Aos mestres, com carinho

Quinta-feira, 15 de outubro de 2020 (tempo de férias, vamos à escola!)

15 de outubro, dia do professor. Uma das datas comemorativas mais populares no tempo da minha vida escolar. Era sempre um evento naqueles tempos que já longe vão…

Sempre que penso em professores, tem três dos meus que me vêm imediatamente à memória. Uma foi minha professora da primeira série primária, a Irmã Carmelita. Era uma freira pequenininha, muito doce e muito delicada, que talvez tenha ficado na minha memória somente por isso, e também porque gostava muito de mim. E talvez também porque comandou um bingo – o primeiro e único que ganhei na vida – cujo prêmio foi um dos primeiros livros de que tenho memória, A Sementinha Bailarina. Fincou a semente do hábito da leitura e deixou a lembrança do hábito da freira, do qual ainda consigo me lembrar até a maciez. Outro professor marcante na minha vida foi um padre – Pe. Florêncio – que é uma verdadeira lenda na minha cidade. Fui sua aluna já no terceiro ano do segundo grau e não aprendi nada de química com ele, mas algumas das outras lições que me ensinou, não esqueci jamais. A fé convicta dele vale uma crônica inteira, que qualquer dia desses eu vou escrever, mas hoje eu vou falar é da d. Nair, minha professora de História e  Geografia da adolescência. Ela foi minha professora da sétima série até o primeiro ano do Colegial e já era meio velha nessa época. Media em torno de 1,5 m de altura e simpatia e bom humor não eram das suas características mais marcantes. Mas, quando entrava no assunto das aulas, crescia muito em tamanho e em carisma e o entusiasmo dela contagiava. A mim pelo menos contagiou. A impressão que a gente tinha era que ela tinha presenciado cada fato ou evento que explicava ou narrava para nós (os mais maldosos diziam que ela devia ter visto aquilo pessoalmente, mesmo). Seu método para ensinar geografia era diferente: cada vez que estudávamos um continente, tínhamos que desenhar, à medida que íamos avançando no assunto, o mapa político, com os países e capitais, o hidrográfico, com todos os mares, bacias e grandes rios, o do relevo, com as cadeias de montanhas, o da vegetação etc. Isto colocou para sempre o Danúbio, o Reno e o Volga na minha mente voadora. E os Alpes, os Pirineus e os Montes Urais, também, além das capitais do mundo inteiro. Era um tempo em que saber dessas coisas importava. 

Naquele tempo o termo geopolítica ainda não era utilizado, e ainda nem se sonhava com a internet, mas ela era capaz de falar durante uma aula inteira sobre a política global, de Yasser Arafat ao aiatolá Komeini, de Ronald Reagan a Margareth Thatcher, de Kaddafi a Al Sadat… E sua aula sobre Churchill na Segunda Guerra Mundial ainda hoje reverbera nos meus ouvidos. Pensando hoje, acho que não saberia dizer se o seu pensamento político era de esquerda ou de direita; minha memória sobre ela não consegue definir isso. Aqueles eram os primeiros anos da década de 80 e, ao mesmo tempo em que me lembro dela falando da Dama de Ferro com reverência, ficou também na minha memória um sermão que ela nos deu por estarmos fazendo campanha para a eleição de um grêmio estudantil que ainda tinha o nome de um dos presidentes da ditadura. Dar lição de moral era com ela mesma e hoje em dia já acho até que isso era uma característica comum aos bons professores de antigamente. Mas foram as lições dela sobre a Antiguidade Clássica e sobre a Idade Média e o Renascimento que deixaram sua marca maior em mim. Sou hoje uma entusiasta curiosa sobre o assunto mas nenhuma narrativa que já tenha lido sobre o tema teve a riqueza das aulas que ela nos dava, com aquela vozinha estridente, cheia de agudos nas partes mais relevantes. Ainda continuo apaixonada por História até hoje e não tenho dúvidas que devo este crédito à d. Nair.

Até o tempo em que fui sua aluna ela nunca tinha saído do Brasil mas, quando visitei Roma pela primeira vez, foi dela que me lembrei primeiro. No Coliseu, pareceu que até a voz dela eu escutava, embora não tenha conseguido nunca, nem in loco, compartilhar suas impressões sobre o Forum. Quando vi de perto a Pietá, a Criação e a Capela Sistina, era um pouco através de seus olhos que olhava, eu acho. Em Florença, quando me vi frente a frente com o Davi, depois de ter quase ficado tonta de tanto dar voltas ao redor dele, foi para ela o meu agradecimento silencioso. Visitar a Uffizi, lembrar a história dos Borgia e depois, em Ravena, ver o túmulo de Dante, foi quase como um tributo a ela. Depois dessa primeira visita só voltei à Itália muitos anos depois. Novamente em Roma, já tendo visto tudo o que achei relevante ver, fiz uma última homenagem a ela: visitei o Moisés, de Michelangelo, num dos poucos lugares daquela cidade onde não se paga para entrar e, curiosamente, dá para se visitar com muita calma, sem aglomeração nem empurra-empurra de turistas. Olhei para ele de frente e bem de perto e entendi por que, como diz a lenda que ouvi pela primeira vez contada pela minha professora, Michelangelo pediu a ele que falasse. E para mim, pelo menos, ele falou. E tinha – quem diria!– a voz da d. Nair.

Quase todos os meus amigos mais chegados já me ouviram falar algum vez dessa figura. Minha família, meus filhos e meu marido enjoaram de me ouvir falar dela, acredito. É uma das minhas marcas Reg® mais antigas. Já o escritor Valter Hugo Mãe é uma referência bem nova para mim. Só li o primeiro livro dele de um ano para cá, embora já esteja na minha galeria de honra dos autores da Terrinha. Esta crônica que li dele uns meses atrás me fez ver mais uma vez o quanto de nós mesmos acabamos encontrando por aí. Eu não merecia tanto mas creio que a merecem todos os bons professores do mundo, e em especial a d. Nair, em nome da qual saúdo e parabenizo os demais. Deixo assim, no bom português de Portugal, Os Professores, de Valter Hugo Mãe.

Achei por muito tempo que ia ser professor. Tinha pensado em livros a vida inteira, era-me imperiosa a dedicação a aprender e não guardava dúvidas acerca da importância de ensinar. Lembrava-me de alguns professores como se fossem família ou amores proibidos. Tive uma professora tão bonita e simpática que me serviu de padrão de felicidade absoluta ao menos entre os meus treze e os quinze anos de idade.

A escola, como mundo completo, podia ser esse lugar perfeito de liberdade intelectual, de liberdade superior, onde cada indivíduo se vota a encontrar o seu mais genuíno, honesto, caminho. Os professores são quem ainda pode, por delicado e precioso ofício, tornar-se o caminho das pedras na porcaria do mundo em que o mundo se tem vindo a tornar.

Nunca tive exatamente de ensinar ninguém. Orientei uns cursos breves, a muito custo, e tento explicar umas clarividências ao cão que tenho há umas semanas. Sinto-me sempre mais afetivo do que efetivo na passagem do testemunho. Quero muito que o Freud, o meu cão, entenda que estabeleço regras para que tenhamos uma vida melhor, mas não suporto a tristeza dele quando lhe ralho ou o fecho meia hora na marquise. Sei perfeitamente que não tenho pedagogia, não estudei didática, não sou senão um tipo intuitivo e atabalhoado. Mas sei, e disso não tenho dúvida, que há quem saiba transmitir conhecimentos e que transmitir conhecimentos é como criar de novo aquele que os recebe.

Os alunos nascem diante dos professores, uma e outra vez. Surgem de dentro de si mesmos a partir do entusiasmo e das palavras dos professores que os transformam em melhores versões. Quantas vezes me senti outro depois de uma aula brilhante. Punha-me a caminho de casa como se tivesses crescido um palmo inteiro durante cinquenta minutos. Como se fosse muito mais gente. Cheio de um orgulho comovido por haver tantos assuntos incríveis para se discutir e por merecer que alguém os discutisse comigo.

Houve um dia, numa aula de história do sétimo ano, em que falámos das estátuas da Roma antiga. Respondi à professora, uma gorduchinha toda contente e que me deixava contente também, que eram os olhos que induziam a sensação de vida às figuras de pedra. A senhora regozijou. Disse que eu estava muito certo. Iluminei-me todo, não por ter sido o mais rápido a descortinar aquela solução, mas porque tínhamos visto imagens das estátuas mais deslumbrantes do mundo e eu estava esmagado de beleza. Quando me elogiou a resposta, a minha professora contente apenas me premiou a maravilha que era, na verdade, a capacidade de induzir maravilha que ela própria tinha. Estávamos, naquela sala de aula, ao menos nós os dois, felizes. Profundamente felizes.

Talvez estas coisas só tenham uma importância nostálgica do tempo da meninice, mas é verdade que quando estive em Florença me doíam os olhos diante das estátuas que vira em reproduções no sétimo ano da escola. E o meu coração galopava como se tivesse a cumprir uma sedução antiga, um amor que começara muito antigamente, se não inteiramente criado por uma professora, sem dúvida que potenciado e acarinhado por uma professora. Todo o amor que nos oferecem ou potenciam é a mais preciosa dádiva possível.

Dá-me isto agora porque me ando a convencer de que temos um governo que odeia o seu próprio povo. E porque me parece que perseguir e tomar os professores como má gente é destruir a nossa própria casa. Os professores são extensões óbvias dos pais, dos encarregados pela educação de algum miúdo, e massacrá-los é como pedir que não sejam capazes de cuidar da maravilha que é a meninice dos nossos miúdos, que é pior do que nos arrancarem telhas da casa, é pior do que perder a casa, é pior do que comer apenas sopa todos os dias.

Estragar os nossos miúdos é o fim do mundo. Estragar os professores, e as escolas, que são fundamentais para melhorarem os nossos miúdos, é o fim do mundo. Nas escolas reside a esperança toda de que, um dia, o mundo seja um condomínio de gente bem formada, apaziguada com a sua condição mortal mas esforçada para se transcender no alcance da felicidade. E a felicidade, disso já sabemos todos, não é individual. É obrigatoriamente uma conquista para um coletivo. Porque sozinhos por natureza andam os destituídos de afeto.

As escolas não podem ser transformadas em lugares de guerra. Os professores não podem ser reduzidos a burocratas e não são elásticos. Não é indiferente ensinar vinte ou trinta pessoas ao mesmo tempo. Os alunos não podem abdicar da maravilha nem do entusiasmo do conhecimento. E um país que forma os seus cidadãos e depois os exporta sem piedade e por qualquer preço é um país que enlouqueceu. Um país que não se ocupa com a delicada tarefa de educar, não serve para nada. Está a suicidar-se. Odeia e odeia-se.”

P S.: Esta crônica Valter Hugo Mãe escreveu para Portugal, mas poderia ter sido para o Brasil, também. Eu acho!

2 comentários em “Aos mestres, com carinho

Adicione o seu

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: