Crônica de junho atrasada: que nunca nos faltem as ilhas!

Sábado, 2 de julho de 2022 (antes tarde do que nunca mais)

“Férias escolares, trânsito bom e um céu azul quase sem nuvens. Tivemos praticamente sete meses de chuva, este ano, e isso deve ter atrasado o vento solto dessa época, mas uma brisa leve já começa a soprar por aqui. A caminho do trabalho, passo por uma avenida que é ponto de caminhada na cidade e sinto a já conhecida e domesticada ‘invejinha do bem’ daquelas pessoas que podem fazer exercícios físicos nesta hora da manhã. O pensamento-consolo é “Um dia…”. Para fugir de uma música nada-a-ver-com-o-clima, troco a estação do rádio e escuto um resumo de notícias com a chamada para um programa nomeado de ‘Bloco da Má Notícia’, que se inicia naquele momento. Já assombrada, e na dúvida entre rir, chorar ou voltar à música nada-a-ver, desligo o rádio e acolho o silêncio amigo, isolada do mundo, dentro do meu carro. Vida que segue.”

Este era o começo da crônica do mês de junho, que comecei a escrever na quarta-feira para postar na sexta, último dia do mês. Só que o último dia do mês foi na quinta; meu calendário mental anda meio retardado. Apenas ontem fui me dar conta disso e aí a crônica já não cabia mais. Então agora eu pego outro gancho e começo do zero. Ou quase.

Truman Capote foi um escritor de uma versatilidade incrível, que fez um passeio memorável por diversos gêneros literários. Uma volta por seus ensaios, crônicas e contos é sempre garantia de uma boa distração. Tem dois contos dele, todos dois autobiográficos, que eu adoro. Do meu preferido eu falarei num momento oportuno, e o segundo deste ranking é O Convidado do Dia de Ação de Graças. É um dos contos no qual ele narra, através de personagens muito parecidos com os originais, sua infância com parentes, numa fazenda do sul dos Estados Unidos. Morou lá por alguns anos devido à incapacidade de seus pais para tomar conta dele, numa daquelas complexas histórias da sociedade americana na primeira metade do século XX. O conto é excepcional, e de tudo de sensível da natureza humana que toca, um detalhe dele me disse muito mais. Quando descreve a casa em que morava, ele fala da Ilha, um lugar dela onde ele se isolava do resto do mundo, principalmente quando não conseguia (ou não queria) se colocar nele. E onde nada nem ninguém conseguia atingí-lo. No trecho ele diz que A Ilha era “Um lugar ao que ia quando me sentia triste e inexplicavelmente entusiasmado ou quando queria pensar nas minhas coisas”. Um lugar onde ele era só ele e podia praticar toda a sua pouca individualidade. Quando estava apagando o rascunho da crônica-de-junho-não-postada,  chateada com o engano e com vontade de escrever outra coisa, também estava no meio de uma estrada a caminho do mar. Talvez por isso tenha me lembrado da ilha do Capote e, em sua homenagem, segurei a introdução dela. E segui pensando em ilhas. As minhas.

Uma ilha no meio de um canal no fim do mundo – exercício.

O banheiro deve ser um clássico! Nunca tive nenhum com o charme antigo que enxerguei na descrição do que havia na fazenda onde o Buddy morava, mas os meus sempre me serviram, desde criança. Brincar, ler em paz (às vezes livros proibidos), esperar passar a raiva, conversar ao telefone sem interrupções, interromper uma atividade chata… É aquele recanto da casa que, em tese, ninguém vai dividir com você e todo mundo vai respeitar. Nunca falhou para mim, também, e é, até hoje, um dos meus maiores redutos de tranquilidade.

Um bom livro. Para mim, poucas coisas no mundo funcionam melhor para acalmar uma angústia ou colocar os pensamentos acelerados em modo slow motion do que mergulhar num mundo distinto do meu, em horas precisas. Claro que não funciona com toda leitura, precisa ser uma boa leitura. Mas ler é uma experiência que pertence só a mim num determinado momento, e o que vem disso é totalmente pessoal e intransferível, também. Algo que eu não preciso dividir com ninguém, a não ser que queira. Se for num lugar que ninguém me interrompa, melhor ainda. Como no banheiro.

O visor da lente de uma câmera fotográfica quando o comando do clique é meu. A maneira de ver o mundo através da lente de uma câmera é outra coisa sobre a qual eu tenho absoluta precedência na vida. O que os outros verão a partir daquela fotografia é dos outros, mas a viagem no momento de fazer a foto é exclusivamente minha. É um momento de individualidade absoluta, plena, em que o meu diálogo é apenas com meus pensamentos e eles estão, naquele momento, concentrados em fazer com que o assunto que está na frente corresponda ao que eu – e somente eu – espero dele. É um refúgio que transcende o tempo. O que dizer que é uma Ilha tão eficaz que eu consigo abstrair o tempo (se eu tivesse o tempo).

 Dirigir – e é aqui que eu volto à introdução da crônica perdida – um carro sozinha. Ter nas mãos a fugaz sensação de poder ir aonde quiser; parar, diminuir a velocidade, acelerar, virar à direita ou à esquerda, frear bruscamente ou simplesmente continuar em frente… Poder optar pelo silêncio amigo sem precisar explicar… Ouvir no rádio uma música nova ou uma música velha há muito tempo esquecida. Deixar a imaginação correr solta e reparar no sol da manhã num calçadão de caminhada ou ver o reflexo dele nos troncos dos angicos brancos na beira do rio, num fim de tarde. Fazer viagens que só eu sei e ver, muitas vezes antes de sentir, o vento solto no mundo no mês de junho. E ter o poder de me desligar, com um simples giro de botão (e mesmo que por períodos breves), das más notícias do mundo. 

No famoso sermão do John Donne, que tornou célebre a expressão por quem os sinos dobram, ele diz que nenhum ser humano é uma ilha isolada, que se basta por si; que cada um de nós é como um pedaço de terra que completa um continente e a falta de qualquer parte diminui o todo. De dentro da minha natureza assumidamente gregária, entendo muito o que ele quer dizer e sou obrigada a concordar. E tenho que dizer que coabito em vários desses continentes – na verdade, pequenas ilhas de segurança – com muito prazer. São aqueles refúgios seguros, com um tipo de segurança que só temos entre os que nos querem bem. Mas acho, também, que o mundo exterior, qualquer que seja ele, toma muito da nossa energia. E que de vez em quando precisamos de uma recarga dela para continuar trambecando por ele. Daí as ilhas.

Neste momento em que termino esta crônica o som que preenche o mundo ao meu redor é o das ondas do mar, quebrando na areia a trinta metros da minha janela. Anda longe de ser silêncio mas é um dos meus sons amigos preferidos no mundo. Quando sair do quarto onde estou escondida para terminar de escrever, encontrarei quase todo um lado da minha família reunido. Menos silêncio, ainda, mas, mais ilha, impossível! Daquele outro tipo delas. Chegando de fora, só o vento, soprando forte. Vida que segue!

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