O dia em que eu me atrevi a resenhar Marcel Proust

Domingo, 22 de novembro de 2020 (porque não temos tempo a perder)

“E compreendi que a matéria da obra literária era, afinal, minha vida passada.”

– Marcel Proust, O Tempo Redescoberto (volume 7 de Em Busca do Tempo Perdido)

Esta crônica de hoje eu escrevi alguns anos atrás quando terminei de ler Em Busca do Tempo Perdido,do Proust. Não imediatamente, mas assim que me recuperei do impacto que foi para mim. Hoje, revendo algumas passagens do livro, tive vontade de publicá-la aqui. A primeira postagem foi no Facebook e aquele não é, definitivamente, um local legal para este tipo de coisa. Mas eu gosto de postar e de falar do que é bom e aproveito o livre (cof, cof) arbítrio que a internet nos dá para isso, a despeito das interpretações errôneas. Aqui, no entanto, sinto-me ainda mais à vontade para falar do que quiser e hoje eu queria falar do Tempo Perdido. E aí vai.


Terminei de ler, no começo do mês passado, Em Busca do Tempo Perdido, do Proust – À la Recherche du Temps Perdu, ou La Recherche, como é conhecido nos meios acadêmicos pelo mundo. Para mim, simplesmente e para sempre, O Tempo Perdido. Como sempre acontece quando leio alguma literatura estrangeira excepcional, tive vontade de poder fazer isso na língua original do autor, de preferência como nativa. A edição que eu li, felizmente, foi a da Editora Globo, traduzida, em sua maior parte, por Mário Quintana, Carlos Drummond de Andrade e Manuel Bandeira. Nada mais justo e reconfortante: é preciso, mesmo, ser muito poeta para se traduzir outro, e a prosa do Proust é, numa boa parte do tempo, poesia pura. Prometi que não resenharia o livro, em nome da humildade de quem conhece suas limitações e reconhece a própria pequenez (e isto não é, nem teria como ser, falsa modéstia) diante de uma obra literária monumental como essa. Mas, a promessa sucumbiu à vontade de escrever sobre o que vale a pena. Não resisti a dar a minha impressão e aí vai ela, apenas uma resenha leiga.


Ler as quase quatro mil páginas dos sete volumes que compõem este livro era um projeto antigo, meu e do meu marido. Além de aparecer em toda lista de “livros que você não pode morrer sem ler etc”, sempre achei o título sugestivo  – o tempo é meu tema preferido. Comprei o primeiro volume e comecei a ler primeiro, seguindo um antigo trato nosso de não dar spoilers. Não funcionou! Logo nas primeiras páginas tem uma passagem tão bonita que eu pedi, por favor, para ler em voz alta, alegando que só aquilo ali já valeria o livro, para mim. Eu li o trecho umas dez vezes, antes de seguir adiante, e, embora tenha sido uma das mais marcantes passagens do romance (o próprio autor volta a ela várias vezes nos volumes subsequentes), foi só a primeira de uma série do que eu posso seguramente chamar de o livro da minha vida. 


Foram três anos e meio para ler tudo. Eu já sabia que seria difícil, mas dois anos era a minha idéia inicial. Também aqui não funcionou o plano. Primeiro porque o livro é muito denso, muitas vezes enfadonho, e a linguagem, embora perfeita, é difícil! Foi preciso intercalar coisas mais leves entre um e outro. 


Para o segundo motivo, abro antes um parêntese. Um dia desses li que, ao escrever o livro,  Proust tinha em mente um ato absoluto de conhecimento: o conhecimento do outro. A sensação que fica é exatamente esta! No último volume, inclusive, fazendo uma autocrítica de sua vida, partir de uma certa época dela, o próprio herói lamenta ter sido incapaz de ver as pessoas nos seus encantos aparentes, de não ter reparado nos seus colares de pérolas negras etc, e de não ter prestado a devida atenção às coisas banais que diziam, porque o que ele perseguia, na verdade, “situava-se a certa profundidade, para além da aparência (…) não via as pessoas presentes, porque as radiografava quando cria olhá-las”. E foi isso ele fez, mesmo, uma radiografia da natureza humana. Não só radiografou como dissecou-a a fundo.  A análise que ele nos faz ali não é fácil de ser encarada e por isso empaquei muitas vezes durante a leitura, às vezes até durante dias. A impressão que se tem é a de ser desnudado. Você consegue ver a si mesmo, ora em um, ora em outro personagem – ou circunstância –, assim como todos os seus amigos, os seus desafetos e todo mundo que você conhece. Estávamos todos, lá, na França de cem anos atrás, como estivemos na Grécia Antiga, há três mil anos, e como ainda estaremos, em alguma megalópole do futuro, se a humanidade perseverar e resistir a si própria.


Tudo isso foi, no entanto, apenas o material e o método utilizados porque o grande objeto da pesquisa do Proust foi, na verdade, o tempo. Analisando retrospectivamente você vê que é o tempo quem, não só protagoniza como também dirige o romance. Dali se entende que tudo na vida é sobre ele e é ele quem tudo controla; se por um lado ninguém consegue fugir à própria natureza, por outro, somente ao tempo a natureza se curva. Nós, com toda a nossa poderosa natureza humana – esta triste e milenar herança – somos simples atores a quem o grande diretor se empresta e se toma de volta um dia. O Marcel autobiográfico do livro é tão somente o narrador que o tempo utiliza para contar a história. E que história tão bem contada! Os caprichosos detalhes da ativação da memória involuntária – outro grande elemento do romance – através dos cheiros, dos sabores, das flores, das paisagens, das cores dos crepúsculos… a justificação da vida pela própria infância, a relação com a mãe… a metaforização das vidas dos personagens através da pintura, da música, da própria literatura, em inúmeras referências artísticas… tudo isso muitas vezes formando uma mistura, arrisco dizer, de Freud com Nietzsche, numa escrita de estilo irretocável! Eu passaria dias falando sobre isso, mas só mesmo lendo para se entender! Proust teve, ao que parece, uma epifania! Ele escreveu o último capítulo imediatamente depois do primeiro (”A idéia do fim veio em simultâneo com o delírio que provocou o arranque”, alguém falou), embora o recheio entre os dois tenha levado um tempo de quatorze anos. No fim do romance, em outra série de invocações involuntárias da memória, o herói consegue capturar o que chamou de “um pouco de tempo em estado puro”, e percebe, então, que o que ele procurou durante a vida inteira foi um entendimento maior sobre a vida pelo Tempo (e aqui o tempo vira, finalmente, nome próprio). Redescobrindo o Tempo, teve seu entendimento maior da vida e deixou de temer a morte, simplificando, aqui, muito grosseiramente. Na vida real, acho que ele sabia o impacto que sua obra causaria porque embora muito doente, lutou muito para terminar o livro – morreu não muito tempo depois de escrever a palavra fim, declarando-se feliz por ter conseguido, segundo consta.


O Tempo Perdido talvez tenha valido, para mim,  por três anos e meio de psicanálise. Foi difícil, mas acho que passei bem por ele. Ajudou, talvez, o fato de ter lido dentro do que eu acredito ser a idade ideal para ele – ninguém quer se enxergar a fundo aos vinte, trinta anos, e depois dos sessenta algumas verdades podem ser dolorosas demais; em torno dos quarenta já somos capazes de nos ver e admitir, eu acho. Seja como for, mergulhei fundo e fiquei com a sensação que vi o que tinha para ser visto ali.


Espero ler muitos livros, ainda. Espero poder ainda muitas vezes sentir todas as emoções que um bom livro é capaz de provocar em mim. Desconfio, no entanto, que em nenhum outro encontrarei, novamente, a intensidade do Tempo Perdido. Ganhei, ali, incontáveis referências para a vida inteira e talvez tenha alterado em alguns graus a minha ótica sobre o mundo e as pessoas. E quando finalmente aquele inexorável senhor vier ao meu encontro, disfarçado na figura daquela que o tempo de todos encerra, para cobrar pelo tanto de si que me deu, espero, ainda, – e isto é como um sonho bom – poder encará-lo de frente e dizer serenamente: “– Conheço você muito bem e há muito tempo, não precisa tentar me enganar. Eu li Em Busca do Tempo Perdido. Sei que o que me deu sempre foi seu. Não tenho mais medo, pode levar”.


Apenas um post scriptum, antes que isso possa ferir susceptibilidades religiosas. Esta é apenas a resenha de um livro espetacular feita por alguém que julgou ter entendido sua mensagem: nossa relação com o tempo (o tempo dirige nossa vida). Quem ou o que controla o tempo, aí já é uma questão para ser respondida pelas convicções – leia-se, aqui, verdades pessoais – de cada um.

2 comentários em “O dia em que eu me atrevi a resenhar Marcel Proust

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