Só os pássaros são felizes – parte 1

Domingo, 15 de março de 2020 ( com corona ou sem corona, o mundo não é mais um banho de alegria num mundo de água quente)

Prancheta 1 cópia 7

Só os mais antigos entenderão a referência acima, mas, de coronavírus já tem gente demais falando demais. De vez em quando eu dou uma travada, por aqui, e estava em lua de mel com uma lente fotográfica nova, mas a câmera foi pro conserto, então, cá estou eu de volta. E hoje eu vou falar é de ninhos. É tempo de chuva e de filhotes, e meu quintal está cheinho deles.

Ficar à toa na vida, principalmente no meu quintal, é outro daqueles luxos não-convencionais que eu faço questão de ter. Com minha câmera na mão eu já consegui capturar, ali, alguns momentos bonitos de bichos da espécie humana e de outros que não pertencem a ela, também. Atualmente são bem poucos os bichos humanos que frequentam o meu quintal, mas para os outros bichos ele está sempre aberto (embora preferisse manter longe as aranhas caranguejeiras), e esses bichos me dão um espetáculo particular a cada dia. Em especial, os pássaros. O tempo das chuvas é o tempo de fartura para eles: Insetos incontáveis, frutinhas silvestres e cultivadas, lagartas, flores de todo tipo… A natureza que os governa sabe disso e é nessa época, principalmente, que nascem os filhotes. São muitas as espécies que aparecem por aqui e eu ando encontrando tempo para prestar atenção a elas.

No último domingo, um daqueles bem tranquilos e desocupados de obrigações, tive a grande sorte (para mim,pelo menos, foi) de acompanhar a saída dos filhotes de um ninho de garrinchas que fica na minha varanda. Eram quatro filhotes, no total, e eu assisti ao primeiro vôo de dois deles. Seus pais são inquilinos antigos e habituais de uma casinha de pássaros que deixo pendurada por lá e que eles ocupam com filhotes umas três vezes por ano. Eu aproveito e tiro fotos à vontade, nem se assustar comigo eles se assustam mais. O protocolo, por assim dizer, foi igual em todas as vezes mas eu nunca tinha visto os filhotes deixando o ninho. Os pais, que antes entravam o tempo todo para dar comida e limpar o ninho (eles tiram os cocôs no bico), ficam bem próximos, cantando e incentivando os filhotes a sair. Os filhotes começam a reclamar lá de dentro, porque estão acostumados à comida fácil o tempo todo. Os pais vão até a porta mas não levam mais a comida. Metem a cara lá dentro e voam para fora novamente. Os filhotes começam a colocar, um de cada vez, primeiro o bico, depois a cabeça, depois a maior parte do corpo, até que criam coragem e dão um primeiro vôo pequeno. Os pais voam para bem perto deles nessa hora, continuam estimulando com o canto e tentando protegê-los do que se aproximar (eu tentei). Aos poucos os filhotes vão ganhando confiança e começam a acompanhar os pais em tudo: se sacodem as asas, eles sacodem também. Pulam um galho e os filhotes, tentando não perder o equilíbrio, pulam também. Descem para o chão e ensaiam ciscar a terra, os filhotes atrás, prestando atenção. Por mim teria passado o dia inteiro assistindo a isso, mas tive que sair e quando voltei à tarde apenas os escutei nas árvores próximas, pedindo comida aos pais. Eles estavam assim até hoje à tarde, com os pais acompanhando bem de perto.

Rolinhas também fazem seus ninhos por aqui, nas árvores e nos beirais do telhado. Nunca as vi alimentando os filhotes mas, nesta semana que passou, vi uma família delas já fora do ninho, empoleirada em uma árvore num fim de tarde. Os dois pais estavam um de cada lado, com dois filhotes entre eles. Os filhotes, acho que ainda acostumados ao ninho, tentavam se empoleirar em cima um do outro, entrar embaixo dos pais, bicavam um ao outro… os pais, com pequenas “broncas” e bicadas, faziam um esforço tremendo para manter os dois quietos e entre eles, numa atitude de total proteção. Anoiteceram assim.

E tem os pardais, que são abundantes e os filhotes, muito fofinhos. Já tinha visto os pais alimentando os filhos nas árvores, mas nunca no chão, onde meu marido joga comida para os pássaros todos os dias. No domingo passado tinha uns filhotinhos no meio deles. A mãe e o pai ficavam numa movimentação frenética, alternando entre comer sua parte e dar comida aos pequenos, que saracoteavam atrás deles. A cara de pidões deles atrás dos pais é impagável! E sobre eles eu ainda tenho uma história fofinha: quando me mudei para o condomínio, uns dez anos atrás, meu filho e um primo encontraram um filhote que tinha caído durante os primeiros vôos, duas ruas depois da nossa. Levaram para casa e como já era final de tarde eu coloquei numa caixa, numa sala do segundo andar da casa, para no outro dia procurar o ninho na outra rua. Quando me levantei no outro dia, os pais tinham entrado pela janela da cozinha e estavam dentro de casa, tentando fazer o filhote voar para fora. Abri o janelão da sala e lá se foi ele embora, dando pequenos vôos pelos telhados, acompanhando os pais. Foi uma cena que guardei para contar pros meus netos.

Outro habitante do nosso quintal é um canário que eu batizei (a gente faz isso seguindo algumas brincadeiras familiares) de Ariano. Todos os dias, quando meu marido joga a comida deles, no jardim, Ariano é o mais desesperado para comer e sempre o primeiro a chegar. Se a comida demorar ele começa a dar vôos rasantes sobre nós. É uma graça de se ver. Na última semana Ariano apareceu com um filhote muito fofo, já voando com desenvoltura. Nos últimos três dias fiquei seguindo os dois e vi que o filhote também imita tudo que o pai faz. Onde o pai anda ele vai atrás, do céu ao chão, e a única coisa que não consegue fazer é se aproximar muito. Se ele se chegar perto demais, o pai “briga” e muda de lugar. Algo como “te vira, eu já te ensinei como se faz, agora a bola agora é tua”.

E tem o Gerald, também. Gerald é um filhote de sabiá que também cresceu por aqui e hoje vive pelo jardim no fim da tarde e de manhã cedo. Nós demos a ele esse nome em homenagem ao personagem Gerald, do Whindersson Nunes, que é uma criança mimada e super protegida pelos pais. O nosso Gerald também era assim; ele já tinha quase o tamanho dos pais e ainda era alimentado no bico por um deles, todos os dias, com suculentas lagartas, minhocas e outros petiscos. Passou vários dias assim até comer por sua própria conta. Claro que isso pode ser especulação da nossa fértil e inspirada imaginação, mas era o que parecia. Ficou a lenda, de qualquer forma. E também o nome e o sabiá, que não sai mais daqui. Tive a impressão que ele até já arrumou uma namorada, porque agora só aparece acompanhado.

E todas essas historinhas bobinhas e frufuzinhas, de quintal, são só para falar de outra bonita crônica do Rubem Alves que li outro dia, na qual ele fala sobre a necessidade de se empurrar os filhos para fora do ninho quando chega a época de voarem por si sós. É uma crônica de precisão, não cirúrgica, mas anatomopatológica, que disseca a nós, pais, até o que temos de mais profundo em relação aos nossos filhos, sobretudo quando nos deparamos com a realidade da independência deles. Não falarei mais porque vou colocar a crônica a seguir, e ela fala por si com muito mais eloquência do que eu conseguiria, mas quero dizer que cada vez mais percebo como é sábia a natureza dos bichos não-humanos. E como seria bom se tivéssemos a facilidade que eles têm de aceitar o próprio papel no ciclo da vida, da maneira como deve ser. De aceitar que, do nosso importante protagonismo inicial na vida dos nossos filhos, vamos aos poucos passando para os papéis coadjuvantes, até chegarmos ao ponto de meros expectadores, assistindo atentamente, da plateia, enquanto a vida segue sua lei natural de fases e mudanças. Os pássaros nada sabem de filosofia mas os filósofos da antiguidade devem ter prestado muita atenção a eles. Eles intuem este movimento, a correnteza do rio, este fluxo constante que nem todo o esforço e nem a mais alta engenharia do mundo conseguirá interromper nem fará passar pelo mesmo lugar novamente. Tudo isso os pássaros ensinam, e eles parecem ser felizes assim. Mas os pássaros nada sabem de saudade, também. E ainda hoje, com dois filhos adultos e voando por aí livremente, as noites mais tranquilas, em que eu tenho mais paz de espírito, ainda são as que eu sei que eles estão dormindo em seus quartos na nossa casa, a uma ou duas portas de distância.

A seguir, Rubem Alves em uma das maiores verdades que eu li até hoje, de pais, sobre os filhos.

É preciso empurrar o filho para fora do ninho” – Por Rubem Alves

Sei que é inevitável e bom que os filhos deixem de ser crianças e abandonem a proteção do ninho. Eu mesmo sempre os empurrei para fora. Sei que é inevitável que eles voem em todas as direções como andorinhas adoidadas.

Sei que é inevitável que eles construam seus próprios ninhos e eu fique como o ninho abandonado no alto da palmeira… Mas, o que eu queria, mesmo, era poder fazê-los de novo dormir no meu colo…

Existem muitos jeitos de voar. Até mesmo o voo dos filhos ocorre por etapas. O desmame, os primeiros passos, o primeiro dia na escola, a primeira dormida fora de casa, a primeira viagem…

Desde o nascimento de nossos filhos temos a oportunidade de aprender sobre esse estranho movimento de ir e vir, segurar e soltar, acolher e libertar. Nem sempre percebemos que esses momentos tão singelos são pequenos ensinamentos sobre o exercício da liberdade.

Mas chega um momento em que a realidade bate à porta e escancara novas verdades difíceis de encarar. É o grito da independência, a força da vida em movimento, o poder do tempo que tudo transforma.

É quando nos damos conta de que nossos filhos cresceram e apesar de insistirmos em ocupar o lugar de destaque, eles sentem urgência de conquistar o mundo longe de nós. É chegado então o tempo de recolher nossas asas. Aprender a abraçar à distância, comemorar vitórias das quais não participamos diretamente, apoiar decisões que caminham para longe. Isso é amor.

Muitas vezes, confundimos amor com dependência. Sentimos erroneamente que se nossos filhos voarem livres não nos amarão mais. Criamos situações desnecessárias para mostrar o quanto somos imprescindíveis. Fazemos questão de apontar alguma situação que demande um conselho ou uma orientação nossa, porque no fundo o que precisamos é sentir que ainda somos amados.Muitas vezes confundimos amor com segurança. Por excesso de zelo ou proteção cortamos as asas de nossos filhos. Impedimos que eles busquem respostas próprias e vivam seus sonhos em vez dos nossos. Temos tanta certeza de que sabemos mais do que eles, que o porto seguro vira uma âncora que impede-os de navegar nas ondas de seu próprio destino.

Muitas vezes confundimos amor com apego. Ansiamos por congelar o tempo que tudo transforma.

Ficamos grudados no medo de perder, evitando assim o fluxo natural da vida. Respiramos menos, pois não cabem em nosso corpo os ventos da mudança. Aprendo que o amor nada tem a ver com apego, segurança ou dependência, embora tantas vezes eu me confunda. Não adianta querer que seja diferente: o amor é alado.

Aprendo que a vida é feita de constantes mortes cotidianas, lambuzadas de sabor doce e amargo. Cada fim venta um começo. Cada ponto final abre espaço para uma nova frase. Aprendo que tudo passa menos o movimento. É nele que podemos pousar nosso descanso e nossa fé, porque ele é eterno.

Aprendo que existe uma criança em mim que ao ver meus filhos crescidos, se assusta por não saber o que fazer. Mas é muito melhor ser livre do que imprescindível. Aprendo que é preciso ter coragem para voar e deixar voar. E não há estrada mais bela do que essa.

P.S.: Esta crônica é para uma irmã que é caloura no tema.

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