Cora Coralina, Pablo Neruda, um pouco de Belchior, uma amiga e eu

Domingo, 7 de março de 2021 (e eu sonhei com meu avô ontem à noite)

“Faz da tua casa uma festa! 

Ouve música, canta, dança…

Faz da tua casa um templo!

Reza, ora, medita, pede, agradece…

Faz da tua casa uma escola!

Lê, escreve, desenha, pinta, estuda, aprende, ensina…

Faz da tua casa uma loja!

Limpa, arruma, organiza, decora, muda de lugar, separa para doar…

Faz da tua casa um restaurante!

Cozinha, prova, cria, cultiva, planta…

Enfim…

Faz da tua casa

Um local criativo de amor.” 

            (Cora Coralina)

O Oceano Pacífico azul-cobalto de Isla Negra
(Foto: acervo pessoal)

Todas as vezes que viajo, procuro visitar algum lugar relacionado às referências que eu fui acumulando ao longo do tempo, se houver alguma por lá. Pablo Neruda não é o que eu posso chamar de um dos meus poetas preferidos mas, como disse alguém (talvez tenha sido a Clarice Lispector, mas não tenho certeza) todo mundo já foi jovem e gostou de Neruda um dia. Confesso que no caso dele, acho o homem mais interessante do que sua obra propriamente dita e por isso, quando fui ao Chile alguns anos atrás, fiz questão de conhecer suas famosas casas-museus. 

La Sebastiana é a casa de Valparaíso e foi a primeira que visitei. É uma casa pequena, encarapitada no alto de um dos muitos morros daquela cidade, numa privilegiada posição de ter o mar aos seus pés. É uma construção alta, de três ou quatro pavimentos e com cômodos pequenos e escadas estreitas – um lugar que certamente não deveríamos visitar em tempos de pandemia. Mas é uma casa adorável e cada um de seus recantos conta uma história do poeta, mesmo que só através de um poema. Numa das saletas do segundo pavimento, com janelas de frente para o mar, lembro de ter visto, sobre uma mesinha, seu poema El Oceano Pacifico: 

El mar

El Océano Pacífico se salía del mapa. No había donde ponerlo.

 Era tan grande, desordenado y azul que no cabía en ninguna parte. Por eso lo dejaron frente a mi ventana. 

(O mar

O Oceano Pacífico escapava do mapa. 

Não havia onde colocá-lo. 

Era tão grande, revolto e azul que não cabia em lugar nenhum. Por isso o colocaram na frente da minha janela)

 No último andar da casa só havia o quarto do casal, com uma cama dominando o ambiente e janelões de vidro quase do piso ao teto em frente a ela. Se você ficasse no nível de quem está deitado na cama, tinha a impressão que acordava dentro do mar. E o mar parece mesmo caber todo naquela janela.

Em outro cômodo, encontrei a poesia A La Sebastiana, na qual ele poetou a construção da casa – coisa de poeta, achar poesia em tudo. Quando fiz essa visita, estava começando a construção da minha própria casa e vivenciando todas as ansiedades e frustrações deste projeto. A identificação com o poema foi imediata e de lá eu tirei um trecho que mandei gravar em tinta verde (Pablo Neruda só escrevia com canetas desta cor), com a assinatura escaneada do poeta, e coloquei numa pequena placa, na parede da entrada da minha casa, no dia em que finalmente me mudei:

ya no pensemos más: ésta es la casa:

ya todo lo que falta será azul,

lo que ya necesita es florecer.

Y eso es trabajo de la primavera.

(não pensemos mais: esta é a casa:

tudo o que ainda lhe falta será azul,

o que precisa agora é de florescer.

E isso é trabalho da primavera.)

Continuando a viagem, depois de passear um pouco pelas lindas vinícolas do Vale do Colchagua, fizemos uma parada em Isla Negra, onde há outra das casas do poeta( para mim, a melhor delas). É uma casa que eu mesma construiria, foi a impressão que tive. Cada recanto dela parece ter sido pensado para registrar um pedaço, não só da história, mas da personalidade do dono:

Uma imensa sala, nada convencional em estrutura e formato, com uma estranha coleção de bugigangas e quinquilharias que ele foi reunindo por aí, na qual está incluído até um cavalo de madeira em tamanho natural. 

Um pouco à parte da casa, uma sala que imita um bar, que ele fez para receber os amigos e onde ainda se pode ver marcado, com cartões em cima das mesas, o lugar de cada um destes amigos que ele tinha como certos na vida. 

Neruda tinha medo de navegar, mas na frente desta sua casa, com a proa virada para o mar, há um barco em terra firme onde – diz a lenda – ele entrava com os amigos depois de alguma farra alcoólica para continuarem a aventura, desta vez no agitado mar da embriaguez.

 Tudo isso e muitos outros detalhes dos quais não me lembro mais, espalhados em frente a uma faixa azul-cobalto do seu cantado e decantado Oceano Pacífico. É um lugar simplesmente encantador!

Faltou conhecer La Chascona, a casa do poeta em Santiago. Ficou para uma próxima vez, mas acredito que siga a mesma linha das outras. No seu livro de memórias, Confesso que Vivi, vi o trecho em que ele explica um pouco desse seu amor e entusiasmo pelo que agregou à construção e à habitação, por assim dizer, de seu lar: “Em minha casa fui reunindo brinquedos pequenos e grandes, sem os quais não podia viver. A criança que não brinca não é criança. Mas o homem que não brinca perdeu para sempre a criança que vivia nele e que lhe fará muita falta. Edifiquei minha casa também como um brinquedo e brinco nela de manhã à noite.”. – Para mim ele não precisaria ter explicado nada. – Ah, como eu te entendo, Poeta! Até nos desejos de azul…

O poeminha da Cora Coralina do início do post eu recebi hoje à tarde, num grupo de colegas da faculdade. Uma amiga enviou como algo que a fez se lembrar de mim e me deixou emocionada. Nós vivemos num tempo dificil em que o mundo polarizado quer exigir de você um posicionamento e, de preferência, um radical. Nesse tempo ruim em que amizades são desfeitas por palavras que, como dizia meu mestre Belchior, são navalhas, e no qual não dá para se cantar como convém sem querer ferir ninguém, que bom saber que ainda tem os que sabem um pouco de nós. Aqueles para os quais ainda podemos reservar um lugar à mesa, mesmo que não precisemos navegar num mar de embriaguez. E que bom poder pensar que eu ainda tenho essa festa para fazer, que não é, senão, a festa maior que é a vida. E a casa dos que ainda vivem por aqui (e resistem à pandemia) ainda é a mesma para todos, eu acho. O que muda é só o que cada um guarda nela.

Mas sempre haverá aqueles que, infelizmente, nem casa têm. E o sol, de fato, não é bonito para quem vive na rua.

A vida segue, no entanto, e sempre podemos, todos, seguí-la com fé. 

E o sonho com o meu avô será uma outra história…

3 comentários em “Cora Coralina, Pablo Neruda, um pouco de Belchior, uma amiga e eu

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