os mestres de cerimônia. Prepotência, arrogância e muita pirotecnia ainda têm acompanhado cada apresentação ao respeitável público do Brasil. E quando olho, mesmo de longe, para esse picadeiro, só consigo me lembrar daquela nova estrada velha, que passa por onde os bichos ainda andam soltos e onde chegou água, luz e motos. E chegou a internet e a televisão, mas não a saúde e a educação e o trabalho de mínima qualidade. Onde o povo ainda vive à mercê dos péssimos representantes e governantes que ele mesmo elege. Por ignorância, comodismo ou mau costume, mesmo, e vai alimentando, assim, um ciclo que parece não ter fim. Ainda olho para tudo isso de fora, agora na confortável e privilegiada situação de quem passa de carro a caminho da praia e não tenho, portanto, como medir as dificuldades e o sofrimento daquele povo. Mas sei da minha própria descrença, no entanto. O sertão, mestre Lua, ainda continua, em grande parte, ao Deus dará. Seus campos são ainda os mesmos do Boi Serapião que, com estrada ou sem estrada, terminou suas memórias lembrando-se deles assim: “este campo, / vasto e cinzento / não tem entrar nem sair / e nem de longe imagina / as coisas que estão por vir, / e enquanto o tempo não vem / nem chega o milho ao paiol / solenemente mastigo / areia, pedras e sol”.

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