Porque navegar é preciso – quatro anos das Histórias da Gata Preta

Segunda-feira, 3 de janeiro de 2022 (e nem é de flores que vou falar. Talvez)

Hoje é o dia em que faria anos J.R. R. Tolkien. É também – e isto não foi intencional, embora seja inspirador – aniversário de 4 anos da primeira história da Gata Preta. Como no ano passado, este também não foi muito produtivo. Não me cobro, no entanto; a ideia sempre foi essa: escrever sem compromissos. Às vezes, apenas para aliviar a rotina, às vezes para aliviar a alma, às vezes só para falar de alguma coisa legal… enfim, escrevo pelos simples prazer e exercício de ordenar ideias para contar uma história. Ah, e como eu gosto delas…. Escape, fantasia… o que quer que justifique já me serve

A fantasia é uma forma superior de arte, na verdade a forma quase mais pura e, portanto, (quando alcançada) a mais potente. “ — foi o Tolkien quem escreveu isso em seu ensaio Sobre Histórias de Fada. É neste ensaio, também, que ele fala que o escape é uma das funções principais dos contos de fadas, e que por isso não aceitava o tom de desprezo ou de pena com que a palavra era tão frequentemente usada. “Por que um homem deveria ser desprezado se, encontrando-se na prisão, ele tenta sair e ir para casa? Ou se ele não pode fazer isso, ele pensa e fala sobre outros assuntos além de carcereiros e muros de prisão? O mundo exterior não se tornou menos real porque o prisioneiro não pode vê-lo.” Numa carta a seu filho Christopher, em 1945, Tolkien disse que uma história deve ser contada ou não existirá história, mas que as histórias não contadas é que são as mais comoventes. Pode ser até que tenha razão sobre isso, mas mesmo assim ele nos deixou um mundo fantástico de histórias também fantásticas e não menos comoventes e bem contadas, mas este é só aquele parêntese que me furta o prêmio literário. 

E já que é de literatura que estou falando, vou dizer logo que comecei meu ano literário de 2022 com o livro As Ondas, de Virginia Woolf (tradução de Lya Luft e isto faz todo o sentido). Tive que brigar com meu marido para evitar os spoilers. Ele leu primeiro (orgasmos literários múltiplos, aqui) e para Virginia Woolf eu não aceito preliminares. Ainda estou no início e o que posso dizer até agora é que é um livro diferente de tudo o que eu li até hoje. Ele não é exatamente uma história como aquelas que achamos que vamos encontrar numa ficção. Não tem um enredo definido e se desenvolve apenas com a transcrição dos pensamentos, e assim, dos mais íntimos sentimentos de seis personagens, todos estudantes de colégios internos que odeiam, diante de cada situação que vivem, simultaneamente. É uma narrativa que, curiosamente, confirma a tese do Tolkien na carta a seu filho, foi o que pensei. Mas fala, também, sobre a maneira como cada um vê (ou pensa) o mundo e como cada um conta a história do que vê, e o bem (ou o mal, sabe-se lá) que isso pode fazer aos outros, também. E é esta a onda que eu pego agora, para comemorar mais um ano por aqui. Histórias, cada um tem as suas. Contadas ou não. A mim, no momento, as histórias dos outros me comovem mais. Como Bernard, embora bem menos pretensiosamente, também anoto algumas. Porque a vida – já dizia Lulu Santos (ou será que foi Virginia Woolf?) — vem em ondas como o mar. E temos que seguir em frente porque navegar é preciso – Esta frase também sempre pode ser útil.

Bernard

” — Enfim, cessam os resmungos do Dr. Crane — disse Bernard — o sermão termina. Ele pulverizou a dança das borboletas brancas na porta. Sua voz áspera e peluda é como um queixo que não foi barbeado. Agora cambaleia de volta ao seu assento como um marinheiro bêbado. É um ato que todos os outros professores tentarão imitar; mas relaxados, insignificantes, usando calças cinza, só conseguirão ser ridículos. Não os desprezo. A meus olhos, os trejeitos deles parecem dignos de comiseração. Anoto este fato com vários outros em meu caderno, para futuras referências. Quando crescer, levarei comigo um caderno de notas — um livro gordo com muitas páginas, metodicamente alfabetado. Colocarei nele minhas frases; na letra P haverá: ‘pó de borboleta’. Se, no meu romance, eu descrever o sol no peitoril da janela, olharei no P e encontrarei ‘pó de borboleta’. Será útil. A árvore ‘sombreia a janela com dedos verdes”. Isso será útil. Mas, ai de mim! Logo me distraio com cabelos que parecem açúcar-cande trançado, ou com o livro de orações de Célia recoberto de marfim. Louis consegue olhar a natureza uma hora inteira sem piscar. Eu logo fracasso, a não ser que me advirtam. “O lago da minha mente,  intocado pelos remos, ergue-se plácido e logo cai numa sonolência oleosa”. Esta frase poderá ser útil.”

Neville

— E agora — disse Neville — deixemos Bernard começar. Deixemos que se enrede, contando-nos histórias enquanto estamos aqui deitados, ociosos. Deixemos que descreva o que todos vimos, de modo a se tornar uma sequência lógica. Bernard diz que sempre há uma história. Eu sou uma história; Louis é uma história. Existe a história do menino das botas, a história do homem de um olho só, a história da mulher que vende caracóis. Que ele se enrede com sua história enquanto me deito de costas, contemplando os vultos de pernas duras, que são os batedores do jogo vivo através dos trêmulos talis de grama. Parece que o mundo inteiro desliza e recurva-se — na Terra as árvores, no céu as nuvens. Ergo o olhar, através das árvores, até o céu. O jogo parece ter terminado ali. Tênue entre as macias nuvens brancas, ouço o grito: “Corra”; ou grito: “O que foi?”. As nuvens soltam tufos de brancura quando a brisa as dissolve. Se este céu azul pudesse permanecer para sempre; se esta abertura pudesse durar para sempre; se este momento pudesse ficar para sempre…

— Mas Bernardd continua falando. Lá vão elas borbulhando —  as imagens: “como um camelo”…”um abutre”. O camelo é um abutre; o abutre, um camelo; pois Bernard é um fio pendurado, solto, conquanto sedutor. Sim, quando ele fala, quando faz suas tolas comparações, ficamos iluminados. E flutuamos também como se fôssemos uma bolha de ar; ficamos libertos; escapei, é o que a gente sente. Até os meninos gorduchos (Dalton. Lampert e Baker) sentem o mesmo abandono. Gostam mais disso do que de críquete.Apanham as frases enquanto elas borbulham. Deixam os talos penugentos de grama fazer cócegas em seus narizes.(…)

4 comentários em “Porque navegar é preciso – quatro anos das Histórias da Gata Preta

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