Pelo que o Marechal Deodoro disse que nos faltará sempre.

Domingo, 15 de novembro de 2020 (dia da Proclamação da República)

“Este solo é ruim para certos tipos de flores. Não nutre certo tipo de sementes, não dá certo frutos, e, quando a terra mata voluntariamente, aquiescemos e  dizemos que a vítima não tinha o direito de viver. Estamos errados, é claro, mas não tem importância. É tarde demais. Pelo menos nos limites da minha cidade entre o lixo e os girassóis da minha cidade, é muito, muito, muito, tarde.”                                                                                                                               (O Olho Mais Azul, Toni Morrison)

Proclamação da República, Benedito Calixto

Um dia eu ainda vou escrever uma crônica sobre as crônicas que eu não terminei de escrever. Meu arquivo anda cheio delas. Talvez isso aconteça quando eu tiver tempo para parar o carro para anotar uma ideia, quando o jornal do dia me der ideia para outra ou quando o vento ou a chuva me trouxer alguma lembrança boa que também valha uma. Enquanto isso não vem, vou fazendo o que dá e a preguiça deixa. Esta de hoje eu comecei a escrever mais ou menos um ano atrás, inspirada, por assim dizer, na data comemorativa de hoje. Adaptei só o contexto e finalizei, já que a data tem todos ano. 

Eu já disse aqui algumas vezes que gosto de tentar “batizar” sentimentos. Já falei de palavras e sentimentos intraduzíveis, já descrevi o sentimento do novo, já tentei descrever a sensação de um mergulho nas águas do tempo e também já falei do sentimento de mochila. Hoje eu vou falar de um outro sentimento que tem sido cada vez mais presente na meu dia a dia e ao qual eu dei o nome de tristeza de Brasil.  

Todo ano eu tenho que pensar uns instantes para me lembrar do motivo do feriado de 15 de novembro e neste ano de tormentas não foi diferente. E ainda teve as eleições… Nessas datas comemorativas sempre aparecem coisas interessantes para se ver pela internet. Pelo menos coisas curiosas, e nos recantos dela por onde eu navego. Desta vez eu assisti a um vídeo divertido de um professor de história contando as circunstâncias reais (sic) que envolveram a proclamação da República. No vídeo ele explica que o Marechal Deodoro nunca quis, de fato, proclamar a República, que ele era um monarquista convicto e que era até ligado ao Imperador d. Pedro Il.  Sobre a proclamação, consta que ele depôs em princípio apenas o ministro-chefe do Gabinete Imperial (cargo que corresponderia hoje a primeiro-ministro). Mais tarde, influenciado por um conjunto oportunista de engenhosas mentiras e de meias-verdades (que ressuscitou, inclusive, uma antiga disputa amorosa perdida pelo marechal) e temendo uma ordem de prisão que posteriormente se provaria falsa, e uma vitória do antigo desafeto e rival, ele finalmente cedeu às pressões. Levantando-se da cama em que se encontrava adoentado (e para onde voltou logo depois), vestiu-se e saiu de casa apenas o tempo necessário para fazer a proclamação de uma república na qual ele nem sequer acreditava: “Digam ao povo que a República está feita”, ele teria dito. E foi dessa maneira que a República dos Estados Unidos do Brasil foi proclamada em 15 de novembro de 1889.

Tendo sido estudante nos anos 70 e 80 e crescendo com aquele quadro da Proclamação da República como pano de fundo para este fato e com o Mal. Deodoro como herói nacional, eu tinha que pesquisar mais a respeito. Esta versão do professor tem na Wikipedia e não sei se foi a fonte consultada por ele para fazer sua aula teatral, mas de lá eu ainda saí escarafunchando até chegar numa carta que o marechal escreveu para um sobrinho, cadete militar com ideias republicanas, que integrava a chamada “mocidade militar”, liderada por Benjamin Constant. Na carta ele o advertia sobre o movimento: “Não te metas em questões republicanas, porque República no Brasil e desgraça completa é a mesma coisa; os brasileiros nunca se prepararão para isso, porque sempre lhes faltarão educação e respeito.’

Acompanhando hoje, com o costumeiro interesse conformado, o resultado da grande festa da democracia no Brasil, eu me lembrei de outro daqueles fatos antigos, do fundo do meu baú de irrelevâncias: Quando eu era adolescente, na escola onde estudei em Minas era obrigatório desfilar no dia 7 de setembro. No ensaio, lembro demais que tinha uma hora que a gente tinha que ficar “marcando passo”. Até hoje eu ainda consigo fazer todos os movimentos: A gente fazia a contagem dos passos, flexionando uma perna de cada vez, levantando apenas o calcanhar, sem tirar a ponta do pé do chão e sem sair do lugar, e depois, ao aviso do professor (geralmente o de educação física), começava a marchar de verdade. Tudo isso era marcado pelo compasso da fanfarra (banda) e a parada para marcação de passo era para ser feita nas viradas de rua e na frente do palanque das autoridades. Cada parada implicava em expectativa para começar tudo de novo. Não acredito que isso tenha me tornado nem mais nem menos patriota e minha tristeza de Brasil hoje resume-se mais ou menos nisso: ver que mesmo depois de passado tanto tempo do Descobrimento, da Proclamação da Independência, da Proclamação da República, só para citar o mais relevante, ainda continuamos marcando passo a cada virada de direção e a cada palanque montado no trajeto. O Brasil parece seguir em pulsos de marcha de batalhão. E o brasileiro, lembrando mais uma vez o Nelson Rodrigues, tem alma de cachorro que segue o batalhão. Nós somos todos plateia, acompanhando, vaiando ou ovacionando quando a banda passa, cantando coisas de amor ou não. 

De tudo isso eu me lembrei acompanhando hoje os resultados da grande festa da democracia. Com tudo que o Marechal Deodoro disse que nos falta, numa República que foi proclamada quase com base em mentiras e em nome do orgulho ferido por uma antiga batalha amorosa perdida – e esta é apenas uma simplificação que me convém, aqui – eu só me lembrei foi do Renato Russo: — Que país é esse?

4 comentários em “Pelo que o Marechal Deodoro disse que nos faltará sempre.

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