Para ir tocando a vida

Sábado, 15 de agosto de 2020 (e lá se foi a metade do ano e com ela muitos se foram também…)

Ontem à noite, pela primeira vez desde o início da quarentena, recebemos amigos em casa. Até ontem só tínhamos recebido, esporadicamente, com todos os cuidados e por partes, nossas famílias. O pequeno grupo (dois casais, além de nós) que veio ontem faz parte do nosso núcleo mais restrito de amigos. São daqueles que estão conosco em tudo desde muito tempo atrás – amigos de fé, como diria o Rei. Ficamos no quintal, respeitando as distâncias mínimas, jantamos lá mesmo, ao ar livre e com a comida sendo passada através da janela da cozinha. Não houve abraços nem beijos nem outro contato mais próximo e isso por si só já foi estranho, mas nós conversamos e rimos muito até de madrugada, falando da vida, contando novidades, lembrando até das nossas primeiras saídas juntos. Lá pelo final da noite alguém se lembrou também, que o nosso último encontro tinha sido justamente aqui em casa, numa outra sexta-feira, na semana que entramos em quarentena, mais de quatro meses atrás. Tomamos como um bom sinal e fizemos um brinde a isso.

Nestes últimos cinco meses, perdemos muito e perdemos muitos. Batemos, no Brasil, a marca dos 100.000 mortos e as previsões mais pessimistas acreditam que ainda chegaremos aos 200.000 antes de chegarmos à vacina. Passamos pelo terremoto, ainda assistimos ao tsunami e a próxima etapa será trabalhar para consertar a devastação causada por ele, com a dura certeza de que isto não inclui, infelizmente, as cento e muitas mil vidas que se perderam e se perderão ainda. Vivemos todos um momento difícil, de adaptação a muitas regras e práticas novas para um futuro que, mais do que nunca, mostra-se incerto para todos. Apesar disso tudo, nós – eu, que estou escrevendo, e você, que está lendo – sobrevivemos. Bem ou mal, ainda estamos aqui, vivendo, contando, ouvindo e recordando histórias. E, bem ou mal, com perspectivas de mais para viver. No alvorecer do novo normal (aquele mesmo arrepio seguido de náusea), a quase tudo a gente pode se adaptar. O importante é estar respirando, o importante é viver… e viver é manter em nós mesmos, o essencial. E isso inclui, às vezes, da maneira que se pode hoje, ouvir uma orquestra tocar e fazer, com quem nos importa, um brinde à própria vida. 

E esta foi só uma introdução para uma crônica legal que recebi de um irmão nesta semana. Hoje o espaço é dele.

O Primeiro Drive-in

(Por Asdrúbal Borges Formiga Sobrinho)

Depois de quase cinco meses sem um evento coletivo fora de casa e sem o uso de telas e depois de resistir por algumas semanas, ontem resolvi ir escutar a orquestra de Brasília num Drive-in.

Tive que me preparar, pois jamais havia imaginado prestigiar a orquestra de dentro do carro, com um telão complementando e utilizando buzina e faróis para aplaudir. A primeira vez em que vi a orquestra tocar foi assim que cheguei em Brasília. Os amigos que já moravam aqui comentaram que a apresentação era gratuita. Então, peguei um ônibus quando saí do cursinho, desci na rodoviária do Plano Piloto e segui para o Teatro Nacional, onde iria encarar uma fila por mais de uma hora. Afinal, a entrada era gratuita e valia a pena garantir um bom lugar. A fila acabou sendo divertida. As pessoas conversavam, brincavam, interagiam de alguma maneira. Chegando na bela sala Villa Lobos, até me esqueci da fila e esperei pelo fascínio de ver uma orquestra ao vivo, num teatro então tão maravilhoso. A experiência se repetiu durante as noites de terça-feira nas quais não me incomodava com o fato de voltar pra casa de ônibus ou mesmo caminhando. O espaço virou um dos meus locais favoritos também para peças e alguns shows. Porém, na última vez em que estive lá, vi o carpete velho, o estofado das cadeiras desgastado e outros sinais de abandono mencionados por Glória Menezes, ao final da apresentação. Fui tomado por um misto de vergonha e tristeza e parei de frequentar o maravilhoso local antes mesmo que fosse fechado para uma reforma que já é prometida há seis anos. Para meu consolo, já havia outros centros culturais na cidade e a orquestra já se apresentava no Cine Brasília – que também andou abandonado, mas foi reformado – e em outros auditórios e espaços da cidade. Até no parque ao lado do meu prédio já houve apresentação que acompanhei apenas da janela e foi maravilhosa mesmo assim, tocando trilhas de filmes. A última vez em que assisti a orquestra foi na igreja Dom Bosco. Mesmo diante de eventuais limitações acústicas que não comprometeriam o evento, achei que um lugar para rezar, mesmo não sendo tão belo quanto a igreja chamada de azul pelo efeito da luz sobre seus vitrais, definitivamente poderia ser um local para apresentação da orquestra. Para mim, assistir – ou seja, escutar aquele tipo de música, ao vivo – é como fazer prece. Quero apenas estar num espaço que permita deixar a música tomar conta de mim. 

Com tudo isso, não sei bem por que vou tão pouco para as apresentações gratuitas da orquestra. Talvez tenha escolhido eventos no teatro e no cinema, principalmente durante o fim de semana. Porém, com o isolamento causado pela pandemia, todos esses eventos foram suspensos e começaram a retornar no último mês, no formato “drive-in”. Então, resolvi dar uma chance e me adaptar, pois os eventos “regulares” ainda não têm data pra retornar. Além do mais, este seria num dos meus locais favoritos da cidade, o Centro Cultural do Banco do Brasil, mas sem que eu pudesse descer do carro para não mais que ir ao banheiro. No início, foi estranho, pois quando vi a orquestra pela primeira vez, nem carro eu tinha e até o início deste ano, não imaginava assistir a apresentação de um grande estacionamento. Mas lá estava a orquestra, num palco acompanhado por dois telões e com transmissão pelo rádio do carro. Tocaram músicas clássicas, caipiras (tão belas quando orquestradas), Beatles, Legião Urbana (banda tão idolatrada em Brasília) e, por fim, trilhas de filmes. Eis uma boa mistura de motores para sonhos: música com cinema. Poderiam estar sem os telões, mesmo na sequência dedicada ao maestro Ennio Morricone, que partiu deste mundo recentemente e nos deixou seu belo legado. Neste se inclui a trilha do que o maestro da orquestra chamou de um dos principais filmes da história do cinema: Cinema Paradiso. Como meu companheiro, que também teve ontem sua primeira experiência num drive-in, ainda não assistiu ao filme, não foi difícil me dispor a assistir novamente aquela emocionante história. Há muitas outras ainda possíveis de assistirmos em casa, enquanto os cinemas não reabrem. Quem sabe eu também volte a escutar mais trilhas sonoras de filmes, hábito que começou em minha adolescência, quando o acesso a esta modalidade de produção musical era por intermédio de um colega generoso que gravava fitas com o que eu escolhia do acervo musical de seu pai. Quando mais jovem, circulando em São Paulo, descobri uma pequena loja de CDs diferenciada pelo acervo de trilhas sonoras de filmes. Era pequena, escondida numa galeria comercial paralela à Avenida Paulista, mas em suas gavetas, aqueles simpáticos vendedores encontravam até o que eu nem sabia que queria. Acabei conhecendo o dono e, cada vez que gostava de trilha de um filme, entrava em contato e, se ele não tivesse o CD, mandava buscar em algum lugar. Já chegou a enviar para mim antes mesmo de eu saber que tinha conseguido encontrar e também antes de eu fazer o pagamento. Com a internet, ele acabou fechando a loja e mantendo um comércio virtual pouco expressivo, tendo a vida dele mudado muito, antes mesmo da nossa. Hoje temos contato via Facebook e ainda não consegui marcar um café com ele quando fui a São Paulo, mas ainda sou fã daquele sujeito que buscava trilhas de filmes hoje disponíveis no Youtube, Spotify ou outras plataformas. Estas já haviam substituído alguns dos meus passeios porque inclusive lojas de CDs comuns foram fechadas. Também continuo sendo fã da orquestra, mesmo sem manter uma regularidade de presença nas apresentações. E, claro, ainda sou fã de cinema, que realmente frequentava toda semana, e de trilhas sonoras de filmes, que ainda ando buscando, sem vasculhar prateleiras ou – no caso daquela loja – gavetas, e também sem o intermédio do dono da loja ou de seus vendedores. Porém, preciso esperar pela reabertura de cinemas e teatros, e me contentar com o modelo drive-in, mas sem que isso estrague as emoções e os sonhos que imagens, músicas e histórias podem trazer. Aliás, músicas, filmes e sonhos podem ajudar a muito a aguentar tudo o que a humanidade anda passando neste período, mesmo em estacionamentos de centros culturais onde inclusive o maestro falou “Vamos sair juntos dessa!”.

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