Sobre livros novos e o pó da nossa biblioteca – crônica de um domingo qualquer

Domingo, 6 de fevereiro de 2022 (mais de 2.400 palavras hoje, mas nem todas minhas)

“Livro novo é aquele que você nunca leu” — esta é a máxima de marketing da Estante Virtual, aquele sebo on-line de compra e venda de livros usados. Por conta dele – e principalmente pela mão de meu marido – nossa biblioteca é hoje muito mais rica, tanto em literatura como em poeira. A poeira nós limpamos de vez em quando mas a riqueza que se lhe acrescenta, esta não temos nem como contabilizar. E eu, apesar de ser alérgica e pensar que nada se compara ao cheiro de um livro novo, também considero inigualável a sensação de manusear um livro de páginas velhas, que já foi muito lido e por muitos olhos. Existe uma certa sensação de pertencimento e de continuidade nisso, eu penso. Da raça humana, eu quero dizer. (Talvez). Não tem aquela velha história de o ser humano ser um só e blá, blá, blá…? Pois é mais ou menos por aí. Esta tese, quem a provou foi o tempo, aquela entidade a quem ninguém engana. Sobre as semelhanças da humanidade através dele, algumas acabam entrando naquela minha cadeia algo patológica de encadeamentos pessoais. E culturais. E literários, também e principalmente. 

Eu ando com uma preguiça indizível em relação a tudo o que se relaciona aos seres humanos ultimamente, daí as minhas fábulas de quintais e beija-flores. Paradoxalmente a isso, reduzi em alguma intensidade a minha leitura de ficção. Não por tédio ou desencanto e nem nunca, jamais, totalmente. Continuo com minha dose diária de poesia e intercalando romances e contos novos e antigos com outros tipos de leitura. Políticas, filosóficas, científicas (por força de trabalho e do momento) e também culturais. É, eu sou chata pra caramba! Evito um pouco a mídia convencional e ando muito pelo estrangeiro (“É preciso sair da ilha para ver a ilha”) e pelos nacionais mais fora do padrão. Vejo sites de fofoca, também. E de utilidades do lar, jardinagem, fotografia, arqueologia e sobre aviação. A minha chatice é quase sempre silenciosa, no entanto; não encho muito a paciência de ninguém. Como também não aceito que encham a minha, devo dizer. E não faço distinção de “lado” quanto a isso – tenho achado coisas boas em ambos e aqui não tenho vergonha nem medo de dizer isso. Tenho uma atração especial pelos críticos de suas próprias convicções e uma verdadeira aversão a todo tipo de pensamento radical. Por isto, leio artigos e crônicas de Mário Vargas Llosa com a mesma disposição e curiosidade com que escrutino as cartas de George Orwell e os últimos escritos de Eduardo Galeano. E gosto de Sérgio Reis e de Zeca Duncan, ouço muito Eric Clapton e curto Neil Young. Mas – preciso muito dizer isso – nunca tive nenhuma Joe Rogan Experience no meu currículo, no entanto.

Deus, de Carlos Ruas, em Um Sábado Qualquer – quando rir se faz necessário, poucas tirinhas superam essas.

E foi o George Orwell quem disse que hoje não existe mais uma História contemporânea que possa ser universalmente aceita. Que cada um (povo, governo etc) conta – ou contou – a história da maneira que melhor lhe serve ou serviu num determinado momento. Eu, sem querer contrariá-lo de todo, ultimamente tenho pensado que esta história talvez nunca tenha existido, de fato. Fui uma aluna razoável de História e geopolítica me despertou a curiosidade antes de ser inventado o termo. E já lutei a minha cruzada do idealismo, também. No que diz respeito à política, pelo menos, não acredito mais em convicções, acredito em conveniências.” — Ah, mas isso é tão raso… Tão fácil de se dizer que chega a ser vulgar”, dirão alguns. E então eu fico pensando (e isso dói, sim, às vezes): Eu já sou chata o suficiente em minhas leituras pessoais, mentecapta (gratidão eterna a Fernando Sabino por isto) o bastante nas minhas mais silenciosas reflexões e óbvia ao extremo quando faço minhas analogias. Então, por que eu não me limito às minhas memórias de beija-flores? Ou a discorrer sobre a poesia do dia a dia, um livro, um quadro, um poema, uma música, uma flor, que seja? Eu não deveria precisar das convulsões das Pólis para ser feliz, aqui e ali… Mas, como diziam os antigos, quem sai aos seus não degenera. E animais políticos nós somos. De Aristóteles eu pouco entendo mas já li, de Mário Vargas Llosa, que a “A política arrebata até a medula a vida cultural em todas as suas manifestações e os extremos deixam um pequeno espaço para um centro democrático e liberal que tem poucos defensores no mundo intelectual.”. Então este é o gancho que me pega. Nessa crônica, mexendo em sua biblioteca particular ele encontra um livro de Sartre que leu quando jovem. Revisando seus grifos e seus pensamentos sobre aquilo, vai justificando parte da sua decepção com aquele que foi um importante guru de sua juventude. Quem conhece um pouco da história de Vargas Llosa sabe de seu primeiro caminho pela esquerda e da freada brusca, seguida de uma guinada que foi do centro à direita. E também do soco que deu no Gabriel García Marquez mas este último foi um assunto selado por um pacto de silêncio, daqueles que só os cavalheiros fazem. Li pouco de sua ficção mas gosto de suas crônicas. Nesta, em questão, ele se diz assustado com o fato de pensadores que chegou a considerar como “os mais lúcidos do meu tempo” deixarem-se cegar, em questões elementares, por preconceitos políticos.

E aí eu sigo pensando: Culpa de Aristóteles, será?

Livro novo é o que você nunca leu e hoje, à exceção das páginas escritas pela ciência, não há nenhum cheiro de livro realmente novo no ar, que eu possa sentir. As redes sociais atualizam a nossa  barbárie em tempo real enquanto os bons e os maus livros novos que vêm das livrarias nos contam as mais engenhosas variações de histórias já muitas vezes contadas. Nos velhos, tirados o pó, o cheiro de mofo e as crises de espirros, estamos todos lá, indefectivelmente, por entre os desastrosos e os muito piores. Os mais lúcidos do meu tempo, tenho um ou outro nesta conta, mas nenhum deles é político de carteirinha, estrelinha ou arminha. Alguém mais alto a me guiar é só uma questão de crença pessoal ou um verso daquela linda música do Dominguinhos. Como na música, quem me leva e quem me traz sou eu mesma. E isto, nem a pior nem a melhor criatura humana que eu conheço conseguirá me tirar.

No momento o livro que eu estou lendo é Noites do Sertão, de Guimarães Rosa, edição de capa dura, de 1988. O primeiro conto, Dão-Lalalão (O Devente), porque o segundo, Buriti, eu já tinha lido pela internet. Um livro velho, numa edição velha, e tão novo quanto velhos somos. E, ainda sobre livros velhos, não resisti à tentação de trazer mais um. Que me perdoem a falta de limites hoje mas sigamos adiante, com fé e coragem, nós, os bons leitores. Até a “plenitude do tempo”, parafraseando Elizabeth the second. Em frente, com Fernando Pessoa. 

Sucede que tenho precisamente aquelas qualidades que são negativas para fins de influir, de qualquer modo que seja, na generalidade de um ambiente social. Sou, em primeiro lugar, um raciocinador, e, o que é pior, um raciocinador minucioso e analítico. Ora o público não é capaz de seguir um raciocínio, e o público não é capaz de prestar atenção a uma análise. Sou, em segundo lugar, um analisador que busca, quanto em si cabe, descobrir a verdade. Ora o público não quer a verdade, mas a mentira que mais lhe agrade. Acresce que a verdade — em tudo, e mormente em coisas sociais — é sempre complexa. Ora o público não compreende ideias complexas. É preciso dar-lhe só ideias simples, generalidades vagas, isto é, mentiras, ainda que partindo de verdades; pois dar como simples o que é complexo, dar sem distinção o que cumpre distinguir, ser geral onde importa particularizar, para definir, e ser vago em matéria onde o que vale é a precisão — tudo isto importa em mentir.

Sou, em terceiro lugar, e por isso mesmo que busco a verdade, tão imparcial quanto em mim cabe ser. Ora o público, movido intimamente por sentimentos e não por ideias, é organicamente parcial. Não só portanto lhe desagrada ou não interessa, por estranho à sua índole, o mesmo tom da imparcialidade, mas ainda mais o agrava o que de concessões, de restrições, de distinções é preciso usar para ser imparcial. Entre nós, por exemplo, e em a maioria dos povos do sul de Europa, ou se é católico, ou se é anti-católico, ou se é indiferente ao catolicismo, porque a tudo. Se eu, portanto, fizesse um estudo sobre o catolicismo, onde forçosamente teria que dizer mal e bem, que apontar vantagens misturadas com desvantagens, que indicar defeitos aliviados por virtudes, que me sucederia? Não me escutariam os católicos, que não aceitariam o que eu dissesse de mal do catolicismo. Não me escutariam os anti-católicos, que não aceitariam o que eu lhes dissesse de bem. Não me escutariam os indiferentes, para quem todo o assunto não passaria de uma maçadoria ilegível. Assim resultaria inútil esse meu estudo, por cuidado e escrupuloso que fosse — direi, até, tanto mais inútil, porque tanto menos aceitável ao público, quanto mais fosse cuidado e escrupuloso. Seria, quando muito, apreciado por um ou outro indivíduo de índole semelhante à minha, raciocinador sem tradições nem ideais, analisador sem preconceitos, liberal porque liberto e não porque servo da ideia inaplicada da liberdade. A esse, porém, que teria eu que ensinar? Quando muito, certas coisas particulares sobre o catolicismo, na hipótese que me serviu de exemplo, e no caso de lhe ser a ele estranho o assunto. E se a ele, perscrutador cultural como eu, o assunto é estranho, é que nunca o interessou; se nunca o interessou, para que vai ler o que escrevi sobre ele?

De aqui parece dever concluir-se que um estudo raciocinado, imparcial, cientificamente conduzido, de qualquer assunto é um trabalho socialmente inútil. Assim de facto é. É, quando muito, uma obra de arte, e mais nada. Vox et preterea nihil.

As sociedades são conduzidas por agitadores de sentimentos, não por agitadores de ideias. Nenhum filósofo fez caminho senão porque serviu, em todo ou em parte, uma religião, uma política ou outro qualquer modo social do sentimento.

Se a obra de investigação, em matéria social, é portanto socialmente inútil, salvo como arte e no que contiver de arte, mais vale empregar o que em nós haja de esforço em fazer arte, do que em fazer meia-arte.

Reconhecendo que todas as doutrinas são defensáveis, e que valem, não por o que valem, senão pela valia do defensor, concentrar-nos-emos mais na literatura das defensivas do que no assunto delas. Faremos contos intelectuais onde, pelo primeiro e imprudente impulso, faríamos estudos científicos. Ser-nos-á indiferente a verdade da ideia: em si mesma; não é mais que a matéria para um belo argumento, para as elegâncias e as astúcias da subtileza.

Timbraremos, por um movimento idêntico em sentido inverso, em mostrar a parvoíce das ideias aceites, a vileza dos ideais nobres, a ilusão de tudo quanto o povo crê ou pode crer. Salvaremos assim o princípio aristocrático, que na ordem social se afundou, deixando atrás de si o vácuo de uma universal, monótona escravidão.

Seremos dissolventes? Como dissolventes, se não temos acção sobre o público, se nos não lêem senão os que lêem arte pela arte, arte intelectual, arte feita com ideias em vez de ritmos, e esses, pequeníssimo número humano, ou estão já dissolvidos, ou são fortes, pela inteligência e a cultura, contra toda a dissolução?

Dissolvente, socialmente, é a doutrina social do que não está. Foi dissolvente e anti-social, no sentido de prejudicar a ordem e a harmonia dos povos, o cristianismo quando o paganismo era a civilização. Foi dissolvente e anti-social a Reforma, quando a civilização de Europa era católica. Foi dissolvente e anti-social a doutrina da Revolução Francesa, quando a civilização da Europa era o Antigo Regime. São hoje dissolventes todas as doutrinas sociais que reagem contra as dessa mesma Revolução. Quem hoje prega a sindicação, o estado corporativo, a tirania social, seja fascismo ou comunismo, está dissolvendo a civilização europeia; quem defende a democracia e o liberalismo a está defendendo.

Quer isto dizer que não há doutrinas dissolventes senão por sua situação ocasional? Quer dizer isso mesmo. A mais «radical» das doutrinas, desde que seja universalmente aceite, é uma doutrina conservadora; a mais «conservadora», se nessa altura se opuser àquela, será radical.

Quer isto dizer que não há princípios fundamentais na vida das sociedades? Não quer dizer isso; quer porém dizer que, se os há, nós os não conhecemos. Não há ciência social, não sabemos como nascem, como se conservam ou não conservam, como crescem ou decrescem, como se estiolam ou morrem, as sociedades. A existência da humanidade, se por ela se entende qualquer coisa mais que a espécie animal chamada homem, é tão hipotética e racionalmente indemonstrável como a existência de Deus. Se, porém, por humanidade, se entende a espécie animal chamada homem, então existe para os biologistas, para os médicos — para todos quantos estudam, de um modo ou de outro, o corpo humano; existe como existem os peixes e as aves, e mais nada.

Que princípio social se pode erigir em fundamental? Todos e nenhum, conforme a habilidade do argumentador. Há períodos de ordem que o são de estagnação, como a longa vida morta de Bizâncio. Há-os que são «de actividade intelectual, como os da Antiga Monarquia francesa. Há períodos de desordem que são a ruína intelectual dos países em que se dão, como o Império Romano em declínio, ou a época da Revolução Francesa, propriamente dita. Há períodos de desordem fecundos em produção intelectual, como o da Renascença nas repúblicas italianas, como o que abrange o tempo de Isabel e de Cromwell em Inglaterra.

Refiro-me à produção intelectual, supondo-a uma vantagem, e, ao menos, parte da civilização. Não insisto nisso, porém, e posso aceitar a doutrina de que a cultura e a arte são um mal, de que é paz e não sonetos o que mais importa à humanidade. Mas quais são as circunstâncias que produzem a paz, quais as que a não produzem? Encontraremos as mesmas causas dando diferentes efeitos, ou, melhor, encontraremos as mesmas circunstâncias com diferentes resultados — o que quer dizer que não são causas, mas coincidências, que qualquer coisa que se considera uma vantagem social, seja uma sinfonia ou o jantar certo, pode aparecer em circunstâncias sociais diferentes, sem que saibamos nunca de onde veio a sinfonia, porque é que se conseguiu que o jantar não faltasse.

Acresce que, assim como não há ciência social, assim também não há arte social, finalidade certa da existência das sociedades. Aqui o problema, que era semelhante ao da metafísica, torna-se metafísica mesmo. Para que fim existem as sociedades? Para fazer a felicidade dos que as compõem? Não o sabemos, e o certo é que a felicidade varia de tipo de homem para homem, e há muitos que de bom grado perderiam a mulher, desde que não percam a colecção de selos. (…)

s.d.

Fernando Pessoa, de “Páginas Íntimas e de Auto-Interpretação”. Fernando Pessoa. (Textos estabelecidos e prefaciados por Georg Rudolf Lind e Jacinto do Prado Coelho.) Lisboa: Ática, 1966. – 74.

2 comentários em “Sobre livros novos e o pó da nossa biblioteca – crônica de um domingo qualquer

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  1. Crônica muito interessante! Vivemos em um mundo complicado mesmo. De minha parte, prefiro me esconder nos meus livros de ficção. A vida já está chata demais para que eu leia coisas chatas. Quanto à política, ando meio radical, e por um nada taxo todo mundo de fascista! Mas isso também vai passar um dia, assim espero…

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