Setembro finda e a vida segue

Sexta-feira, 30 de setembro de 2022 (vida que segue, esperança que luta. E que calor!)

Sexta-feira e eu em casa, sem nenhum plano mais alto a me guiar. Semana dura, calor infernal e inferno na Terra, também, com a proximidade da eleição. Sobre este assunto e o estrago que ele tem feito no meu entorno eu não tenho vontade de falar. Enquanto se espera pela grande festa da democracia, no domingo, sua prerrogativa mais visceral, a liberdade, faz por onde se valer. Na defesa pelo seu ‘lado certo’ da história, cada um propaga o que quer e eu tenho visto para todo lado o destroço que isso provocou: Famílias literalmente divididas, amizades antigas fraturadas – algumas, talvez irreversívelmente –, e o respeito ao próximo (e ao distante  também) escoando pelo ralo numa velocidade absurda. Sem paixões, crenças cegas, idolatrias ou bandeiras para o momento, tento meu velho truque do olhar  meio ‘de fora’. Mas, não tenho como negar Aristóteles e a tensão me alcançou, também. Então eu escapo da maneira como eu sei fazer. Por aqui, enquanto houver uma história, sempre haverá um meio.

Um dia desses eu li um texto sobre música (não me lembro bem se era um artigo ou uma matéria sobre um estudo), que dizia que se um introvertido em alguma parte do mundo gosta da mesma música que os introvertidos de qualquer outro lugar, isto pode sugerir que a música deve ser uma ponte poderosa, que ultrapassa barreiras geográficas, de idiomas e/ou culturais. Fiquei pensando sobre isso e acabei concluindo que não é só a música que faz isso. Se pensarmos só um pouquinho, vamos ver que a literatura, a pintura e qualquer outra manifestação artística pode produzir este mesmo efeito nas pessoas, e têm feito isso, de fato, ao longo dos nossos séculos de existência. Daí a explicação para os bestsellers mundiais, por exemplo. Mas não é só para a arte que isso vale! O mesmo gosto por determinada atividade, por um certo tipo de aroma, por um sabor específico, que seja, citando só o corriqueiro, é encontrado em pessoas diferentes pelo mundo inteiro. Isso, para mim, só alimenta a minha velha tese (minha e do Jorge Luis Borges) sobre o quão ‘iguais’ a outros alguns de nós somos. Que o “gene pai” do nosso comportamento é o mesmo, ainda que os padrões genéticos tenham se diversificado e se espalhado pelo planeta inteiro. E que a ‘ponte’ poderosa é, na verdade, apenas a nossa pura natureza humana que, por ascendência direta ou atavismo, espalha nossos ‘replicantes’ pelo mundo afora. Daí aquela sensação de pertencimento ou a empatia imediata que sentimos diante de um texto, uma música, um lugar ou até uma atitude qualquer, relacionados a realidades, na maioria das vezes, distantes anos-luz da nossa própria. Sempre foi assim e assim sempre será, é o que eu acho.

Sem precisar cruzar qualquer barreira efetiva, às vezes nós podemos ser pegos de surpresa com o tanto de nós que nossos filhos ‘replicam’, mesmo com o respaldo da genética simples. Não estou falando aqui em aparência física, e isto talvez derrube a parte simples da genética. Falo mais sobre os outros tipos de herança que passamos para eles. Do que de nós fica neles como referência para a vida. Quando são coisas boas, dá aquela sensação de plenitude que hoje eu traduzo como felicidade. Com dois filhos adultos, estas surpresas que se apresentam aqui e ali me ajudam a pensar que nós andamos por um caminho legal, aqui em casa. Minha filha consegue decifrar até os meus silêncios e sabe como ninguém quando eu preciso assistir a um filme novo da Disney com ela. E quanto ao meu filho, até os assuntos esdrúxulos que aparecem no meu feed de notícias são os mesmos que aparecem para ele. E foi dele que eu recebi, um dois meses atrás, e numa outra sexta-feira como essa, praticando nadismo em casa, esta pequena crônica de escape que posto aqui hoje. Ele estava em viagem e me enviou o texto da estrada, pelo zap. O que me pegou totalmente de surpresa, diga-se de passagem, tanto pelo inusitado da situação como pelo fato em si. Eu nem sabia que ele escrevia! Meu filho não chega a ser um introvertido, mas escrever sobre coisas assim não é exatamente uma das características de sua personalidade. Seja como for, o texto me deixou emocionada. E é com ele que eu escapo por aqui hoje, transcrito como ele me passou no dia, sem as correções que ele me pediu ou as sugestões que eu normalmente daria. Se é para escapar, que seja no jeito original dele. 

“Passa um esboço de crônica a limpo pra mim? Pra eu não perder no fim de semana

Vim escrevendo no ônibus

Aí quando chegar, algum dia eu termino

Até me baseei um pouco em algum texto teu que li uns tempos atrás, no começo

E eu quero terminar esse algum dia, é uma frase q eu tenho na cabeça faz muito tempo e finalmente encontrei algum sentido pra conectar

Sempre me interessaram as histórias que as pessoas contam nos sertões desse país. Aquelas velhas crendices, causos e prosas que, quem teve a sorte de participar de alguma roda de conversa numa fazenda debaixo de um céu estrelado, sabe bem do que estou falando. De minha própria experiência, apesar de garoto da cidade, cresci ouvindo atento as tantas histórias que minha mãe reproduzia da terra onde passou a infância.

O que me enfeitiçava não eram os lobisomens, velhas sob a cama, aparições ou simpatias. O que me enfeitiçava era a religiosidade e confiança que aquilo tudo era contado, como se os causos tivessem acontecido com o próprio locutor, ou com algum amigo muito próximo. Me transportava para um tempo que nunca vivi, um tempo longe da correria da tecnologia do século XXI onde fui criado, um tempo onde não vivíamos por megabytes por segundo e nem tudo precisava de uma explicação imediata no Google. Era possível, mesmo que por trinta minutos de conversa, acreditar em toda aquela fantasia que escutávamos. “A modernidade não tem mais tempo para histórias de fantasma” . Arrisco dizer que os próprios fantasmas, se perguntados, responderiam (com suas vozes cientificamente transformadas no vento pela fresta que deixamos aberta na janela), que não vêem mais graça alguma em nos assombrar.

Foi com tudo isso na cabeça que, um dia, despretensiosamente lendo um blog pela internet, me deparei com uma entrevista de um velho violeiro na sua terra natal. O violeiro contava sobre as provações que  eram necessárias para dominar sua arte. Contou que, quando tinha 15 anos, seguindo conselhos dos antigos, se embrenhou mata adentro pela madrugada, até se deparar com uma cobra coral. Encontrando o réptil, imobilizou-o, segurando sua cabeça com o polegar e o indicador da mão direita, e deixou-o se enroscar nos dedos de sua mão, removendo-o com a outra mão e devolvendo-o, em seguida, para onde o havia encontrado. Segundo ele contou, isso deu firmeza em sua mão para dedilhar o instrumento o restante da sua vida. Outra maneira de atingir-se a maestria era encontrar o túmulo de um grande violeiro e, à meia noite de uma sexta feira 13, rezar três ave Marias nele. Um frio na espinha percorreria seu corpo, indicando a presença do espírito, então deveriam ser rezadas mais três ave Marias, ganhando assim a benção do violeiro falecido.

Deixando um pouco as crendices de lado (e o manuseio de animais peçonhentos), a história sobre o túmulo me deixou bastante tocado. Ela carrega uma sabedoria muito mais bela do que um simples misticismo que hoje taxaríamos como mentira ou perda de tempo. Ela fala sobre prestar homenagem e respeito a quem veio antes de nós e a tudo aquilo que eles construíram, que é o alicerce para nossa própria história e quem vamos nos tornar. Não é sexta feira 13, tampouco vou a túmulo algum, mas deixo nessas linhas também minhas três ave Marias para meus mestres: Belchior, Garcia Marquez, David Bowie, Jimmy Hendrix, Cazuza, Cartola etc, e para cada contador de histórias que espalha a sabedoria dessa cultura semi-esquecida pelas estradas desse país.”

E assim eu fico por aqui, pensando com meus botões nas historinhas boas que a vida me traz… E quanto aos filhos, se não os temos, como sabê-los? 

P.S.: Enquanto eu terminava esta crônica, do nada caiu uma chuva rápida e forte, amenizando o calor absurdo e deixando um cheirinho de terra molhada pelo ar. Vida que segue, esperança que luta!

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